José Agostinho dos Santos: Escola de Saúde/Universidade Sénior de Saúde: uma ideia?
DATA
12/02/2014 14:50:12
AUTOR
Jornal Médico
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José Agostinho dos Santos: Escola de Saúde/Universidade Sénior de Saúde: uma ideia?

[caption id="attachment_6766" align="alignleft" width="300"]joseagostinhodossantos José Agostinho Santos
Médico de Família
Unidade de Saúde Familiar Dunas, ULS – Matosinhos[/caption]

Durante o quotidiano clínico, tanto eu como os meus caríssimos colegas encontramos pessoas fascinantes, entre os pacientes que vão entrando nos nossos gabinetes. Quer dotadas de uma sabedoria popular absolutamente mágica quer dotadas do conhecimento de uma arte que lhes é tão própria e única, essas pessoas deixam a cadeira à nossa frente e desvanecem por detrás da porta deixando-nos com um sabor agridoce desse momento. É que o tempo é demasiado apertado, demasiado apressado, demasiado controlado, demasiado avaliado...Para que nos permita beber um pouco mais da sabedoria de quem nos procura… E nos faz querer procurar.

Estas paragens em pequenas tertúlias sobre temas que muito remotamente estão relacionados com os motivos da consulta (exemplificando, os acasos da vida passada daquela pessoa; as particularidades da sua actividade profissional; a identidade cultural de um outro paciente provindo de uma terra bem longe, etc.) constituem as surpresas que pincelam o nosso percurso clínico diário. É que mesmo um montanhista que faz uma caminhada numa zona já conhecida terá oportunidade de se surpreender com paisagens vistas de novos miradouros informais.

Entretanto, também existem aqueles pacientes que se mostram profundamente interessados no conhecimento sobre os conceitos que envolvem a saúde e que vão muito além do interesse que apresentam nas questões relacionadas com o seu bem-estar biopsicossocial em particular. Num sentido contrário ao que foi comentado nos primeiros parágrafos, estes pacientes apelam ao nosso melhor e maior aconselhamento sobre aos seus problemas de saúde e, simultaneamente, tentam sintonizar alguma energia da nossa arte ao desafiarem-nos a dissertar sobre temas que, como médicos, nos inquietam ou excitam, igualmente. E no marasmo do tempo e das 100 consultas que ainda se seguem nesse dia, nós médicos deixamo-nos levar suavemente por esse entusiasmo de podermos partilhar conhecimentos científicos com pessoas que, não sendo médicos, criam essas pontes para um fluxo inesperado. Esses são pacientes que nos procuram, não só como médicos, mas também como fonte de conhecimento, algo que poderá ser tão lisonjeador como recompensador. São profundamente interessados no tema saúde (área de interesse como outra qualquer como história da arte ou astronomia). Não desejam aprender a ser médicos mas aprender a ser pacientes. Ou tão-somente, serem melhores conhecedores do fenómeno vida.

Estes pacientes sentem, eles próprios, a pressão dos ponteiros do relógio e desvanecem-se para lá da porta do gabinete com um amargo desejo de que o tempo fosse mais e menos severo com as suas vidas e com o quotidiano dos seus médicos. Estes pacientes são, na verdade, igualmente fascinantes! As suas procuras, as suas curiosidades e as suas irreverências ao tentarem entender um campo que poderá ser tão complexo como a arte de cuidar ditam os seus próprios potenciais. Potenciais a não desperdiçar!

Alguns deles serão mentores, tanto no seu seio familiar como no seu seio social, podendo ser fiéis pontes de ligação das unidades de saúde à comunidade no que toca à saúde colectiva.

Para eles (e não são poucos!), deveria haver recinto de sessões, de conversas ou de tertúlias em redes que criassem as respostas às suas questões mais aguçadas e para as quais nós não temos tempo para responder no decurso das nossas consultas. Poderiam ser escolas de saúde (ou universidades sénior de saúde para as pessoas mais seniores, claro está), tão legítimas e pertinentes como as escolas de culinária para todos aqueles que não desejam ser chefes de restaurante mas apenas cozinhar bem. Um programa bem estruturado poderia gerar um curso de saúde estimulante para os seus frequentadores. Um curso com diferentes disciplinas da medicina, da nutrição, da educação física ou da psicologia.

Seria um projecto que iria muito ao encontro de todos aqueles que desejam saber e discutir as suas inquietações enquanto observadores da vida e do corpo humano, explorando as potencialidades da arte do saber. Um projecto a agarrar por quem queira investir nas respostas a estas mentes. Fica a ideia!

É que não haverá maior inquietação do que ver potencialidades desperdiçadas por ausência de contexto de exploração.

Bom 2014! Bom trabalho!

 

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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