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José Agostinho dos Santos: este tempo que é oculto…
DATA
26/11/2014 01:00:47
AUTOR
Jornal Médico
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José Agostinho dos Santos: este tempo que é oculto…

[caption id="attachment_6766" align="alignnone" width="300"]joseagostinhodossantos José Agostinho Santos, Médico de Família, Unidade de Saúde Familiar Dunas, ULS – Matosinhos[/caption]

Há uns meses foi finalmente publicado um valioso estudo de Mónica Granja, Carla Ponte e Luís Cavadas que, numa análise do tempo de trabalho do médico de família português, concluiu que um terço da sua carga laboral é para a designada “actividade clínica não-presencial”, onde se inclui a renovação de receituário, avaliação de exames complementares, reuniões, tarefas de gestão, registos clínicos, articulação com os cuidados de saúde secundários, entre outras1. Também se concluiu que parte dessa actividade não-assistencial – mas essencial para os nossos pacientes – não pode ser contida no horário laboral,1,2 conduzindo a horas extras, o mais das vezes não remuneradas.

Com este estudo português, esse trabalho tantas vezes invisível aos nossos pacientes e tantas vezes reclamado por todos nós, emerge à superfície revelando toda a sua dimensão. A partir daqui, não haverá como “afogá-lo”: está à tona; à vista de toda a gente.

Os resultados deste estudo entregaram-me a uma intrusiva ambiguidade afectiva: se por um lado fico satisfeito pela ilustração tão clara daquilo que tanto proclamava e não conseguia provar, por outro lado a constatação exacta da sua dimensão faz-me pensar se, nesta desenfreada luta contra e pelo tempo de onde nunca saímos vencedores, não dispensamos demasiada energia em tarefas que não envolvem nem o olhar nem o toque do paciente.

Será que temos uma lista demasiada extensa que não nos permite uma distribuição justa deste nosso tempo tão precioso?

Será que temos uma obsessão em cumprir exigências de uma contratualização avassaladora?... É ao som da música “o tempo não pára”, cantada pela cristalina voz de Mariza, que me ponho a pensar que, no contexto actual da medicina baseada nos indicadores, também não sei se andei depressa demais, mas sei que algum sorriso perdi... Mas tenho que pedir ao tempo que me dê mais tempo para olhar para o meu paciente.

O afloramento desta reflexão sobre a maneira como usamos o nosso tempo fez-me induzir ainda outra inquietação ao constatar que permanece por definir e/ou calcular todo tempo que dispensamos aos nossos pacientes sem que estejamos no gabinete. É o tempo em que os transportamos no pensamento no nosso caminho para casa ao fim de um dia de trabalho; em que os envolvemos no nosso coração quando pensamos o quanto a vida pode ser traiçoeira; em que os carregamos connosco em alguns momentos de reflexão junto ao mar e em que os dispomos em cima da mesa entre livros de medicina e pesquisas na internet noite adentro... Estará este tempo por ser definido? Haverá forma de medir este tempo que, fora do contexto do gabinete que tantas vezes é ponto de passagem de uma maratona clínica, nos permite repor, recuperar, reintroduzir, repensar, reflectir, iluminar, cicatrizar e, muitas vezes, decidir e solucionar? Haverá modo de perceber o impacto deste tempo retirado deste espaço em que estamos somente nós, em que espelhamos apenas a nossa essência naquilo que fomos fazendo e em que estamos despidos do barulho dos quês da unidade de saúde e das poeiras dos horários protocolados?...

Numa perspectiva pessoal, este é aquele tempo que, apesar de oculto, terá o maior impacto na nossa arte e no nosso modo de cuidar. Aquele tempo que nos faz recordar a razão pela qual somos médicos; a razão pela qual iremos discordar de algumas ideias que nos tentam passar; a razão pela qual conseguimos transmitir as nossas inquietações e depois dormir de consciência tranquila. E é também, tantas vezes, aquele tempo que nos faz colocar em acção as decisões difíceis que mudarão para sempre a vida de alguns pacientes.

Este é tempo nosso, que nunca iremos ver remunerado, como é natural. Mas penso que teria que ser reconhecido nas 1.001 reuniões e encontros que por aqui acontecem... Talvez tal reconhecimento mudasse a frustrante sensação de que não passamos de um número, de um funcionário, de um elemento que gasta mais ou menos o orçamento da instituição ou da entidade empregadora. É que, na verdade, a instituição deverá parte dos seus sucessos às decisões tomadas durante este tempo oculto que todos nós, médicos, usamos.

Assim é a vida! Bom trabalho!

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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