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Acácio Gouveia: manifesto anti-SAM novo
DATA
02/06/2014 20:03:55
AUTOR
Jornal Médico
Acácio Gouveia: manifesto anti-SAM novo

[caption id="attachment_6771" align="alignnone" width="300"]acáciogouveia Acácio Gouveia
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“Ele matar não mata, mas desmoraliza muito!”

Raul Solnado

Até quando abusarás, Catalina, da nossa paciência”

Cícero

Este escrito foi feito com o coração e apenas com mínima participação da razão. Transborda da raiva de quem tem de lidar diariamente com a infernal maquinaria e os disformes programas informáticos do Ministério da Saúde desde há oito anos. Por isso, já não se escusa a exageros e usa metáforas escolhidas mais por critérios expressionistas do que de rigor. Não é, decididamente, uma análise fria e racional. Dessas estão os jornais médicos e memorandos pejados, sem que algum responsável aparente preocupação em levá-las a sério. Por isso, aqui vai, dos neurónios da amígdala do escrevinhador, directo, para a memória de trabalho do computador, um grito/descarga, que muitos milhares de médicos subscreveriam (mais coisa menos coisa). Nascido dum repto de colegas, nem que seja a última coisa que escreva, não podia deixar de o fazer, dado o estado ao que isto chegou.

Pegando no jovial modo do Prof. Armando Brito de Sá e do Dr. João Sequeira Carlos, sugiro, como banda sonora, Dies Irie do Requiem de Verdi, ou um qualquer rap bem batido, ou mesmo o “Fado do Trinta e Um”, conforme o vosso gosto.

Com a devida vénia a Almada Negreiros e a outros que de forma menos evidente tive a impertinência de plagiar, aqui vai para ouvidos de “barba rija”.

Uma geração de médicos que se encontra esmagada pelo SAMnovo é uma geração que nunca o será! Será um triste amontado de profissionais castrados na sua eficiência por uma ferramenta abstrusa, disforme, malquista, devastadora, idiota, mas nunca, nunca, clínicos na plena asserção do termo.

Morra o SAM, morra PEM!!

Ao abrir o malfadado SAMnovo, o JAVA avisa que nos afoitamos por território perigoso, suspeito! Não uma, mas duas vezes, tal como a advertência que Dante colocou na porta do Inferno: “Deixai toda a esperança vós que entrais”, o prudente JAVA lava as mãos dos desmandos a que o aborto sujeitará os que insistirem no fatal quadradinho “I accept the risk”. O SAMnovo bloqueia, subverte, engana-se, entope: é o mundo kafkiano da tolice, dos “clics” abusivos, da estulta sequência de palavras de passe sobre palavras-passe, uma espécie de dédalo onde não é raro embatermos em “bugs” sob a forma de minotauros tenebrosos. E são tantas as patetices, as falhas, os contratempos que acabam por obscurecer, desvalorizar e aniquilar as virtualidades que o programa até possa ter! Esta triste versão (piorada) do SAM gera a saudade do SAM sem novidades (oh pérfidas novidades!) Por exemplo: antecipando um próximo acordo ortográfico, que o “novo” já despojou a língua portuguesa de acentos!

Se o SAM novo é português eu quero ser maori

Morra o SAM novo, morra! PEM!

E que dizer do Alert? Esse mostrengo parido de forma obscura, uma espécie de Frankeinstein irracional, contra natura, horrendo, nada amigável, consumidor de tempo e pachorra, donde se evaporam misteriosamente dados entre os CSP e os CSS.

Se o Alert é lusitano eu quero ser aino!

Morra o Alert, morra! PEM!

E temos o Prontuário Electrónico - um mentiroso com nariz maior que quatro Pinóquios em fila indiana. Apresentações que não existem, nunca existiram e nunca chegarão às prateleiras das farmácias, anunciadas sem pudor, reserva ou preocupação com os tormentos que impõe a utentes, farmacêuticos, médicos e assistentes operacionais.

Se o prontuário é tuga eu quero ser inuiut.

Morra o Prontuário, morra! PEM!

E os enfermeiros, Senhor porque lhes dais tanta dor, porque padecem assim? Às mãos do SAPE sofrem, penam. Cada click é um pântano.

Se o SAPE é luso eu quero ser bosquímano!

Morra o SAPE, morra! PEM!

O SINUS: esse morto-vivo cuja morte anunciada e nunca efectivada, assombra os assistentes operacionais, qual lobisomem, zumbi malvado, alma penada que insiste em sobreviver só para incomodar, arreliar, confundir, baralhar os que têm a má fortuna de o suportar dia após dia. SINUS, Mimuf e RNU- os três da vida airada! Façam-lhes exactamente a mesma pergunta e obterão três respostas diferentes.

Se o SINUS é de Portugal eu quero ser de Vanatu.

Morra o SINUS, morra! PEM!

