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Mário Moura: o estertor da Medicina Familiar?
DATA
19/07/2014 02:00:27
AUTOR
Jornal Médico
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Mário Moura: o estertor da Medicina Familiar?

[caption id="attachment_6778" align="alignnone" width="300"]máriomoura Mário Moura, Presidente Honorário da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar[/caption]

Realizou-se recentemente, em Lisboa, a 19ª Conferência da WONCA Europa. Um acontecimento que, embora marcante, “passou ao lado” da comunicação social portuguesa.

De facto, ou eu andei distraído ou foi pouco, ou mesmo nada, o que se disse sobre este encontro de quase quatro mil médicos oriundos de cerca de setenta países que vieram a Portugal falar sobre o estado da Medicina Familiar no mundo e desenhar “as novas rota para a MGF”.

Por lá passei na sessão de abertura, extraordinariamente bem organizada pela Associação Portuguesa de Medina Geral e Familiar (organização que muito a honrou) e fiquei impressionado com a juventude dos participantes vindos dos quatros cantos do mundo.

Não pude assistir à conferência por limitações da minha vida pessoal; à multiplicidade de mesas e de grupos de trabalho que decorreram nesses três dias e meio. E tive pena, pois que talvez me tivesse alimentado alguma esperança para compensar (ou mesmo anular) esta minha sensação de que estamos a assistir ao estertor da Medicina Familiar, por cá e além-fronteiras.

Pena também por não ter podido saber quais são as novas rotas desta especialidade a que dediquei a minha vida e que reputo como a verdadeira essência da prática médica!

O que vou dizer, portanto, nada tem que ver com a “19th WONCA Europe Conference”, a que não assisti. Só vêm a propósito estas linhas pela coincidência dos momentos: o da realização do encontro e o deste meu estado de espírito.

A Clínica Geral, no decorrer dos meus sessenta anos de prática médica, tem tido um percurso curioso, ao longo do qual foram-se aprofundando os conhecimentos sobre o funcionamento do corpo humano e definindo com maior precisão as causas e os conhecimentos sobre muitas doenças. Como também se foram encontrando e compreendendo novos padecimentos e introduzindo uma extraordinária panóplia de novas tecnologias de imagem, de exploração do organismo humano, de minúcia de exames analíticos, de aparecimento de novas especialidades, em especial no domínio do conhecimento sobre o modo como funciona o cérebro humano.

Tudo isto ao mesmo tempo que se iam registando avanços na organização dos serviços permitindo levar os novos conhecimentos e técnicas até junto das pessoas, melhorando a sua saúde, minorando os sofrimentos e dando-lhes, assim, mais e melhores oportunidades de poderem ter uma vida saudável.

Foram nascendo hospitais imponentes, apetrechados de tudo o que de mais moderno ia surgindo em terreno de tecnologia médica, ao mesmo tempo que se assistia ao nascimento de estruturas organizadas, nacionais, votadas à prestação de cuidados médicos.

Em alguns países, onde predominava o chamado “estado social”, foram criados serviços nacionais de saúde, gratuitos e universais.

Nasceram as carreiras médicas dos cuidados primários, secundários e de saúde pública. Nasceu o conceito de medicina preventiva e de educação para a saúde.

Parecia-nos, a todos os que assistíamos à mudança, que se vivia no melhor dos mundos.

A Medicina começou a olhar o paciente com outros olhos. A Clínica Geral passou, progressivamente, a considerar toda a história biográfica dos pacientes e a valorizar os traumas de passados que nunca são esquecidos; traumas físicos, psicológicos e relacionais.

O nosso doente deixou de ser visto como um indivíduo isolado, mas inserido num contexto familiar e social. Com história, recordações.

A Medicina Familiar surge em toda a sua plenitude, essencial!

Não há bela sem senão…

Mas como em todas as histórias… não há bela sem senão e o ensino médico, feito nas catedrais de tecnologia hospitalar foi colocando, lenta mas inexoravelmente, o exame clínico físico e o “ouvir” as queixas do paciente, em segundo lugar. Em alguns casos, ignorando-os completamente.

Entretanto, os progressos alcançados pelas melhorias ao nível da higiene, do saneamento básico, da vigilância sobre os alimentos, entre outros, a par com a quase erradicação de muitas doenças infecciosas, foram fazendo com que os pacientes que nos iam chegando à consulta começassem a predominar processos de somatização… Ansiedade, depressão, stress, a necessitarem de uma análise biográfica minuciosa e do recurso à terapia excepcional que é a ternura e a atenção do médico, olhos nos olhos com o seu interlocutor.

A “industrialização” da consulta

A maior oferta médica veio engrossar o caudal das consultas e a espera por uma.

Nesta azáfama, a “medicina organizada” e a medicina social deixaram de dispor do tempo necessário para ouvir e falar com o paciente. As obrigações contratuais passaram a contabilizar números e não “ganhos em saúde” e o excesso de exames complementares de diagnóstico e terapêutica, cada vez mais sofisticados, levaram ao limite os custos dos cuidados.

A Medicina Familiar esforça-se hoje por se reorganizar de modo a dar resposta capaz aos seus pacientes. Já o sistema, no seu todo, responde com crescente dificuldade às solicitações e aos custos.

Pesem os imensos benefícios da entrada em cena dos sistemas informáticos no dia-a-dia da consulta médica, que era inevitável, a verdade é que com eles se introduziu, também, entre os olhos do médico e os do paciente uma nova barreira – o ecrã do computador.

Envolvido neste ambiente chamado “moderno”, o médico esbraceja, impotente, incapaz de exercer o seu mister de verdadeiro médico de família, atento ao passado, ao futuro, à envolvência e às queixas do momento que os seus pacientes lhe transmitem num verdadeiro grito de socorro.

Começámos a ver cada vez mais doentes insatisfeitos, a pular de consulta em consulta, acompanhados no desânimo pelos seus médicos e outros profissionais de saúde. Desiludidos!

É curioso – e paradoxal – o modo como aquilo a que apodamos de progresso acabou por se transformar no maior obstáculo ao exercício e ao crescimento da edicina de família.

Como também é curioso e paradoxal que a braços com uma crise – que é política – os decisores, na tentativa de melhorarem os serviços, acabem por criar maiores dificuldades ao exercício de uma verdadeira medicina holística, como o é a familiar, que se realiza na abordagem biopsicosocial do indivíduo.

Eis, pois, a nossa realidade, igual à de tantos outros países nos tempos que correm: os médicos protestam e emigram, os enfermeiros emigram e protestam e o ministério, num afã de reorganização tresloucado, reage com avaliações asfixiantes, cria e muda com frequência sistemas informáticos desajustados da realidade que pretendem servir e de qualidade mais do que duvidosa.

Acossados pela escassez orçamental, corta-se a eito a autonomia de gestão ao mesmo tempo que se legisla a metro, sem senso nem oportunidade, criando “figuras” como a do “provedor da saúde”, os “cuidados primários de saúde do trabalho”, ou tentando impedir os trabalhadores da saúde de protestarem e denunciarem as insuficiências que têm que enfrentar diariamente.

Em Lisboa falou-se de “novos rumos para a Medicina Geral e Familiar”

Os médicos reivindicam e convocam greves de protesto.

Será que estamos mesmo a assistir ao estertor da Medicina Familiar por se ter tornado impossível exercê-la devidamente e não por não ser ela a verdadeira Medicina?

O futuro o dirá…!

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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