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DATA
02/12/2013 17:35:40
AUTOR
Jornal Médico
As ilusões

Para trás ficam as últimas moradias da Meia-Via e com elas a ambiguidade ribatejana. Ambiguidade da paisagem que, sendo ribatejana por estar dentro dos convencionados limites da província, não o é pelas características telúricas que associamos ao Ribatejo. Ribatejo ribatejano é pouco e está espremido entre o Ribatejo beirão, para lá do Zêzere, Ribatejo alentejano para as bandas do Couço e Coruche, ou Ribatejo estremenho de Rio Maior ao oeste do município do Cartaxo. Conceda-se, por outro lado, que o Ribatejo se estende para lá dos seus marcos tradicionais ao penetrar no nordeste da península de Setúbal.

Os homens preferem geralmente o engano, que os tranquiliza, à incerteza, que os incomoda
Marquês de Maricá

À frente temos o Entroncamento, ali ao fundo da colina, e, para além, a planura genuinamente ribatejana. Mas deixemos a estrada que nos convida para a cidade pujante e continuemos a contornar a pequena rotunda, tomando o caminho da Charneca da Meia Via. Seguimos por Pintainhos, Carreiro d'Areia, aldeias pequenas e sem história. Nem feias, nem bonitas. Sem pretensões de competir com a fulgência das brancas aldeias alentejanas ou com a austeridade grandiosa dos povoados graníticos nortenhos.

Sigamos. Chego à aldeiazinha e não é difícil encontrar o meu destino: ali estão os contentores e, logo a seguir, a rua onde venho fazer a visita domiciliária. A aldeia parece deserta. Apenas à porta duma casinha térrea (como todas elas!) se planteia uma idosa: é o meu destino. Reconhecemo-nos de imediato: "Sr. Doutor?" "I presume" junto mentalmente. Cultivar uma réstia de humor, mesmo que seja para consumo próprio, no íntimo da calote craniana, é antidoto contra o negativismo lusitano.

Depois dos cumprimentos costumeiros peço licença para entrar. Nestas andanças de consultas domiciliárias é de bom-tom cultivar uma atitude humilde, tanto mais explicita quanto mais modesto o lar que visitamos. A casa é pobre por fora e por dentro. Sobre o tampo duma mesa repousa um envelope com resultados de análises... por abrir. Junto, uma plêiade de novas requisições. É assim: o clínico, numa consulta de recurso, longe, muito longe do doente que nunca viu, emite uma longa lista de ECD após ter passado os olhos (quando passou!) sobre os resultados das análises (sem se dar ao incómodo de os registar, claro está). Há quem chame a isto: consulta! A este despesismo, sem proveito para o doente, não será alheia a política dos contratos de "médicos ao mais baixo preço", de infeliz memória.

A páginas tantas da conversa fico a saber que, dias atrás, o doente caíra e a mulher, sem força para o levantar, ali ficou, no chão, a fazer-lhe companhia. Uma noite inteira. A conversa é interrompida por uma vizinha, ainda mais velha. Vem oferecer os seus préstimos, curvadinha de todo. "Os velhos que cuidem dos seus velhos" penso de mim para mim, agora sem a leveza do humor a aliviar a constatação.

Apesar dos notáveis esforços dos centros de dia, nestas aldeias envelhecidas os anciãos ficam, com frequência, entregues a si mesmos durante demasiado tempo. Os jovens, quando os há, trabalham ou estudam arredados quilómetros suficientes para apenas virem dormir.

A evolução demográfica do país não pressagia tempos fáceis! Com uma faixa de idosos de crescente dimensão e minguando inexoravelmente o contingente das idades produtivas é de espantar que ainda haja quem acredite nos criadores de ilusões que reivindicam a diminuição da idade da reforma, fim das pensões de miséria, reforço do financiamento do estado social. Tudo isto em paralelo com a diminuição da carga fiscal e aumento de salários! E, claro está, subsídios a empresas improdutivas ou investimentos em obras públicas megalómanas e sem proveito para a nação.

Vivemos tempos difíceis e a fuga à realidade, própria de povos ingénuos, tornou-se uma tentação para os vendilhões de fantasias. A sede de poder cega-os e preferem ganhar eleições com quimeras a enfrentar realidades amargas mas incontornáveis.

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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