Jornal Médico Grande Público

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DATA
05/11/2014 11:56:37
AUTOR
Luís Gouveia Andrade - Médico Oftalmologista no Hospital CUF Infante Santo
ETIQUETAS

O preço dos medicamentos

O debate sobre os custos da saúde em geral e dos medicamentos em particular é importante e deve ser constante, colocando em análise todas as variáveis do problema e procurando, de um modo sensato, apreender o que está bem e o que pode e deve ser melhorado.

Nesse debate, o custo dos medicamentos e os dividendos que a indústria farmacêutica daí colhe é episodicamente exacerbado, embora nunca seja esquecido. Foi assim para muitos dos medicamentos desenvolvidos para o controlo da infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (VIH) e tem sido ultimamente a propósito dos medicamentos para o tratamento da hepatite C.

A análise deste tema é complexa e presta-se a inúmeras interpretações, nem sempre objectivas e muitas vezes enviesadas por todo o clima de austeridade em que vivemos.

É sempre fácil afirmar que a indústria farmacêutica é uma Indústria milionária, que procura o lucro fácil e que utiliza a vida das pessoas com esse propósito.

Mas serão estas afirmações justas?

A investigação de um novo medicamento é um processo moroso, extremamente oneroso, que envolve profissionais de topo dos mais variados ramos das ciências e que nem sempre é bem-sucedido.

Em média, um medicamento demora 12 anos a chegar à população-alvo, passando por diversas fases de investigação, que se iniciam no laboratório. Dessa fase, apenas cerca de 1% das moléculas avaliadas preenche critérios para ser avaliada em humanos e, dessas, apenas uma em cada cinco é finalmente aprovada.

E mesmo assim, após a sua aprovação e comercialização, alguns medicamentos têm de ser retirados por reacções adversas só nesta fase detectadas.

Ao longo desses 12 anos, o processo envolveu químicos, biólogos, microbiologistas, fisiologistas, farmacêuticos, farmacologistas, médicos, matemáticos, entre outros, e cada um contribuiu com o seu conhecimento específico para se prosseguir.

Os custos estimados da investigação de um novo medicamento variarão em função da sua natureza mas, em média, rondarão os 350 milhões de dólares. E como referi, nada garante que esse medicamento verá a luz do dia…

E lanço agora esta questão, talvez mais importante do que a análise anterior: quem, no momento actual, se dedica à investigação de novos medicamentos?

A resposta: não são os hospitais nem as universidades nem as instituições governamentais. Esse risco fica inteiramente do lado da indústria farmacêutica.

Caso esta optasse por desistir de procurar novas moléculas, quantas vidas se perderiam, quantos anos de vida se desperdiçariam, como seria a nossa qualidade de vida?

Os antibióticos falham, as bactérias tornam-se resistentes e, por isso, é imperioso desenvolver novos antibióticos, alguns deles com um ciclo de vida provavelmente muito curto. E os custos associados a esse investimento estão sempre do mesmo lado.

Retomando o exemplo da infecção pelo VIH, a Indústria Farmacêutica, com o apoio das autoridades regulamentares conseguiu desenvolver e ver rapidamente aprovados medicamentos absolutamente revolucionários que salvaram vidas, que prolongaram vidas e que fazem hoje desta infecção uma doença crónica como tantas outras.

E mesmo assim, nessa época, ouviram-se vozes oriundas dos mais diversos sectores, incluindo dos próprios pacientes, revoltando-se contra os preços dos medicamentos. Ironia das ironias: muito desses pacientes podiam protestar e manifestar-se graças à Indústria que então diabolizavam.

Com tudo isto, pretendo relembrar alguns conceitos-chave:

  1. A investigação de um novo medicamento é lenta, arriscada e cara. Se a Indústria Farmacêutica a abandonasse, o mundo seria hoje bem diferente do que é e temos de lhe dar esse crédito;
  2. Os custos dos medicamentos reflectem esse esforço e esse risco e premeiam o trabalho de centenas de profissionais;
  3. Todas as diligências que possam ser tomadas para harmonizar esses preços, torná-los mais justos e equitativos são bem-vindas e permitirão um acesso mais universal à Saúde (estou certo de que, em muitos casos, tal será possível);
  4. Importa, ao longo desse processo, não perder o Norte e não atacar aqueles que, em última análise, permitem à maioria de nós, viver mais e melhor.

    A Saúde tem custos mas, como se costuma dizer, não tem preço…

E esquecer isso é trocar o essencial pelo acessório.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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