António Branco: o Triunfo dos Porcos
DATA
14/05/2014 17:14:40
AUTOR
Jornal Médico
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António Branco: o Triunfo dos Porcos

*Ver em caixa sinopse do livro de George Orwell

 

MÉDIO TEJO – Comunidade quer criar Unidade Local de Saúde
In Rádio Condestável – Cernache do Bonjardim – Sertã; 30 de Abril de 2014

 Numa luta por uma melhor saúde pública melhor

Prestes a ficar sem nove médicos dentro de pouco tempo e com um universo actual de 38 mil utentes sem médico de família, os presidentes de câmara da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo (CIMT) reiteram a vontade de ser criada a Unidade Local de Saúde (ULS) do Médio Tejo e já marcaram uma reunião com a tutela.

O apelo parte da ideia de que está a existir uma “constante e rápida degradação das actividades de saúde pública e dos meios necessários ao exercício das competências da autoridade de saúde na área geográfica abrangida”, como explicou à Rádio Condestável Miguel Pombeiro, secretário executivo desta comunidade, ou seja “há uma boa oferta hospitalar e uma muito má oferta dos cuidados primários de saúde”*. Deste modo, a ULS do Médio Tejo seria “uma única entidade pública empresarial dos hospitais e dos centros de saúde existentes na região do Médio Tejo, viabilizaria a partilha e a optimização dos recursos e consequentemente a melhoria da prestação dos diferentes tipos de cuidados de saúde, incluindo os cuidados de saúde continuados à população, na qual existe uma faixa etária deveras envelhecida nesta região”. No fundo, o que se pretende é que os médicos dos hospitais prestem também serviço nos centros de saúde*. “Muitas vezes as urgências são feitas por médicos de família. É uma questão de gestão e de articulação e de minorar, em alguns territórios, esta falta de solução em termos de médico de família”, justificou ainda Miguel Pombeiro.

Falando em mobilização de médicos do litoral para o interior e da dificuldade que tem existido nesta matéria, este secretário executivo recorda que “alguns Municípios tiveram dificuldades em ver aprovados, pelo Ministério da Saúde, incentivos que se propuseram dar a médicos, em favor da referida mobilidade para a nossa região”. Se a gestão desta matéria pertence ao Ministério “a nós cabe-nos sublinhar a forte carência de recursos humanos qualificados a este nível”, finaliza Miguel Pombeiro.

[caption id="attachment_8577" align="alignleft" width="300"]brancoantonio1 António Branco
Médico de Família na USF Santa Maria – Tomar[/caption]

O impacto mediático da peça transcrita é irrelevante e não mereceria comentário que lhe dê destaque. O que merece atenção é o contexto em que têm sido publicadas peças idênticas desde há cerca de um ano. Foi nessa altura que começou a ser expressa, pelo Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Médio Tejo, a intenção de criar uma Unidade Local de Saúde. A primeira vez que tive oportunidade de ouvir falar desta ideia foi em reunião do Conselho Geral do CHMT - o vogal financeiro da instituição falou na vantagem de alargar o financiamento se os centros de saúde também estivessem incluídos na empresa, com a criação de uma ULS (num ensaio em que os centros de saúde eram fonte de receita e, supostamente, não seriam fonte de despesa). A representante das autarquias naquele órgão do CHMT, a autarca de Abrantes, aplaudiu entusiasticamente a ideia, adoptando-a como causa própria.

A agenda da ULS passou então para as autarquias e para a intervenção nos corredores do Ministério da Saúde. A ideia parece não ter sido bem acolhida junto da ARSLVT: como consequência, temos assistido a uma campanha sistemática que visa criar na opinião pública a ideia de que, no médio tejo, há uma rede hospitalar de invulgares competências a par da proximidade de centros de saúde de invulgares incompetências.

Os dados do desempenho hospitalar (até onde a ACSS os não omitiu no seu site), a resposta da rede de CSP apesar do grave esvaziamento de recurso humanos, a perigosa fantasia que representa a obstinada manutenção do mesmo tipo de estrutura hospitalar local, sem sustentabilidade técnica nem financeira, e a história recente e curricula dos protagonistas poderiam aconselhar maior prudência na forma desabrida e despudorada com que se atacam os CSP para dar espaço à ideia da ULS. Baseando-se num conceito que não fez prova de ter qualquer benefício, há uma consequência inevitável: o desinvestimento nos cuidados de saúde primários e a concentração de toda a atenção (e orçamento) nos hospitais.

