Acácio Gouveia: o despesismo de Paulo Macedo – III
DATA
19/12/2014 16:00:28
AUTOR
Jornal Médico
Acácio Gouveia: o despesismo de Paulo Macedo – III

[caption id="attachment_6771" align="alignnone" width="300"]acáciogouveia Acácio Gouveia - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Com bom regimento pode até o pouco bastar para muitos; sem ele, nem a poucos alcança o muito.

Padre Manuel Bernardes

Continuando a nossa deambulação pelo bizarro mundo dos SI (Sistemas de Informação) do SNS, não esqueçamos que na elaboração do PEM terão estado envolvidos vários técnicos informáticos, durante muitas horas. Quanto custou a confecção desta pérola? Não teria sido preferível investir tempo e talento na desmaterialização do receituário, objectivo há muito prometido (e esquecido) e que traria reais benefícios económicos e ecológicos? Ou que se tivessem empenhado na criação de aplicações úteis como o SINAVE ou o SICO?

É importante que não se apague da memória a forma atamancada como o PEM foi lançado e da qual resultaram gravíssimos problemas nas semanas seguintes à sua desastrada estreia. Quanto custaram? Duvido que a tutela tenha feito essas contas e é pena que não se queira aprender com os desastres passados.

Concluindo

Quem não é capaz de poupar um cêntimo, não merece um euro

Provérbio alemão

Ao contrário do que poderá sugerir a leitura de um artigo de opinião da autoria do Prof. José Carlos Nascimento sobre os SI do MS, publicado no antepenúltimo número do JM, os problemas informáticos do SNS não surgiram com o actual governo. Longe disso.

Paulo Macedo recebeu uma pesada herança dos anos de desvario despesista, em cujo rol constavam SI lastimosos. Conseguiu, contrariando a propaganda populista que insiste em propalar que “há almoços grátis”, pôr alguma ordem nas contas do Ministério da Saúde. E nisso há mérito que poucos reconhecem.

Porém, podia fazer melhor: o investimento no capital humano tem deixado a desejar. As oportunidades que, segundo dizem, surgem em tempo de crise, têm passado ao lado do actual MS.

Em Portugal acredita-se que os problemas se resolvem derramando dinheiro sobre eles e que cada investimento se salda em lucro. Tal nem sempre é verdade: há investimentos sem retorno, outros de retorno discutível, incerto ou demasiado longínquo para serem feitos em tempos de aperto. Mas há investimentos com retorno imediato e garantido: os que melhoram a produtividade de forma inequívoca e rápida. O software “corre” (eufemismo, claro) de forma periclitante, consumindo demasiado tempo (que é dinheiro, não esquecer) e a paciência dos utilizadores. Poupar na modernização dos SI não é economizar: é esbanjar.

Se no passado os governantes gastaram levianamente o pecúlio que havia (e o que não havia), atirando a nação para um endividamento sufocante, a actual equipa do MS revela-se perdulária no que toca ao capital humano. Deixa-se maravilhar com as fúteis missangas que o SPMS lhe propõe, iniciativas sem valor acrescentado e que mais sobrecarregam os profissionais.

Seria interessante que algum aluno de doutoramento em economia contabilizasse os custos tangíveis da ineficiência dos nossos SI e dos procedimentos desnecessários. Valeria também a pena que algum sociólogo estudasse os prejuízos intangíveis que lhe estão associados: desmotivação dos profissionais, “burnout”, fuga de profissionais para o estrangeiro ou para fora do SNS, reformas prematuras, entre outros.

Já agora: que tal se algum politólogo se debruçasse sobre a perda de credibilidade que este desleixo acarreta para o executivo?

800 milhões de euros para o Serviço Nacional de Saúde
Editorial | Jornal Médico
800 milhões de euros para o Serviço Nacional de Saúde

Se não os tivéssemos seria bem pior! O reforço do Programa Operacional da Saúde com 800 milhões de euros pode ser entendido como sinal político de valorização do setor da saúde. Será uma viragem na política restritiva? O Serviço Nacional de Saúde (SNS) de 40 anos precisa de cuidados intensivos! Há novos enquadramentos, novas responsabilidades, novas ideias e novas soluções. É urgente pensarmos na nova década com rigor e disponibilidade sincera.

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