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DATA
12/02/2014 15:02:20
AUTOR
Jornal Médico
O obscurantismo dos iluminados

“nam curam senam per esperiencia e per costume (…) e o pior he que alguns (…) ou por contentar o povo, ou por se desocupar de cura os enfermos, e nam querem trabalhar em especular as curas, vamse com o seu parecer delles; e porque ser aprazível ao povo faz ao físico ganhar mais dinheiro, usam logo em principio das mézinhas delles.”

Garcia da Orta in “Coloquios dos simples”

É pacifico que os níveis cultural e de saúde se correlacionam directamente, isto é, quanto melhor o status sociocultural, mais saudável será a comunidade. Contudo, a realidade é capaz de ser um pouco diferente. Será que não há uma linha em J entre o estrato sociocultural e saúde? Andarão a par até um certo nível, a partir do qual se afastam, dado que a camada mais evoluída duma sociedade tem tendência a adoptar crenças anticientíficas. A sofisticação e o volume de conhecimentos, acima de certo limiar, ofuscam, e quem o franquear desagua no pélago das novas superstições. É o mundo dos mitos urbanos, das “alternativas”, das modas, com pretensões a libertário, diletante, avesso ao rigor crítico. No fundo, estes “iluminados”, levitando num éter caleidoscópico de conhecimentos anárquicos e crenças infundadas, comungam a rejeição da razão e, consequentemente, o obscurantismo, com as camadas da população menos favorecidas.

Falo dos movimentos anti-vacinas, dos partos em casa, das medicinas alternativas, dos check-ups, dos fanáticos do “natural”, etc., fenómenos particularmente populares entre as camadas mais evoluídas da sociedade.

Andrew Wakefield iniciou, em 1998, uma campanha torpe contra a vacina do sarampo. Desmascarada a fraude seria de esperar que só entre ignorantes encontrasse apoio. Pelo contrário: o séquito de seguidores encontra-se na Grã-Bretanha, nos EUA, ou no Canadá. Tem forte apoio na imprensa britânica e duma corte de glamourosas celebridades do jet set. Aos estudos que, monotonamente, têm vindo a rebater a trapalhice de Wakfield, respondem com o mantra do costume: uma conspiração sinistra entre o establishment médico, os governos e a indústria farmacêutica. Graças a estes fanáticos, a Grã-Bretanha passou a ombrear com a Roménia no top dos países europeus mais atingidos pelo sarampo e principais exportadores da doença (1). O subdesenvolvimento regressa à pátria de John Snow e de Fleming pela mão da elite bem pensante. Por este andar ainda veremos a peste bubónica grassar na civilizada Albion!

A atracção pelo exótico no domínio das artes é particularmente frutuosa e não deve estar sujeita a baias. Já no campo das ciências outro galo canta. As inovações meio messiânicas, que surgem por aí e entusiasmam os bem-pensantes, não podem ser isentas da crítica epistemológica, para a ciência dita “oficial”. Contudo, os aficionados das “alternativas” rejeitam a avaliação pelos crivos apertados da metodologia científica e a opinião pública atribui o cepticismo “alopático” ao corporativismo aliado a “interesses económicos”. Na prática, o cidadão comum, que concorda com uma regulação apertada sobre a indústria farmacêutica, exige uma dispensa de controlo quando se trata das “medicinas alternativas”. Um parecer negativo emitido por uma sociedade científica sobre um fármaco, por exemplo, é bem aceite pelo cidadão e, portanto, pelos políticos. Já o cepticismo manifestado pela mesma entidade acerca duma terapêutica “alternativa” é carimbado como corporativo e, portanto, sem credibilidade.

A indústria farmacêutica está sujeita à validação por critérios científicos, que até certo ponto comprometem o contacto directo político. Já os lobis das “alternativas” gerem sem intermediários as suas agendas. A homeopatia, por exemplo, move muitos milhões e tem um peso económico que os políticos não podem desprezar. A aprovação da comparticipação da homeopatia pelos SNS noutros países tem mais a ver com motivos financeiros e políticos do que científicos.

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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