E o PEM? Credo! Apresentado como a jóia da coroa, o PEM é a quinta-essência do absurdo, da rigidez, do paradoxo, da imbecilidade, cheio de tiques, isto é, de “clicks” para entrar, “clicks” para sair, carregado de “pop-ups” enervantes, inúteis, estéreis. Impotente, incapaz de registar alterações na lista de fármacos crónicos, o grande vigarista! O PEM é o Átila dos médicos, mais devastador que as hostes de Gog e Magog. Complexo, chato, irritante, burocrático até dizer basta. Espinha na garganta de quem se aventure a prescrever cuidados respiratórios, o monstro tritura, aniquila a nossa paciência, consome, desperdiça, eclipsa o tempo dos clínicos.

Se o PEM é terráqueo, eu quero ser selenita!

Morra o PEM, morra! Basta!

E os servidores neolíticos!? E a rede silúrica, que faz jus ao anexim lisboeta: o Rossio na rua da Betesga!? Pior: conseguiram enfiar o Parque de Monsanto no beco dos Loios. Colossais volumes de tráfego, aplicações pesadíssimas, tudo enfiado, espremido, por uma rede de dimensões capilares, atafulhada, enlatada, engarrafada. O resultado: a leeeeentidão …, a aterradora lentidão do sistema, omnipresente, a impregnar inelutavelmente os dias de trabalho, a envenenar o ambiente, a moer o juízo dos profissionais, a escarnecer dos utentes a delir o erário público. “Ele” são os programas que levam minuuuutos … a abrir, as impressõõõões … que se eternizam, os múltiplos “clicks” com teeeeeeempos … de espera inadmissíveis. E aquela sinistra rodinha, a grande cínica, sempre a gozar com o pagode! Maldita seja!!

No centro desta terrífica panóplia estão a ACSS e o seu braço armado: o SPMS. São uns pantomineiros que se arrogam o direito de apresentar as suas tristes novidades como mirabolantes ferramentas informáticas dignas do séc XXII!! E a comunicação social generalista engole, cai na esparrela e olvida uma incursão junto dos desgraçados utilizadores, que todos os dias são martirizados por aquele amontado de trampolinices, para um obter um contraditoriozito. E entoam cânticos ao PDS, o que até seria excelente se permitisse aceder aos resultados dos ECD hospitalares, e até é útil … quando está acessível e até seria melhor se não tivéssemos de andar às apalpadelas para encontrar a porta das traseiras, já que a da frente está infranqueável com crescente frequência.

E quando falam para os utilizadores? Aí o discurso muda: “as coisas não têm corrido muito bem, mas tudo vai mudar, temos planos …” etc., etc.. Enfim uma série de tretas que o devir se tem vindo a encarregar de desmentir. Monotonamente. São optimistas, dizem eles! Optimistas!! Sim, não tendo que se digladiar diariamente com o lixo que nos impõem, até se pode ser optimista. Mas os que dia após dia tropeçam naquele nojo todo só têm a dizer que há por aí acumulado uma tal manancial de impropérios, insultos e maldições que levará meio milénio a gastar.

E que dizem eles quando algum lamento se lhes avizinha aos ouvidos? Que a culpa é dos médicos, esses info-ignorantes, maliciosos e incompetentes!! Que tudo está resolvido. Mas não está! É mentira!! Não têm pinga de vergonha!

Entre as vítimas desta cáfila de abominações informáticas até encontramos técnicos semeados pelos ACES e hospitais. Em reduzidos contingentes parecem bailarinas a apagar fogos, isto é, falhas constantes de servidores mais velhos que a Sé de Braga e a dar a face pelas palermices que o SPMS debita.

E ainda há quem duvide que aquela informe alcateia de programas e “hardware” não vale nada, nem é inteligente, nem decente, nem zero. E há quem esteja acima dos déspotas obscurecidos da ACSS e finja não saber que aquilo nem a pólvora seca chega e que em matéria de eficácia é “pim-pam-pum” e lhes continue a dar a mão e que lhes lave a roupa e lhes pague ordenado!

Basta de incompetência e de arrogância.

BASTA!!

Ponham um letreiro no SAMnovo a dizer “Távora” e chamem o Marquês; enfiem um chapéu cónico na cabeça do PEM e mandem-no para a pira do largo de S. Domingos; reativem a PIDE para perseguir o Alert; vão buscar o Béria à sepultura para “tratar da saúde” ao SINUS; Defenestrem o Prontuário Eletrónico; evoquem o espectro de Jack The Riper para degolar o SAPE; invente-se um novo Loison para exterminar a rede; ressuscitem Drácula para acabar com servidores do tempo da Maria Cachucha. E o MIMUF? e o SIARS? e o RNU? Fu-zi-lem-nos!! Exilem a ACSS para a Coreia do Norte e desterrem o SPMS para Mogadiscio.

Livrai-nos, ó Deuses, onde quer Que estejais e Quem quer que Sejais, destes cavaleiros do apocalipse, destas pragas que do Egito da XIX dinastia se mudaram para Portugal hodierno e nos afligem sobremaneira. Trazei-nos a paz de programas decentes, razoavelmente lestos e minimamente amigáveis, de hardware que não seja decrépito e duma rede que não seja de vielas.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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