José Agostinho dos Santos: há rasgos de luz que são apenas nossos
DATA
18/09/2014 18:33:11
AUTOR
Jornal Médico
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José Agostinho dos Santos: há rasgos de luz que são apenas nossos

[caption id="attachment_6766" align="alignnone" width="300"]joseagostinhodossantos José Agostinho Santos - Médico de Família - Unidade de Saúde Familiar Dunas, ULS – Matosinhos[/caption]

Os últimos meses foram pródigos em palavras em torno de uma proposta do Ministério da Saúde para um novo código de ética que nos obrigaria, enquanto médicos, a redireccionar para o Ministério da Saúde todas as ofertas dadas pelos nossos pacientes. De acordo com a proposta legislativa, o Ministério encarregar-se-ia depois de as enviar para instituições de solidariedade social.

É, de facto, curioso, que o Ministério da Saúde (representado pelos mentores desta proposta) considere que deveria ser ele o destinatário de tais oferendas e assim decidir a quem as redireccionar.

Conversa para aqui e conversa para ali, a tutela voltou atrás e teve a simpatia de deixar aos médicos o poderem ser eles próprios a decidir o destino final a dar às oferendas.

Pese o volte-face, não deixo de considerar um tanto ou quanto perturbador que com esta proposta redigida com minúcia, o Ministério tivesse revelado que se julga representante em todas as esferas do nosso ser clínico: o cargo, a função, a atitude e a relação médico-paciente. A ideia de que nos representa nesta relação tão particular e única induz-me alguma inquietação…

Mas, deve ser de mim… que sou inquieto por natureza.

Houve quem se tivesse indignado com isto! Em fóruns e redes sociais, muitos se enfureceram com a resenha de código de ética e com as pretensões de uma tutela que, dizem, “tudo tem feito para queimar as relações médico-paciente”...

Será? Com ou sem razão, estes nossos colegas auto-inseriram-se num turbilhão emocional que apenas os poderia consumir até à exaustão.

Certo dia, estava eu pronto para dar o peito no campo da revolta contra os pressupostos da proposta... Quando, num rasgo de luz provavelmente divina, irrompeu no meu gabinete uma paciente a quem, em diferentes consultas e em diversos momentos da sua vida, aprendi a curar o curável e a cuidar do incurável. Conheço bem os seus rituais profundamente associados a uma dedicação devota e intensa ao cristianismo. No remate da nossa consulta desse dia, disse-me ela num tom tão transparente como o rio Vez, acompanhando-se de um gesto morno como um pôr-do-sol em Sagres: “todos os dias rezo muito para que o doutor tenha, você próprio, muita saúde! Como não sei nada de medicina para o ajudar a manter a saúde, apenas sei rezar para lhe poder corresponder”.

Nesse momento sublime, recebi a tranquilidade retida nas palavras e no sorriso daquela pessoa que através da sua mais profunda e intimista ligação (neste caso a Deus), me tentava prestar alguns cuidados que acreditava serem-me profundamente benéficos.

Não considero, de modo algum, que este ou outro paciente tenha que me agradecer ou corresponder nos cuidados que presto durante a minha actividade clínica. Mas poderá esta ser a mais bela das compensações por todos os esforços desenvolvidos na batalha pela sustentabilidade da qualidade de um sistema nacional de saúde no qual me insiro e defendo com orgulho?

Não sendo quantificável nem palpável, a oferenda ficaria ali no gabinete, só para mim. Não seguiria para lugar algum. E o facto é que ainda ali está, no meu gabinete, num espaço que só eu e aquela paciente sabemos e conseguimos ver.

Partilho assim convosco um pouco desta história, caros colegas. Certo de que a maioria de vós terá na memória ofertas tão belas como esta. E do quanto é fascinante o modo como a vida nos dá oportunidades de relativização, num momento crucial em que nos poderíamos perder em coisas sem importância...

Por muito que essa proposta (felizmente, defunta) de código de ética procurasse amassar as relações médico-paciente – com um rolo da massa usado, quase bastão – a verdade é que apenas retiraria o supérfluo, deixando emergir o cristalino e o abstracto. E é desse cerne do paciente – reluzente e puro de entrega para com o seu médico – que sobressai a identidade da medicina enquanto arte e a classe médica enquanto força inabalável.
Porque ninguém nos poderá representar se formos fiéis àquilo que acreditamos ser o melhor para os nossos doentes.

Assim é a vida! Bom trabalho!

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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