Imagem 720*435
DATA
05/01/2015 17:00:15
AUTOR
Luís Gouveia Andrade - Médico Oftalmologista no Hospital CUF Infante Santo
ETIQUETAS

O papel da comunicação social na informação sobre saúde

Sendo verdade que o acesso das populações à informação sobre saúde é cada vez mais amplo, fruto da internet e do tremendo manancial nela contido, é igualmente verdade que a comunicação social, na persecução da sua missão de informar, tem tido um papel central na sensibilização sobre a saúde e sobre a doença, sobre estilos de vida saudáveis, medidas preventivas a adoptar e, de um modo geral, na divulgação dos fenómenos ligados à saúde aquém e além-fronteiras, com ênfase para as epidemias, pandemias, etc.

E, se é um facto que a internet oferece um enorme caldeirão de informação, onde se mistura a boa com a má, não se pode deixar de referir que a comunicação social nem sempre cumpre esta nobre missão de prestar um serviço responsável, sereno e verdadeiramente útil quando se trata de um tema tão delicado como o da saúde.

Importa distinguir dois contextos:

  • A divulgação sobre saúde, que se encontra em muitas publicações periódicas dedicadas ao tema, ou noutras mais generalistas com secções dedicadas à saúde, tem tido uma evolução tremendamente positiva, fruto das parcerias entre jornalistas, médicos e instituições de saúde das quais resultam textos de grande qualidade e rigor, sem perder a sua acessibilidade a um público leigo, com fontes bem identificadas e muito actuais.
  • A informação prestada em momentos de crise, quando o tempo escasseia e onde a necessidade premente de uma notícia em primeira mão obriga a encurtar prazos, a não consultar fontes idóneas, a não se reverem textos, assim se contribuindo para incendiar a crise em vez de a debelar.

Tanto num caso como no outro existem boas e más excepções. É ainda comum encontrar textos de divulgação mal preparados, meras transcrições ou traduções de artigos não referenciados ou pouco credíveis, imagens a acompanhar textos que nada têm que ver com o tema em análise e artigos mal estruturados que não respondem aos aspectos básicos do tema que pretendem abordar. E, infelizmente, encontro destes exemplos em publicações reputadas das quais se esperam textos de elevada qualidade e, por isso mesmo, onde o risco do que é escrito ser aceite como verdade é muito significativo.

Inversamente, encontramos reportagens e textos preparados sobre pressão em momentos de crise, como a gripe das aves, a infecção pelo vírus Ébola ou o surto de Doença dos Legionários, para citar exemplos recentes, onde o rigor, a serenidade e a vontade de bem informar foram capazes de prevalecer.

Perante tudo isto, coloca-se a questão do “jornalismo de saúde”, entendido por alguns como um ramo do jornalismo onde a especialização deveria ser a regra e não a excepção, dada a complexidade das matérias, a sua constante evolução e o grau de responsabilidade exigido a quem escreve e publica sobre esse tema. Esta questão não é nova e recordo-me dela há cerca de 20 anos, quando as notícias sobre a infecção pelo vírus da Imunodeficiência Humana (VIH) eram recorrentes e, em muitos casos, de escassa qualidade, gerando equívocos e receios infundados e perpetuando os mitos que era suposto derrubarem. Tive a oportunidade de participar em algumas sessões de formação para jornalistas mas penso que se tratou de uma iniciativa que, por razões diversas, não foi possível manter.

Independentemente de se debater se o jornalismo de saúde deve ser praticado apenas por profissionais devidamente formados e credenciados ou se pode ser exercido por jornalistas com uma formação mais “generalista”, considero que o cerne da questão, como sempre, é o bom senso, o estudo dos temas, a procura das fontes certas e a revisão rigorosa do produto final.

Uma boa informação sobre saúde deve conciliar o legítimo desejo do jornalista publicar artigos “sedutores” e apelativos com a sua obrigação deontológica de preservar a verdade científica e de servir com qualidade as populações-alvo.

O jornalismo, no meu entender, tem essa vertente missionária que lhe permite chegar mais longe e tem o enorme poder de ser lido por todos sem reservas ou desconfianças. Esse poder implica necessariamente uma enorme responsabilidade. No caso da saúde, essa responsabilidade é ainda maior.

Um mau jornalismo de saúde pode reverter o trabalho feito pela comunidade científica, incentivando comportamentos de risco, distorcendo resultados de estudos publicados, anulando ou minimizando recomendações medicamente validadas ou criando mitos e acirrando estigmas e preconceitos. E os custos desse mau jornalismo são, em muitos casos, irreparáveis…

Um diálogo regular entre jornalistas e cientistas será sempre o melhor caminho para se produzir informação de qualidade. Nem todos os médicos são bons comunicadores e nem todos os jornalistas têm apetência para este tema mas é, seguramente, possível conciliar estes dois universos, gerando sinergias de que todos beneficiam: os jornalistas, por poderem produzir informação relevante e de qualidade; os médicos, por poderem transmitir as suas mensagens às populações e, sobretudo, estas que passam a dispor de ferramentas ímpares para conhecerem e evitarem a doença e cuidarem melhor da sua saúde.

Nos tempos modernos, em que a comunicação é global, universal e barata, não existem justificações para se prestar má informação sobre saúde. A enorme liberdade que as sociedades democráticas conferem aos meios de comunicação social tem, como sempre, o reverso da responsabilidade. Uma não existe sem a outra e, sabendo conciliá-las, teremos sociedades mais informadas, mais livres e… mais saudáveis.

A mudança necessária
Editorial | Jornal Médico
A mudança necessária

Os últimos meses foram vividos por todos nós num contexto absolutamente anormal e inusitado.

Atravessamos tempos difíceis, onde a nossa resistência é colocada à prova em cada dia, realidade que é ainda mais vincada no caso dos médicos e restantes profissionais de saúde. Neste âmbito, os médicos de família merecem certamente uma palavra de especial apreço e reconhecimento, dado o papel absolutamente preponderante que têm vindo a desempenhar no combate à pandemia Covid-19: a esmagadora maioria dos doentes e casos suspeitos está connosco e é seguida por nós.

Mais lidas