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José Agostinho dos Santos: o grito!
DATA
23/06/2014 11:33:08
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Jornal Médico
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José Agostinho dos Santos: o grito!

[caption id="attachment_6766" align="alignnone" width="300"]joseagostinhodossantos José Agostinho dos Santos - Médico de Família[/caption]

Ahhhhh!! Ó PEM… Porque não desapareces para sempre?

Sim, este é o grito de desespero que escolho para dar início a mais uma crónica. Peço desculpa pelo facto de o tema PEM (Problemas Em Medicar) ser novamente o tema de mais um dos meus textos, mas por muito que eu queira livrar-me da pulga, ela não larga! Entretanto, escolho “o grito” como título tanto pelo facto de se considerar que a PEM foi um dos mais fortes maus-olhados lançado às unidades de saúde deste país como também pelo facto de esta palavra assumir um angustiante impulso que se retém no seu conceito.

Uma boa representação mental do que este programa informático significa para tantos de nós, médicos, será o quadro “O Grito” de Edvard Munch, com toda a agonia intrusiva e cortante nele retida, adicionando ainda, talvez, uma gigante repulsa visceral! Provavelmente, tal resultará numa chocante mistura do quadro “O Grito” com a mítica cena do filme “O Exorcista”, um cenário nada bonito mas que se adequa de forma perfeita à introdução da PEM no nosso quotidiano clínico.

Numa edição recente do Jornal MGF Notícias, lê-se que um simples estudo documentou que 90% dos médicos consideram a PEM um “empecilho”! Seria capaz de jurar que a percentagem é maior...

De qualquer das formas, quando os meus olhos se cruzaram com esse artigo e com a palavra “empecilho”, mergulhei numa sensação tão inebriante como é refrescante um gelado num dia de calor! “Empecilho” é aquela palavra que tantos de nós procuravam para descrever o impacto deste programa informático nos nossos dias. E nada tem a ver com o facto de “empecilho” incluir as letras de PEM, permitindo fazer o trocadilho com “PEMcilho”! É que o conceito de “empecilho” traduz toda uma inutilidade que se alia a dificuldade, aspereza e atrito que quase nos faz sangrar! Poderia alguém dizer, quiçá, que a PEM constitui apenas um “mono”, algo que representaria somente inutilidade passiva que não aquece nem arrefece! Portanto, “mono” não seria o melhor termo para descrever a PEM...

Partilho agora convosco que, ao longo dos últimos tempos, nos tenho visto a todos nós (médicos) como aqueles júris do programa “Ídolos” que são forçados a ouvir e ver a total ausência de talento e que tentam construir os comentários mais ácidos para afastar quaisquer aspirações surreais e/ou distantes da realidade. Pois, é desde há vários meses e em edições sucessivas que nós somos forçados a dar opiniões sobre um sistema que há muito já provou não ter talento mas que não larga o pé e volta sempre a tentar, qual carraça. A sua lentidão não se adequa à actividade clínica diária, a sua login é desnecessária depois de aberta a área do SAM com a password pessoal e as múltiplas janelas e alertas queimam-nos as pestanas...

Não! É demasiado mau para uma prática que deveria ser centrada no olhar e no ver o paciente!

Neste cenário em que nós já reviramos os olhos porque há muito tempo que já demos um valente pontapé na PEM, ela volta sempre trazida por alguns mentores dizendo “olha, agora PEM faz isto!”, “olha, agora PEM faz aquilo!”, “mais uma oportunidade para mostrar que consegue!”, “a PEM apenas precisa de algum treino!” ou “a PEM tem potencial!”.

Enfim!... A PEM é como um dos denominados cromos do Ídolos: quando pensávamos que eles iam desistir, eis que voltam e insistem em que lhes seja reconhecido algum talento, atirando-nos novamente para uma penosa experiência de reavaliação, experiência essa que apenas nos conduzirá ao arrancar de cabelos, ao bater com a cabeça na parede e ao beliscar com força até à hemorragia! E tudo isto, simultaneamente, com ideação suicida!

Ai ai, a PEM está a deixar-nos na loucura!...

A grande sorte para uma boa parte de nós é que ainda dispõe do ícone Receita para uma desintoxicação após passagem pela PEM. E apesar dos seus quês, a abertura do ícone Receita ainda constitui um local tranquilo e acolhedor que favorece a manutenção de alguma sanidade mental.

Não sei bem o que os meus caros colegas pretendem fazer, mas eu cá penso entrar em contacto com os antigos júris do programa Ídolos pedindo alguma ajuda, questionando “Quais foram as suas fontes de recuperação? Quais foram os seus pilares de segurança?”... Aliás, agora que penso e escrevo isto já descobri que as minhas fontes e pilares têm sido os pacientes... Esses que tanto reclamam como nos acalmam...

Que tanto se revoltam como se revêem em nós...

E vocês, quais são os vossos pilares?

Assim é a vida! Bom trabalho!

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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