Jornal Médico Grande Público

Imagem 720*435
DATA
08/11/2014 01:41:05
AUTOR
Luís Gouveia Andrade - Médico Oftalmologista no Hospital CUF Infante Santo
ETIQUETAS

Saúde, bem-estar e felicidade - estados (in) conciliáveis?

Abordo este tema a propósito dos tempos em que vivemos, dos novos paradigmas que vão surgindo, das “imposições” que a própria sociedade nos vai colocando, dos dilemas e dúvidas com que a vida regularmente nos confronta.

Numa era em que os cuidados de saúde são, felizmente, cada vez melhores e mais abrangentes, oferecendo mais anos de vida com a qualidade que lhes é devida, as populações e as sociedades vão-se orientando para novas necessidades, novas exigências, novos desafios.

Nos dias de hoje, a saúde, quando abalada, tem de ser recuperada rapidamente, as complicações são menos toleradas e os procedimentos são percebidos como simples, perfeitos e isentos de margem de erro. Esta imagem utópica da saúde, por vezes alimentada pelos próprios profissionais, gera um excesso de confiança e, como tal, uma intolerância ao insucesso.

Por um lado, vivemos na geração do bem-estar. Exercício físico, dietas, suplementos alimentares, nutrição, estética, tomam conta da vida de um número crescente de pessoas que procuram elevar a sua auto estima, ir de encontro a padrões de beleza e bem-estar definidos por anónimos e que, nesse processo, perdem tempo, consumem recursos e, com frequência, colocam a sua saúde em risco.

Finalmente, a noção de felicidade. Para lá da sua enorme subjectividade, qual o seu peso para cada um de nós? Ser feliz tem um significado muito próprio para cada pessoa. Enquanto para alguns, ela corresponde a um estado que ocorre episodicamente ao longo de um dia ou ao longo de uma vida, para outros é algo que está constantemente presente, iluminando e aquecendo a vida ou, inversamente, é uma emoção nunca experimentada e, por isso, irreconhecível, sem rosto nem forma.

O mundo em que nos inserimos, as pessoas que nos rodeiam, a comunicação social, tudo nos “empurra” para tentarmos ser felizes, tornando um sentimento que deveria ser espontâneo algo de mandatório, compulsivo, incontornável.

E, assim, temos mais e melhor saúde, uma busca incessante pelo bem-estar e a felicidade como algo que pode e deve ser atingido.

É curioso observar que a própria definição de saúde da Organização Mundial da Saúde, enunciada em Abril de 1948 e nunca mais alterada, coloca a saúde num patamar de exigência, no meu entender, inalcançável e, por isso mesmo, pouco sensato. Definir saúde como “um estado de completo bem-estar físico mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade” colocou a fasquia demasiado elevada e faz de cada um de nós um eterno doente ou, no mínimo, faz com que ninguém se possa considerar saudável.

Embora entenda o espírito dessa definição e a sua abrangência se deva a uma vontade de levar a saúde a todos e reforçá-la como um direito alienável das populações, o facto é que se trata de uma afirmação que extravasa o campo da Medicina estendendo-se para áreas dos domínios social, económico, político e, até, filosófico.

A vida é uma realidade complexa, multifacetada, em que inúmeras variáveis interagem para fazerem de nós o que somos, como evoluímos e como nos sentimos. Saúde, bem-estar e felicidade dependem das expectativas com que são encarados e, por isso, existem pessoas permanentemente doentes e tristes e outras plenas de energia e felicidade, mesmo podendo ser menos saudáveis que as primeiras.

Quando os outros e nós mesmos exigimos demasiado, torna-se difícil alcançar um equilíbrio interior. Importa, portanto, saber gerir a vida com sensatez e saber aproveitar tudo o que de bom ela nos oferece.

Saúde, bem-estar e felicidade todos temos ou vamos tendo, em maior ou menor grau ao longo dos anos. Podemos sempre aspirar a mais, mas é importante saber que isso nem sempre depende de nós e, como tal, não vale a pena sofrermos em demasia por esse motivo.

Respeitemos o nosso corpo, tentemos mantê-lo saudável e em boa forma, e procuremos que o nosso espírito se mantenha positivo e disponível para os confrontos diários.

E não sejamos excessivamente duros para nós próprios. Como diz uma fantástica canção dos anos 90: “Don't mess too much with your hair or by the time you're 40 it will look 85” 1.

Ou, à boa maneira portuguesa, quem tudo quer, tudo perde…

PS: tudo o que aqui escrevo deixa de fora, infelizmente, uma porção imensa do nosso Planeta, onde os cuidados de saúde são uma mera caricatura, onde a procura pelo bem-estar dá lugar à luta pela sobrevivência e onde a felicidade se escreve e define com outras cores. Mas, mesmo assim, é possível encontrar em populações tão pobres e tão carentes manifestações de alegria de viver, de vitalidade e de felicidade. E, nesses exemplos, fica bem patente que saúde, bem-estar e felicidade são estados bem distintos e que não têm de coexistir por obrigação ou decreto. A vida é muito mais complexa do que isso. E ainda bem…

1 “Everybody's Free to Wear Sunscreen”, Lee Perry e Quindon Tarver, "Something for Everyone" (Baz Luhrman), Australia, October, 1997

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

news events box

Mais lidas

Has no content to show!