Jornal Médico Grande Público

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DATA
19/09/2014 13:30:57
AUTOR
Luís Gouveia Andrade - Médico Oftalmologista no Hospital CUF Infante Santo
ETIQUETAS

Quando a “censura” pode ser boa

O problema

O acesso à internet e ao manancial quase infinito de informação que ela proporciona revolucionou, literalmente, o mundo em que vivemos e o nosso próprio estilo de vida.

A internet reduz distâncias, fazendo deste planeta uma enorme aldeia global a que todos podemos aceder sem complicações, sem grandes custos e de qualquer lugar.

Independentemente dos méritos e deméritos da internet que, naturalmente, partilha com tudo o resto, o facto inegável é que ela abriu portas, escancarou janelas e veio, desse modo, arejar o conhecimento, a diversão e a comunicação entre as pessoas.

Assim se passa igualmente no plano da saúde. É hoje possível obter rapidamente informação sobre qualquer doença, meio de diagnóstico ou tratamento de forma simples e abrangente.

Se assim é, qual o problema?

O problema é, na realidade, múltiplo. A informação sobre saúde é complexa, dinâmica, subjectiva e necessariamente carece de uma interpretação individualizada. Uma mesma doença reflecte-se de forma distinta em duas pessoas distintas e pode ser diagnosticada e tratada de modos diferentes por médicos diferentes.

Como tal, embora existam princípios genéricos que se aplicam de modo universal, os pormenores que fazem a diferença e que influenciam todo o processo terapêutico não podem ser avaliados de um modo globalizado.

Por outro lado, a informação sobre saúde, pela delicadeza do tema, pelo impacto que pode ter sobre quem lê, requer uma preparação altamente diferenciada da parte de quem escreve e de quem publica, sob pena de se confundir em vez de se esclarecer e de se amedrontar em vez de se tranquilizar.

Antes do advento da internet, a maioria da informação sobre saúde era publicada em revistas da especialidade ou outras de carácter mais generalista mas, em todas elas, existia um conselho científico ou editorial que revia os textos, confirmava a veracidade dos elementos e das fontes, sugeria alterações e apenas depois permitia a sua publicação.

Com este processo, embora falível, o grau de cuidado, de rigor e de responsabilidade da parte de quem escrevia era, necessariamente, muito elevado.

A internet, com o seu espirito revolucionário e democrático, veio permitir a publicação de tudo, sobre saúde e não só. Qualquer um de nós pode criar uma página, um sítio na internet, e publicar o que bem entender, de autoria própria ou reproduzindo elementos recolhidos noutras fontes de informação.

O produto final, melhor ou pior “embalado”, tornar-se-á indistinto para o público leigo de um texto rigoroso e cientificamente validado sobre saúde.

E nada disto é “censurado”, ou seja, nada disto é submetido a uma certificação prévia que permita oferecer a quem lê informação de qualidade e, por isso, verdadeiramente útil.

O impacto

O impacto é óbvio. Todos os dias chegam às nossas consultas pacientes com informação errónea sobre uma doença ou um medicamento e que esgrimem argumentos com o seu médico, questionando-o, querendo demonstrar que sabem e que estão actualizados.

Todos os dias vemos doentes que, perante uma receita ou uma proposta de tratamento, regressam contrariados porque a informação que o médico deu não é a mesma que leram na internet, porque consideram que existem tratamentos melhores, hospitais melhores, etc., etc..

E, quando por alguma razão, o curso da doença se desvia do previsto pelo médico, temos sempre doentes que já sabiam que tal ia suceder porque na internet já tinham lido que aquele não era o caminho.

Com tudo isso se perde tempo, argumentando, tendo de explicar que o que foi lido não é fiável, que a realidade é outra e tendo de derrubar todo um conjunto de obstáculos que a internet ergueu em vez de derrubar.

E tudo isto gera o maior dos impactos: a quebra da relação médico-doente, um dos pilares da Medicina e dos efectivos motores para a resolução de grande parte das doenças.

O que fazer?

Nada do aqui escrevo pretende colocar-me em antagonismo com a internet. Nela reconheço uma ferramenta de trabalho fantástica.

O meu propósito é alertar para a importância e sensibilidade destas matérias e para a necessidade de sabermos, num mar imenso de informação, encontrar aquela que verdadeiramente nos interessa e nos poder ajudar.

Não sendo possível garantir sempre o resultado final, deixo algumas propostas que poderão ajudar profissionais e leigos a encontrar a melhor informação científica disponível:

  • Pesquisar a informação em sítios governamentais ou institucionais (frequentemente identificados pela terminação “.gov” ou “.org”);
  • As fontes oriundas de hospitais ou universidades tendem a ser igualmente muito fiáveis;
  • Preferir a informação publicada por autores devidamente identificados e devidamente datada, de modo a garantir a sua actualidade;
  • Pesquisar mais do que uma fonte, de modo a cruzar a informação e atestar a sua robustez;
  • Finalmente, manter o espírito suficientemente aberto para saber que toda a informação em saúde deve ser confrontada e adaptada a cada caso real, sabendo que só assim ela poderá ser benéfica.

    Agindo deste modo, sabendo filtrar e “censurar” o que a internet nos oferece, estaremos mais aptos a dela retirar o que de melhor ela nos pode oferecer e, desse modo seremos cidadãos mais informados e mais preparados no que se refere ao nosso bem mais essencial: a nossa Saúde.

 

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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