Jornal Médico Grande Público

Rui Cernadas: factor tempo e o erro associado
DATA
02/06/2014 20:02:53
AUTOR
Jornal Médico
ETIQUETAS

Rui Cernadas: factor tempo e o erro associado

[caption id="attachment_6762" align="alignnone" width="300"]ruicernadas Rui Cernadas Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Vivemos em Portugal e a seu jeito, cada português conhece a realidade do país, sendo que, infelizmente, ainda há milhões de concidadãos que nunca deixaram a sua terra… A sua circunscrição geográfica de vida.

O que não deixa de ser estranho porque sugere, agora que se celebram 40 anos do “25 de Abril”, que se calhar, como então se dizia, continua a haver mais gente a conhecer Fátima do que Lisboa…

E digo sugere, porque na verdade, por um lado, os valores e a fé podem ter caído em desuso, mas por outro, com tantas manifestações com direito a viagem paga em autocarro até à capital, poderiam ter alterado a dimensão admitida.

O tempo passou veloz, inexorável.

E tal como perdemos o comboio ou o avião, que não esperam por nós se nos atrasarmos uns minutos a chegar a uma estação ou a um aeroporto, o país perdeu oportunidades pelo atraso nas decisões que, podendo ser verdadeiramente estratégicas, foram muitas vezes tomadas por contingências do momento.

Sobretudo em saúde!

E sobretudo em saúde porque em larga medida os programas e os planeamentos devem ser orientados para prazos não compatíveis com as exigências de orçamentos ou planos de actividades anuais. De facto, muitos dos resultados expectáveis ou pretendidos, nomeadamente para variáveis independentes ou os chamados “outcomes específicos”, implicam anos de esforços, de insistência e de investimento.

Por exemplo, ao nível das contratualizações com as estruturas do Serviço Nacional de Saúde (SNS), há que avançar nesta dimensão, percebendo a diferença entre investimento e custo.

A relação da saúde e do SNS com a sociedade parece óbvia, fácil e de confiança.

Os portugueses podem criticar e exigir mais do SNS, mas confiam nele e procuram-no sempre que precisam e até contestam qualquer pretenso “encurtamento” da oferta, mesmo que óbvio… Mas essa relação de confiança é prejudicada, muitas vezes, pela interferência de outros actores, por exemplo, autarcas.

Vêem e compreendem toda a organização assistencial como se de uma rede de agências bancárias se tratasse. Não assumem uma estratégia compreensiva para a evolução destinada a oferecer serviços com maior qualidade para os utentes.

Sei bem que medir o desenvolvimento dos concelhos, por exemplo, pelo número de rotundas inauguradas ou pelo número de caixas de multibanco instaladas pode ajudar a que se entenda também o progresso pelo número de extensões e unidades de saúde disponíveis.

Mas o factor tempo traz erros associados.

Desde logo, o de perder a noção de contexto. Veja-se como os municípios, quase todos, protestam contra o encerramento de tribunais, de finanças, de postos dos CTT, de agências bancárias, de centros de saúde…

E como quase todos sustentam os seus argumentos no envelhecimento das populações, na desertificação dos territórios, na falta de acessibilidades… Na ausência de transportes públicos!

Mas a quem competem as responsabilidades directas por todos esses cenários constatáveis no terreno, num país que tem mais quilómetros de auto-estradas do que os seus congéneres, mais semáforos e rotundas do que a vizinhança? Quando preparam e avançam com redes de transportes aos seus munícipes?

Que pedagogia pretendem, de facto, desenvolver?

A da literacia em saúde ou a da demagogia fácil, quase medieva?

O país mais do que envelhecer e desertificar, face a todas as evidências e projecções, pode perder até 30, 35 ou 40% da sua população. E não para o ano 3000, mas para daqui a 5, 10 ou 25 anos!

O planeamento estratégico, incluindo a oferta assistencial e a rede dos cuidados de saúde primários, a localização e a concentração da oferta hospitalar, têm de ser objecto de reflexão e desenho tendo em vista as tendências demográficas projectadas e aventadas.

E isto já… Não para as calendas gregas

Confesso: estou farto dos “orgulhosamente”…

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

news events box

Mais lidas