Jornal Médico Grande Público

Acácio Gouveia: o despesismo de Paulo Macedo – II
DATA
25/11/2014 15:27:17
AUTOR
Jornal Médico
Acácio Gouveia: o despesismo de Paulo Macedo – II

[caption id="attachment_6771" align="alignnone" width="300"]acáciogouveia Acácio Gouveia - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]


(…) aquisição do barril de uísque de que não precisamos, pelo preço da carne de vaca que não nos podemos dar ao luxo de comprar.
Ambrose Bierce

Se as vantagens do PEM levantam muitas dúvidas, já o submenu da prescrição de cuidados respiratórios é de uma inutilidade irrefutável, sendo que o cerne do problema não está na informatização, mas no procedimento em si.

Os menos jovens nestas andanças recordar-se-ão que, em tempos idos, a bagunça estava instalada no tocante aos cuidados respiratórios domiciliários. A criança a quem tivesse sido prescrita nebulização domiciliária, por mor de um episódio mais façanhudo de bronco-espasmo, mantinha anos (digo bem: anos) a fio o aparelho em casa “para o caso de…”. Frequentemente o tal episódio dispneico ficava solteiro nos tais anos a fio, continuando o SNS a pagar a presença vã do aparelho no lar da tal criança. Nesses tempos pré-informatização, quem pôs termo à hemorragia de recursos, consequência da indisciplina, foi uma norma, na generalidade inteligente, que regulamentou a prescrição dos cuidados respiratórios domiciliários e providenciou a criação de um formulário próprio. Contudo, na classificação de inteligente há que ressalvar uma excepção: a renovação de três em três meses de prescrição de ventiloterapia para tratamento da síndrome de apneia de sono. Sabemos que estamos perante uma patologia crónica e geralmente sem alternativas terapêuticas. Sabemos ainda que a sua prescrição e vigilância está reservada exclusivamente a médicos especializados neste nicho terapêutico. Portanto, não se entende por que carga de água são sobrecarregados os MF com a continuidade da prescrição da ventiloterapia.

Vejamos: a um doente medicado com varfarina em meio hospitalar é lícito que seja transferida para o MF a responsabilidade do seu seguimento, este tem a competência para interpretar os dados analíticos e clínicos e autonomia para tomar decisões. Estamos perante um acto clínico que o MF tem obrigação de executar. Ora, no caso da ventiloterapia tais pressupostos estão ausentes, já que o seu manejo exige um know-how que está fora do alcance do MF. A bem dizer, os CSP foram encarregues de uma prova de vida trimestral (!) do utilizador da ventiloterapia, para que as velhacas empresas fornecedoras não enriqueçam à custa de facturação daqueles que forem falecendo! Ainda que o mais provável seja que a maioria dos utentes submetidos a ventiloterapia estejam vivos nas próximas décadas. Porquê, então, obrigá-los a estas apresentações periódicas? Estamos perante procedimentos desprovidos de interesse clínico e, a bem dizer, nem mesmo de interesse burocrático.

Deploravelmente, a SPMS orgulha-se de ter dado à luz um procedimento que não tem qualquer valor acrescentado, é incómodo para o utente e desprestigiante para o MF. Mais: esta liturgia não tem sequer o suporte nos pontos 8 e 9 da norma 22/2011 da DGS, já de si um tanto obscura no que respeita ao envolvimento dos cuidados de saúde primários no seguimento desta patologia. No caso da prescrição de terapêutica do SOAS, a informatização veio dificultar-nos a vida. Antigamente, no tempo das prescrições em papel, preenchia (truque aprendido com um pneumologista) quatro formulários com datas sucessivas, cobrindo todo um ano. Assim, ficávamos, eu e o doente, livres deste ritual durante doze meses e poupavam-se três idas inúteis ao centro de saúde. Hoje é impossível fugir ao trimestral beija-mão, mais ao menos idiota e razoavelmente estupidificante.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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