Rui Cernadas: o tempo passa depressa
DATA
24/09/2013 06:01:15
AUTOR
Jornal Médico
Rui Cernadas: o tempo passa depressa

Há quem sustente que a ética é tão simplesmente o acto de viver, podendo questionar-se outros enquadramentos, mas nunca essa inerência consequente.Querer misturar ética e pagamento ou sustentabilidade é tentar homogeneizar água com azeite.

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rui_cernadas.jpgO tempo passa a correr e outras vezes, como se sabe, passam alguns a correr pela vida. Um e outra, o tempo e a vida, digladiam-se eternamente, condenados a uma efémera convivência, umas vezes mais festejada, outras, mais pesada...

As férias são, por tradição, para quem as goza, esperando-se que as tenha merecido, um exemplo de efemeridade sempre aludido.

O problema está na capacidade de darmos importância às coisas e atentarmos no que nos rodeia, sendo certo que a catadupa de informação que nos afoga, não só não facilita, como desperdiça.

Um desses exemplos, a que se faz agora justiça e memória, foi a celebração dos 30 anos de existência da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar.

Também os 30 anos parecem ter voado!

Uma palavra amiga e de gratidão aos esforços e dedicação dos seus sucessivos presidentes, nomes maiores da classe médica e da MGF em particular, a quem por motivos diferentes me ligam laços da maior estima: Mário Moura, Luís Pisco, Eduardo Mendes e João Sequeira Carlos.

Há discussões que fazem todo o sentido.

Uma delas, talvez por fazer de modo profundo, continuado e decisivo, tem a ver com o exercício da medicina e o facto de em particular, em Portugal, estar por regular o Acto Médico.

Uma Lei que faria todo a diferença no entendimento que a sociedade deve ter face a práticas menos adequadas ou responsáveis, no interesse dos cidadãos e da defesa da saúde pública.

Uma lei que anos após anos fica adiada e pior, silenciada.

Mas para além disso, é tempo de discutir a ética na saúde.

E de deixar claro que, ao contrário de que li e ouvi, não pode haver "ética em tempo de crise" e "ética em outros tempos".

Não pode haver espaço para éticas diferentes, umas vezes em razão de argumentos económicos ou financeiros, outras em função de ideais políticos, outras ainda em função de razões rácicas ou sociais!

Há quem sustente que a ética é tão simplesmente o acto de viver, podendo questionar-se outros enquadramentos, mas nunca essa inerência consequente.

Querer misturar ética e pagamento ou sustentabilidade é tentar homogeneizar água com azeite.

Sejamos sérios e tranquilos, mas não deixemos de levar este debate e reflexão ao país.

Por exemplo, porque não desafiar a Ordem dos Médicos a abrir à sociedade portuguesa essa discussão tão necessária quanto premente?

Outro tema tem a ver com a avaliação dos médicos e o SIADAP, agora na Administração Pública a atingir estes profissionais.

Poder-se-à tratar de um processo muito complicado, burocratizado e demorado, implicando sacrifícios e perturbações na actividade dos clínicos, sobretudo dos avaliadores e com eventuais repercussões no seu trabalho. Mas deriva directamente da vontade do empregador e do que negociou com as representações sindicais e nessa medida acentua a relação jurídica de emprego na actividade dos médicos e restantes trabalhadores da função pública...

Diferente seria a discussão à luz duma reformulação da regulamentação profissional e do papel das ordens profissionais.

Lamenta-se que em Portugal a separação entre a actividade das Ordens e a dos sindicatos não seja nem muito clara, nem inequivocamente assumida, mas a história vai confirmando - até pelos percursos eleitorais - essa proximidade.

Uma vez mais, o exemplo do Reino Unido poderia ser invocado, tal como foi para nós em matérias como o SNS e o NICE!

É que as Ordens parecem não assumir realmente a protecção dos cidadãos e dos contribuintes, por delegação do poder do Estado, preferindo optar pelo perfil mais simples de defesa corporativa dos seus profissionais.

Na verdade, falta uma autêntica mudança cultural no paradigma das ordens profissionais em Portugal, até no sentido da informação e instrução por uma cidadania de elevação e compreensão das actividades respectivas.

Como falta, naturalmente, a independência e autonomia face aos sindicatos!

Rui Cernadas

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Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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