Jorge Nogueira: o lugar do corpo: ainda o não verbal
DATA
02/12/2013 17:00:54
AUTOR
Jornal Médico
Jorge Nogueira: o lugar do corpo: ainda o não verbal

Nunca gostei de violência
Sugar Ray Robinson, ex-campeão do mundo de boxe

 

[caption id="attachment_5046" align="alignleft" width="85"]nogueirajorge Jorge Nogueira[/caption]

Na verdade, a primeira frase da bíblia não é "no princípio era o verbo", mas sim "no princípio Deus criou os céus e a terra" (Edição dos Missionários Capuchinhos, Fátima 1966). Ou seja, de acordo com a bíblia o princípio não foi o verbo mas a acção. Embora a palavra seja importante e tenha certamente desenvolvido o cérebro para criar espaço para ela lá dentro e para o organizar de outra maneira, mais complexa, o que ela designa tem existência autónoma prévia, nomeadamente o pensamento - antes da própria acção -, a palavra existe para dar expressão ao pensamento. Pode esta prosa parecer tolice, e se calhar é, mas nos académicos é demasiado frequente a noção de que o primordial é falar bem, que toda a inteligência está nisso, que o que não é exprimível por palavras, faladas ou escritas, não existe: o inexprimível é simplesmente inexistente e quem tem algum grau de dificuldade em usar as palavras não passa de um tonto - veja-se a maneira como os gagos são tratados. No entanto, se quem fala bem pensa bem, tirando os casos, apesar de tudo bastante frequentes, de discurso oco ou vazio, não se pode dizer que o inverso seja uma verdade igual, porque nem sempre quem pensa bem fala ou escreve assim tão bem. Emparelhar assim a fala e a escrita é ainda assim uma conferência abusiva, saber escrever coloca a fala noutro patamar, e o cérebro mais uma vez a ganhar espaço.

A ideia de que o corpo precisa de castigo é uma ideia que volta a ganhar direito de cidade entre nós - fala-se cada vez mais da necessidade de ter regras, do princípio da disciplina, dos valores e do dever. Esta perspectiva tem conquistado terreno por oposição àquela que só aparentemente prevaleceu antes, que privilegiava a liberdade até à libertinagem, a tolerância até à permissividade, o amor sem frustração. E no entanto, lavrando por sob as épocas e com pouca atenção às correntes da Psicologia, o povo - isto é, todos nós menos a cultura que é verniz - sempre disse que não se deve deixar as crianças fazer o que elas querem. Boa educação seria "não deixar o miúdo fazer o que ele quer". Esta expressão sempre me fez muita confusão, porque é que não se deve deixar o miúdo fazer o que ele quer se isso lhe dá prazer ou é uma necessidade que pede satisfação e não faz mal a ninguém? Segundo este ponto de vista, a educação consiste em contrariar as crianças, o princípio básico seria que "criar" uma criança é contrariá-la o mais possível, contrariar a sua natureza, a qual só pode ser ruim.

 

A partir do momento em que passamos a apreciar a dor como um desafio, tudo se torna possível
Dean Karnazes, ultramaratonista

 

As consultas de Clínica Geral estão cheias de pessoas que se queixam de dores generalizadas, segundo o modelo daquela mulher que diz que lhe dói tudo, desde a ponta dos cabelos até às unhas dos pés. Várias vezes me interroguei sobre a etiologia desta dor que não obedece a regras ou localizações e que parece apostada em bloquear a acção do corpo. Com o tempo, fui construindo um esboço de explicação, tão pouco definido como a própria dor. Para efeitos de argumentação uso o modelo do esquerdino e faço uma declaração prévia de interesses: tal como a grande maioria das pessoas, também eu sou destro, embora de destreza limitada.

Numa sociedade - que inclui todos os seres humanos, a chamada humanidade - em que predominam largamente os destros, os esquerdinos ou canhotos viram muitas vezes a sua natureza contrariada. Por exemplo, acho um pouco assustador encontrar em Portugal tantos esquerdinos que escrevem com a mão direita, fazendo tudo o resto com o lado esquerdo do corpo. Imagino o que teria sido obrigarem-me a mim a aprender à força a escrever com a mão esquerda. A escola, onde eu mesmo assim não fui particularmente feliz, teria sido um autêntico calvário. A pedagogia da contrariação é aquela que sustenta a moral do sacrifício, "uma vida inteira de sacrifício", como gemem algumas vozes. Não me admira que contrariar sistematicamente as tendências naturais e os gostos possa produzir seres humanos sacrificiais e doloridos, com dores "desde a raiz dos cabelos até às unhas dos pés".

Em contraciclo com esta época de apagamento, talvez seja chegada a altura de chamar de novo ao palco da acção a liberdade, a tolerância, a gratificação (e a gratidão), até a indisciplina e a irreverência, e premiar menos a mortificação, a disciplina e a obediência. Que o corpo ganhe o lugar que merece e lhe pertence.

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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