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José Agostinho dos Santos: morrer em Lavra, Matosinhos
DATA
02/07/2014 12:08:23
AUTOR
Jornal Médico
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José Agostinho dos Santos: morrer em Lavra, Matosinhos

[caption id="attachment_6766" align="alignnone" width="300"]joseagostinhodossantos José Agostinho Santos, Médico de Família USF Dunas, ULS Matosinhos[/caption]

Esta vida é cheia de surpresas!... Há dois anos, não fazia a menor ideia de que esta minha vida aguardava a minha chegada, numa estação aonde eu viria a parar poucos meses depois. Parei e ali me tenho mantido. A estação é de Lavra, uma vila plantada junto ao verdadeiro azul-marinho do Atlântico.Neste pequeno pedaço do nosso mapa (Lavra, Matosinhos), a vida esperava-me e ela própria aqui me tem revelado a sua verdadeira essência. Em momentos de abraços, de luta pela saúde, de troca de saberes, de partilha de sorrisos ou de confidências em lágrimas, a vida assim se define nos gestos e nos olhares destas gentes, em mil rotações mas com a leveza da brisa marítima de Julho… É a vida vigorosa atingindo os expoentes máximos de todos máximos que emergem para alcançar.Aqui, eu próprio revejo a minha vida em regozijo!Porém, é aqui que igualmente percebo que será o ponto ideal para a vida ter o seu ponto final... ou seja, aquilo que vulgarmente se denomina de morte. De facto, se em Lavra a vida adquire um frenesim que a completa, também será aqui o posto a morrer um dia.Tal como qualquer outro médico, vivencio a morte de um paciente como um momento que marca aquele dia, aquela semana... talvez aquele mês... quiçá até a vida. De caso para caso, nesse compasso de tempo entregue à memória do que ficou no passado daquela alma surgem as questões que nos consomem: “o que mais poderia ter sido feito?”; “terá sido uma partida sem qualquer dor?” ou ainda “o que mais poderia ser dito?”. Junta-se uma inevitável sensação de perda enquanto aquela relação médico-paciente se desvanece numa cinza que se dilui em neblina de nostalgia. E assim o lado sentimental desta relação apodera-se, nem que seja por instantes, da nossa objectividade científica... e as questões conduzem às sensações, trazendo-nos até um quase incontornável aroma amargo. No entanto, partilho convosco esta marcante experiência que tenho vivido: nestes dois últimos anos, as respostas que tenho encontrado para essas questões têm induzido uma reconfortante e inovadora sensação de que morrer em Lavra será, paradoxalmente, um objectivo de vida de tantos de nós, simples seres humanos. Aqui, junto a um mar soberano que inspira uma gigante paz interior, as gentes reflectem essa soberania nos cuidados que prestam aos seus familiares doentes em fase terminal. Elas acariciam, procuram, pesquisam, não dormem, cansam, enxaguam os rostos, sorriem em consternação... Assumem a presença, carregam o sono e a dor e assim tornam-se prisioneiros neste exílio de cuidar daquele que irá partir em breve.Não há solidão, há carinho.Não há negação, há ternura.Não há suspiros audíveis, há homenagens aos que partem. Assim, como mero médico de uma família que gira num turbilhão de emoções ao som de uma bela sinfonia lenta, em piano, eu integro um núcleo de cuidadores que me inspiram e que me dão as respostas às referidas questões. Na hora certa e no local certo, aquele paciente versus marido versus filho versus pai versus irmão versus avô versus tio parte em sossego envolvido pelos seus, provavelmente apenas retendo o desassossego de deixar a vida em Lavra. Nesse envolvimento que observo, que presencio, que me reconforta e que até emociona, eu arrumo a exposição dos meus saberes clínicos... porque estes são, talvez, desprezíveis perante aqueles saberes familiares. E eis que a morte de cada um destes pacientes, a quem a doença traiu, adquire um sabor agridoce e não tão amargo. Morrer em Lavra é, assim, como um hino à dignidade do ser ou uma ode aos mais íntimos pensamentos sobre a nossa própria partida.Habitualmente, termino estas crónicas com um “assim é à vida!”. Nunca tal expressão fez tanto sentido como neste pedaço de escrita que agora termino. É que a morte está para a vida como um ponto final está para uma frase: finaliza mas está incluído nela.Assim é a vida em Lavra! Bom trabalho!

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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