É interessante constatar, entretanto, que o apoio mais entusiástico para a ULS tem vindo de Abrantes, cidade onde há cerca de três décadas foi criada uma amostra de uma “unidade local de saúde”: o centro de saúde a funcionar dentro do hospital, o SAP do centro de saúde a fazer a triagem para a urgência do hospital, numa desigual repartição de trabalho e dinheiro. Seria importante averiguar o que se passou para que seja neste concelho, onde já se ensaiou uma quase ULS, que mais médicos de família se aposentaram antecipadamente em todo o Médio Tejo, criando uma situação de desespero para o município: se não ocorrer qualquer milagre, ou despacho superior, antes do próximo ciclo eleitoral autárquico as coisas podem correr mal - a “construção” de uma USF e os incentivos financeiros para médicos não parecem ser suficientes para anular o efeito pernicioso do destrato aos médicos de Medicina Geral e Familiar e aos Cuidados de Saúde Primários. A esperança está agora concentrada no projecto da ULS do CHMT.

Eis que, de repente, surge na rádio local de Cernache a extraordinária explicação para aquilo que alguns incrédulos não viam (ou não queriam ver): nesta zona “há uma boa oferta hospitalar e uma muito má oferta dos cuidados primários de saúde”. Com a ULS do Médio Tejo “o que se pretende é que os médicos dos hospitais prestem também serviço nos centros de saúde”. Era muito difícil encontrar uma mistificação mais grosseira em defesa de um objectivo absurdo: a falta de médicos de família vai ser resolvida com os médicos hospitalares a trabalharem nos centros de saúde – a carência de médicos de família é, assim, mitigada...

Pensava já ter tido oportunidade de observar toda a variedade de disparates a propósito de organização dos cuidados de saúde mas estava enganado.

Julgo que temos direito a que estas frases, e estas teses, que têm autoria reconhecida (mesmo que sejam atribuídas pela rádio local ao Dr. Miguel Pombeiro, autarca da Vila Nova da Barquinha) sejam desmascaradas – já têm existido processos de auditoria e de inspecção por razões bem mais insignificantes.

Também julgo que seria oportuna uma reacção da nossa hierarquia a esta campanha, cujo formato é o do insulto e cuja finalidade é tão explícita como ilegítima: servir-se dos cuidados de saúde primários, aniquilando-os, como um salto para a frente naquilo que não lograram resolver no domínio hospitalar – quando a espera nas urgências aumenta é por culpa dos centros de saúde, como também o é a baixa do movimento da maternidade e, quiçá, as frequentes notícias de infortúnios sobre o CHMT.

Os médicos de família do Médio Tejo, os enfermeiros e restantes profissionais dos CSP, bem como os coordenadores das unidades de prestação de cuidados não têm nada a dizer?

CAIXA

O Triunfo dos Porcos

Livro recomendado no Plano Nacional de Leitura
Sinopse em: Infopédia

Romance de George Orwell, cujo título original é Animal Farm, publicado em 1945. A história relata a revolução dos animais da quinta Manor, propriedade do senhor Jones.

O Velho Major, o mais respeitado porco, reúne, durante a noite, todos os animais da quinta e conta-lhes um sonho que tivera - a sua morte estava para breve e compreendia, então, o valor da vida. Explica logo aos companheiros que devem a sua miserável existência à tirania dos homens que, preguiçosos e incompetentes, usufruem do trabalho dos animais, vítimas de uma exploração prepotente. O Velho

Major incita o grupo não só à rebelião, para derrotar o inimigo, como também a entoar o cântico de revolta "Animais de Inglaterra".

Três dias depois, morre o Velho Major. Mas a revolução prossegue, com novos líderes -os porcos Snowball, Napoleão e Squealer, que criam o Animalismo, como sistema doutrinário, com "Os Sete Mandamentos". Expulsam o dono da quinta e mudam o nome da propriedade para "Quinta dos Animais". Dada a estupidez e a limitação de alguns, que não conseguem decorar os "Mandamentos", Snowball reduziu-os a uma máxima: "Quatro pernas, bom; duas pernas, mau".

O regime do Animalismo começa logo de forma vigorosa, com todos os animais a trabalharem, de forma a fazerem progredir a quinta – a autogestão estimulava o orgulho animal. Snowball cria uma lista de comissões para conceber programas de desenvolvimento social, educação e formação.

Com o passar do tempo, os porcos tornam-se corruptos pelo poder. Instala-se então uma nova tirania, sob o comando de Napoleão, que passa a impor um novo princípio:

"Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros".

Numa demonstração do seu sucesso político-social, os porcos convidam, para um jantar, os donos das propriedades vizinhas, a fim de que estes se apercebam da eficiência da "Quinta dos Animais". E são felicitados pelo sucesso do seu regime. Nessa altura, o cavalo Clover constata, horrorizado, que já não é possível distinguir a cara dos porcos da dos homens.

Orwell, através desta fábula, pretende não só demonstrar como o idealismo foi traído pelo desejo de poder e pela corrupção e mentira, como também condenar o totalitarismo, a Revolução Russa de 1917 e a Rússia de Stalin.

Em 1955, a obra foi adaptada para filme animado, com título homónimo.

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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