Imagem 720*435
DATA
02/10/2014 19:00:43
AUTOR
Acácio Gouveia
Os sete samurais


“Tendo entrado no templo, começou a expulsar os que ali vendiam”
Lucas 19.45

Se me não falha a memória, faz por estes dias dois anos que foi noticiada a regulação da publicidade aos produtos que se bandeiam na fronteira entre os suplementos alimentares e as substâncias (supostamente) com efeitos terapêuticos.

Pese a legislação, a enxurrada das “depuralinas”, “mangustões” e toda uma avalancha brasileira de pomadinhas, “chás de descarrego” e mezinhas infalíveis (todas elas) contra impigens e maleitas várias, continua a poluir o quotidiano dos meios de comunicação social, a depauperar as bolsas dos crédulos e a afastá-los dos cuidados e tratamento eficazes.

Não culpemos os crédulos. Faz parte da natureza humana acreditar.

Se a Claudia Shiffer é capaz de influenciar a escolha do modelo de automóvel que publicita (se o não fosse, ninguém lhe pagaria principescamente para publicitar o tal modelo de viatura), porque não há-de acreditar o cidadão nas virtualidades das mixórdias que prometem reduções ponderais espectaculares ou invejáveis “upgrades” de memória?

O mal está, não tanto nos vendilhões, mas na incapacidade manifesta das autoridades de supervisão que permitem, por exemplo, que o aciclovir tópico, desaconselhado pelos dermatologistas, passasse a ser vendido sem receita e publicitado como eficaz!

Os vendilhões do templo pululam impunes, perante o olhar condescendente das autoridades!

Mas eis que surge um raio de esperança: o anúncio feito há dias de que sete ordens profissionais ligadas à saúde saíram a terreiro decididas, segundo entendi, a lutar contra o obscurantismo mercantilista que por aí grassa desenfreado. Biólogos, enfermeiros, farmacêuticos, médicos, dentistas, nutricionistas e psicólogos.

Trouxeram-se à memória a história dos sete samurais que se colocaram ao serviço de pobres aldeões ameaçados por bandidos temíveis, transposta para o cinema por Akira Kurosowa. Louvável iniciativa esta, da sociedade civil, que contrasta com a falência da tutela, incapaz de proteger a saúde e o pecúlio dos cidadãos.

Atrevo-me a sugerir como um dos primeiros alvos desta liga os inefáveis cigarros electrónicos e a enganosa publicidade que envolve a sua proliferação. Veria esta iniciativa como uma forma involuntária, mas condigna, de comemorar os 35 anos do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

E por falar em comemorações dos 35 anos do SNS… Constato com tristeza que a atenção dos meios de comunicação se tenha centrado nas declarações e comentários sobre as taxas moderadoras. Um tema absolutamente marginal que pela forma populista e demagógica como foi tratado, afastou o debate sobre assuntos vitais para a sobrevivência do SNS.

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

Mais lidas