Rui Cernadas: segurança dos doentes
DATA
17/10/2014 09:00:35
AUTOR
Jornal Médico
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Rui Cernadas: segurança dos doentes

[caption id="attachment_6762" align="alignnone" width="300"]ruicernadas Rui Cernadas; Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

O problema da segurança do doente em contexto de oferta de cuidados de saúde é um tema que ainda está relativamente longe de estar bem estudado… não obstante surgir na primeira linha das preocupações clínicas e organizacionais, sobretudo em meio hospitalar.

É verdade que, por todo o mundo, é objecto de atenção e pesquisa crescentes, a vários títulos:

- Como área temática de pura investigação científica;

- Como forte componente na melhoria contínua de cuidados e também por razões ligadas à chamada “accountability” ou prestação de contas;

- Como perspectiva ética inalienável;

- Como preocupação académica na gestão hospitalar ou em outras áreas médica ou de enfermagem;

- Como vector complementar e de continuidade na discussão da qualidade em saúde.

A Comissão Europeia tem sido, a este respeito, um dos agentes mais empenhados, quer no âmbito da divulgação dos contornos do problema e da avaliação da percepção dos europeus face à questão, quer através do Conselho da União Europeia, entidade emissora de recomendações específicas sobre a segurança dos doentes.

Os números avançados devem, de resto, merecer alguma reflexão:

- Entre 8% a 12% dos pacientes internados nos hospitais europeus irão sofrer eventos adversos nesse período;

- Desses, cerca de um quarto serão relacionadas com infecções de natureza hospitalar;

- Os restantes 75% sofrerão consequências de complicações diversas, expectáveis ou não, mas associadas às terapêuticas farmacológicas e a efeitos iatrogénicos, a actos cirúrgicos, a erros de diagnóstico ou da prática clínica e, ainda, a dispositivos ou tecnologias médicas várias.

Por outras palavras, e apenas quanto ao risco infeccioso hospitalar, as estimativas apontam para um montante em redor das 37 a 40 mil mortes por ano no conjunto dos hospitais europeus!

É por isso que alguns dos autores mais celebrados nesta matéria defendem que há que associar custos muito elevados às questões com a segurança dos doentes como forma de – em todos os sentidos – os profissionais de saúde e as respectivas instituições, públicas, privadas ou do sector social, lhes atribuírem a devida importância estratégica e clínica.

Nessa linha, exige-se às organizações de saúde um modelo estrutural normativo que coloque a segurança e a qualidade num figurino de partilha e complementaridade responsável e patamar de preocupação elevado.

A própria Organização Mundial de Saúde destaca igualmente o tema e integra-o no que designa de necessidade de cultura de segurança das organizações de saúde, envolvendo também o papel das lideranças, do trabalho em equipa, da tomada de decisão, do stress e da fadiga e do ambiente do trabalho.

Em Portugal há também muito por fazer e muito do que foi já produzido, apresentado ou estabelecido, deriva mais da voluntariedade do que de um planeamento estratégico abrangente e coerente… Sendo certo que nos últimos meses – talvez ano e meio – tenhamos assistido a uma clara insistência na análise do problema, na oferta de actividades formativas ou de sensibilização e no reforço da vertente da luta contra a infecção hospitalar.

A gestão da saúde pode e deve interpretar e assumir, até, que a iliteracia dos doentes, como de muita da comunicação social generalista que se dedica à saúde, põe em causa a segurança da população e cria dificuldades acrescidas à promoção da saúde e defesa da saúde pública.

A opção por ambientes seguros na linha da prestação de cuidados médicos deve pugnar por eliminar os comportamentos de risco e aceitar que não existem “profissionais perfeitos” ou “risco zero”… Uma realidade que também seria bom recordar, amiúde, às entidades com responsabilidades formativas, ordens profissionais, entre outras.

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