Rui Cernadas: exigência em inovação
DATA
11/02/2014 10:50:24
AUTOR
Jornal Médico
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Rui Cernadas: exigência em inovação

[caption id="attachment_6762" align="alignleft" width="300"]ruicernadas Rui Cernadas
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Sendo certo que, à ideia de inovação em saúde, se associa sempre a noção concreta de que é essencial à melhoria do estado de saúde das pessoas e das populações, o tema serve perfeitamente de chamada imediata de atenção e torna-se fascinante.

Mas estamos longe de encontrar, mesmo que apenas conceptualmente, uma unanimidade no entendimento preciso sobre o que é a inovação em saúde.

A inovação em saúde assume-se, como por regra, ligada a novas técnicas, tecnologias, sistemas de informação ou até procedimentos.

Apesar de na verdade ser uma expressão que até nem se esgota ou confina nesses aspectos, a inovação implica reflexão, maturação, criatividade e articulação ou interacção, entre pessoas, entre unidades funcionais, entre instituições…

Devendo ser compreendida e se calhar até desejada, como dinâmica e estimulante, constitui-se como um lema vulgarmente usado em discurso, mas episodicamente demonstrada na prática.

Os Cuidados de Saúde Primários são, em Portugal, uma área que fervilha de ideias e de ideais, de problemas e de energia, mas a sua operacionalização e vocação assistencial, cuja elevação do nível médio de percepção pelos cidadãos é inequívoca, precisa de consolidar e de assegurar a inovação em saúde de que falamos.

Desde logo, comprometendo as USF em equipas, real e generalizadamente equipas multiprofissionais, vocacionadas para fora de si próprias, atentas ao que as rodeia, seja no meio em que se inserem, seja na articulação indispensável com as outras unidades, qualquer que seja o seu nível e diferenciação, do SNS, mas igualmente com a comunidade, através de associações de doentes, envolvimento de liga de amigos, instituições de ensino universitário, autarquias.

Para aproveitar este ambiente de alargamento transversal, inovador em saúde, compreende-se a necessidade de mais, muito mais e mais elaborada, informação e maior iniciativa, para a promoção e protecção da saúde, capaz de racionalizar a melhor utilização dos serviços.

Compete localmente e esse foi o propósito da criação dos ACES, um espírito de abertura e constante iniciativa, propiciador de até, pela consideração que os cidadãos têm em regra pelos serviços e profissionais de saúde, um trabalho em rede na área do conhecimento e da cultura de prevenção.

A gestão da informação e do conhecimento deve ser primordial nas organizações e na saúde em particular.

Mas refiro-me à boa gestão!

É impensável aceitar que, os profissionais sejam surpreendidos pelos seus utentes com notícias e informação que já são públicas!

É inaceitável que profissionais de saúde, dum serviço público como o SNS, desconheçam ou ignorem normas, procedimentos ou orientações que, bem ou mal, são dimanadas de serviços centrais ou periféricos, e que ganham teias de aranha sem que sejam lidas em suporte de papel ou digital.

O dever de informação é, nestes casos, prévio ao direito.

Não acredito que se possa falar em inovação sem informação.

Nem creio que a inovação em saúde possa ser desenvolvida, enquanto política sistemática, sem profissionais bem treinados e informados.

Nem julgo que a inovação, em saúde, deva ser uma raridade reservada a sobredotados ou a excepcionais.

Porque havemos de falar em governação clínica ou até em ganhos de saúde, enquanto objectivos instrumentais centrais na prestação de cuidados, se no plano da filosofia organizacional não fomos capazes de pôr os profissionais interessados na sua informação e participação em rede!

Porque havemos de discutir tantas questões, que vão desde a definição e caracterização de indicadores, à contratualização, à reivindicação de remunerações, à falta de investimento, aos sistemas de informação ou de incompreensões institucionais, quando uma coisa básica e fundamental como o orgulho em se ser um bom profissional ignora ou esquece o dever de informação, sem o qual não pode haver qualquer inovação em saúde!

Se os cidadãos e utentes do SNS, nessa qualidade, se mostram especialmente atentos à saúde, ao que esta enquanto, até, direito constitucional, pode representar para o desenvolvimento individual, familiar e social, não poderemos como profissionais de saúde e do sistema demitirmo-nos desse dever e direito.

Um dos vectores para a governação clínica bem-sucedida, deve implementar e convidar à interacção social, capacitação e responsabilização individual, capaz de assegurar a promoção duma literacia adequada em saúde e transparência na prática.

A saúde que é vista como um recurso, não pode por isso, nem deve por isso ser um recurso desperdiçado em tempos de tão poucos…

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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