Acácio Gouveia: modas & mitos - II
DATA
18/07/2014 17:55:47
AUTOR
Jornal Médico
Acácio Gouveia: modas & mitos - II

[caption id="attachment_6771" align="alignnone" width="300"]acáciogouveia Acácio Gouveia - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

“(…) e cada vez mais jovens maridos se interessassem pelo rasgar das engrenhas das esposas, numa pretensão naturalista, a verdade é que era precisa uma dose de boçal curiosidade para assistir a tal espectáculo.”

Agostina Beça Luís in “Ordens Menores”

Também na saúde reprodutiva assentaram arraiais os mitos com crescente popularidade entre as elites urbanas.

Sinistra é a moda do parto em casa. Curiosamente, a Holanda, país campeão dos nascimentos no domicílio, não apresenta números particularmente honrosos no tocante à mortalidade infantil*. E estamos a falar dum país onde existe uma política rigorosa de apoio ao parto no domicílio que, em boa verdade, se “hospitaliza” para a ocasião. A medicalização do nascimento (contrariamente a outros momentos do percurso da vida, onde o excesso intervencionista se tornou deletério) constitui um inequívoco avanço civilizacional. Em ambiente hospitalar especializado o parto tornou-se apenas uma “hora apertada” e deixou de ser o tremendo ceifador de jovens vidas. O parto extra-hospitalar apoiar-se-á nas razões que quiserem, mas nunca se poderá argumentar que seja uma mais-valia em termos de segurança e salubridade para a parturiente ou para o nascituro. O argumento da “humanização” cheira mais a estribilho, já que o ambiente hospitalar tem vindo a humanizar-se. Por outro lado, e por essa ordem de ideias, as gastrectomias, transplantes hepáticos ou broncoscopias deveriam ser também realizados nos domicílios dos pacientes, em nome da tal “humanização”. É sabido que o parto em casa, mesmo devidamente acompanhado, resulta num discreto aumento de mortalidades e morbilidades materna e neonatal. Ora, quando se trata da saúde materno-infantil, só me parece aceitável uma política de tolerância zero. Opino como cidadão, abstraindo-me da condição de profissional de saúde.

Já quanto ao morrer, a “deshospitalização” deveria ser a regra, em nome da humanização, sem aspas.

Mas regressando ao tema do parto e seus riscos, recordo uma reportagem da revista Time que acompanhava o parto duma jovem primípara de 18 anos, num qualquer país da África ocidental, que acabava em tragédia. Desfecho que seria perfeitamente evitável numa maternidade minimamente equipada. Lembro-me também do testemunho duma minha doente idosa que contava que na década de trinta ou na de quarenta, tinham falecido três mulheres de parto na sua aldeia no escasso período de semanas. Contrariamente à augusta opinião da Sra. D. Maria II que dizia que se morresse de parto (como de facto lhe sucedeu aos trinta e quatro anos!) morreria no cumprimento da seu dever, acho que correr tal risco é uma forma de pseudo-heroísmo. A rainha D. Maria (cujo cognome bem poderia ser o de “A Coelha” ou, quanto muito “A Procriadora”, e nunca “A Educadora”) confundia o seu papel de mãe com o de parideira. Não só é absurdo perder a vida com tal idade como é tremendamente cruel impor o drama da orfandade aos filhos e da viuvez ao marido. Quando penso nas mulheres de países subdesenvolvidos que perecem de parto à míngua de maternidades, as sofisticadas europeias que optam pelo parto extra-hospitalar parecem-me garotelhas mimadas a brincarem com coisas sérias. Sobretudo em países como o nosso, em que não estão providenciados meios para dar cobertura aos imprevistos do tal parto ao domicílio. Sou, portanto, um acérrimo defensor do parto em meio hospitalar, até ao dia em que as mortalidades e morbilidades, materna e perinatal, sejam idênticas, na maternidades ou no domicílio.

Outra moda, mais popular, menos dramática, mas não isenta de inconvenientes, é a mania de impor a presença dos pais durante o parto. Não conheço uma etnia em que o parto não seja um momento exclusivamente feminino. Reconheço que não é um argumento arrasador e poder-se-lhe-á contrapor com justeza que, se não fora a inovação a que se dedicam os “civilizados”, continuaríamos todos a ganhar o pão nosso de cada dia com azagaias. Porém, não deixa de ser curioso que tradicionalmente (quase diríamos: naturalmente) o parto sempre foi um tempo feminino, do qual os homens estavam explicitamente excluídos. Curiosamente, neste particular, o “natural” e o “tradicional” deixam de fazer parte da legitimação da heterodoxia, como o fazem para o tal parto em casa.

É claro que se for da genuína vontade de ambos os progenitores e com a condição de estar o pai preparado, é uma inovação interessante. Mesmo assim, quantas disfunções sexuais do casal não se iniciarão nesse momento? Fazer duma opção livremente aceite por ambos uma obrigação para o progenitor parece-me uma violência sobre este, uma espécie de revanchismo feminista, um espécie de castigo para o macho, isentado que está pela natureza das agruras e riscos do acto de dar à luz.

(*) “Os caminhos da Europa” Fundação Francisco Manuel dos Santos - 2014, pág. 110

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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