Jornal Médico Grande Público

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DATA
08/11/2014 15:30:20
AUTOR
Luís Gouveia Andrade - Médico Oftalmologista no Hospital CUF Infante Santo
ETIQUETAS

Moderna Medicina, arte ou tecnologia?

A Medicina sempre lidou com a mais espantosa e complexa “máquina” que conhecemos: o corpo humano. E a mais surpreendente, também. De facto, apesar de todos os avanços, de todos os passos dados, de todas as descobertas realizadas, os mistérios que ainda permanecem por desvendar são incontáveis e por cada janela que se abre novos caminhos surgem na obscuridade, criando novos desafios e obrigando-nos a encetar novas viagens.

Os tempos modernos geraram novos dilemas: o aumento da esperança de vida permitiu que se manifestassem doenças que antes não tinham oportunidade para o fazer e as alterações ambientais e no estilo de vida proporcionaram a eclosão de novos problemas, que requerem novas soluções.

A própria Medicina, mais ousada, mais interventiva, mais tecnológica, permitiu identificar e tratar muitas doenças mas tornou-se, inevitavelmente, mais agressiva, mais invasiva e, por isso mesmo, potencialmente geradora de desequilíbrios na saúde que procura restabelecer.

Tornou-se, também, tremendamente mais dispendiosa, tornando a sua gestão mais difícil e criando desigualdades de acesso que colocam desafios éticos e sociais constantes. Mas essa análise poderá ficar para depois…

Por outro lado, os progressos notáveis nas áreas tecnológicas, da informática à robótica, “contagiaram” a forma de praticar Medicina, abrindo novas possibilidades de ir mais além, trazendo promessas de menor risco, maior fiabilidade e – aspecto cada vez mais sublinhado – oferecendo tempos de recuperação crescentemente menores.

Sendo o papel da tecnologia inquestionável no avanço médico, é igualmente notório que ela tem ganho terreno de um modo mais célere do que seria desejável. Novos equipamentos vão sendo desenvolvidos e comercializados, tanto para fins diagnósticos como cirúrgicos, sem se fazer a devida e ponderada avaliação dos benefícios adicionais, dos potenciais riscos e sem se realizar a necessária validação científica e estatística que, de acordo com a Medicina Baseada na Evidência, deveria ditar a adopção de novos métodos em detrimentos de outros.

A pressão do tempo, o acesso em tempo real à informação pelos pacientes, a necessidade dos doentes estarem doentes o menos tempo possível, tudo isto, empurra a Medicina para novas práticas tecnologicamente mais evoluídas mas não necessariamente mais eficazes ou benéficas.

Por outro lado, a tecnologia cria nos doentes uma falsa impressão de simplicidade e de infalibilidade, tornando-os muito menos flexíveis e tolerantes face ao insucesso de um tratamento.

Esta nova dinâmica, este ritmo acelerado que a vida moderna imprime a tudo, reduz o tempo para pensar e para reflectir, encerrando, por isso mesmo, novos riscos a que todos devemos estar atentos. Se é verdade que a tecnologia permite poupar tempo, aperfeiçoar muitos gestos terapêuticos e melhorar a qualidade de vida dos doentes, é igualmente verdade que ela gera novas complicações, inerentes aos equipamentos e a tudo o que a eles se associa e torna a intervenção sobre o doente menos dependente do médico e mais dependente da máquina, reduzindo o controlo, a possibilidade de introdução de medidas correctivas e, sobretudo, colocando em segundo plano a experiência do médico, a sua intuição e a sua capacidade de inovar a cada momento em função do que encontra e do que vê.

Os algoritmos terapêuticos subjacentes a cada novo equipamento tendem a substituir esta componente subjectiva, quase instintiva, da Medicina que sempre fizeram dela uma forma especial de arte. E se isso pode parecer bom, uma leitura mais serena poderá revelar que nem sempre assim é.

A prática médica coabita com a incerteza. O número de variáveis a considerar a cada momento é sempre muito significativo e lidar com todas elas implica, mais do que tecnologia, experiência, muita experiência e bom senso. Implica ainda outro elemento, a confiança médico-doente, aspecto crucial que condiciona todo o processo terapêutico e que só pode ser criada e consolidada entre duas pessoas, na forma como comunicam, como interagem e como, em conjunto, decidem optar por um outro caminho. Nada disso pode ser substituído pela tecnologia. Não pode nem deve, sob pena de se esboroarem os alicerces que sustentam todo o edifício da Medicina.

É legítimo desejar-se uma Medicina mais eficaz, que responda melhor aos tempos modernos, que traga mais qualidade de vida. Mas é essencial saber que a tecnologia é, como o Homem, imperfeita, falível e incerta. Com a desvantagem acrescida de lhe faltar o afecto.

A arte de tratar um doente é e será sempre isso mesmo: uma arte, com tudo o que isso simboliza de belo, de imperfeito, de subjectivo e, até, de transcendente. Um bom médico será aquele que se dedique aos seus doentes, que a eles entregue o melhor de si mesmo, que exerça a sua profissão com humildade e devoção e que, perante o insucesso, saiba dele retirar novas lições.

A tecnologia tem permitido dar saltos quantitativos e qualitativos gigantescos e tornou a Medicina muito mais precisa, permitindo-lhe chegar muito mais longe. Graças a ela, temos muito mais para oferecer aos nossos doentes.

Saber equilibrar, no dia-a-dia, em cada doente, a dose certa de razão e emoção, de arte e tecnologia, eis um desafio que se nos coloca e ao qual deveremos responder sem nunca perder da linha do nosso horizonte o fim último do que somos e do que fazemos: a pessoa, saudável ou doente, que nos procura e que em nós confia para lhe proporcionar o que deseja ou necessita.

A Medicina será sempre assim: de pessoas para pessoas. A tecnologia reforça essa conexão mas não a substitui. Caso contrário, nada faria sentido.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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