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José Agostinho dos Santos: a ruralidade e as angústias partilhadas
DATA
05/01/2015 19:00:54
AUTOR
Jornal Médico
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José Agostinho dos Santos: a ruralidade e as angústias partilhadas

[caption id="attachment_6766" align="alignnone" width="300"]joseagostinhodossantos José Agostinho Santos - Lavra, USF Dunas, ULS - Matosinhos[/caption]

Há umas semanas, foi-me pedido na Unidade em que trabalho para registar em papel algumas das reflexões que têm emergido entre os profissionais que aqui trabalham. São somente reflexões que retêm algumas inquietações reveladas em conversas de almoço e de corredor. Esse pedido visava a partilha mais fluída dessas mesmas ideias e questões (que nos assolam diariamente) numa reunião com equipas de trabalho de outras Unidades do ACES de Matosinhos. Do texto pedido resultaram os parágrafos que abaixo seguem. E do texto partilhado resultou um pedido de partilha mais alargada. Foi-me sugerido que esse meio fosse o Jornal Médico. Pois assim será.

A vila de Lavra fica neste recanto do concelho de Matosinhos, escondida entre o verde dos campos e o mar. Há quem lhe chame um “tesouro escondido” pela pacatez do esvoaçar das gaivotas, pela sua proximidade da cidade e pela sua orgulhosa bandeira rural que se estende sobre as pessoas que aqui habitam. Estas são as gentes que mantêm hábitos e costumes locais, perpetuando uma ruralidade tão simples quão admirável.

A ruralidade tem aspectos positivos e negativos, como tudo na vida. Porém, mesmo que esqueçamos os aspectos negativos desta ruralidade, são estes mesmos aspectos positivos que têm vindo a atraiçoar as pessoas que aqui vivem e que são, grosso modo, as pessoas que nos procuram.

A ruralidade traz maior proximidade social, maior conhecimento mútuo e maior entreajuda interpares. Favorece as ligações familiares, a sua manutenção e a efectividade da ligação emocional e sentimental entre os que são parentes. Daí que a rede social em Lavra seja particularmente notória: existem recursos criados pelo poder local para apoio social, subsistem relações familiares a curta distância e permanecem os laços afectivos que transformam os filhos em cuidadores-natos dos seus pais dependentes.

Porém, debaixo deste tumulto económico em que o país mergulha, Lavra assiste também, por força da sua ruralidade e nas suas fortes teias sociofamiliares, à transformação dos avós em novos pais e, feliz ou infelizmente, à transformação dos pais nos filhos que retornam a casa. É que a denominada crise levou a vila a recorrer a soluções de crise: os filhos ficam desempregados e voltam para casa dos pais enquanto outros filhos partem por esse mundo fora e são os netos que entram em casa dos avós. São os avós que enxaguam as lágrimas dos seus filhos e que, ao mesmo tempo, alimentam os seus netos. E por força dessas soluções de crise, estes avós enxaguam as suas próprias lágrimas, alimentando-se do que resta.

Este é o lado bom da ruralidade: as pessoas permanecem aqui, lado a lado… Lutando pelo bem-estar daqueles que gostam e cuidando daqueles que outrora já cuidaram. O lado bom da ruralidade é este: existirem soluções de crise! Não há miséria nem fome… Mas há falta de dinheiro. Não falha o essencial, mas falta o básico. É precisamente neste ponto que se sente que o lado bom da ruralidade, apesar de imensamente belo, gira que nem uma porta rolante cristalina que de surpresa nos embate na cara sem que demos conta, fazendo quiçá que alguns julguem que é pecado pensar que “se eu vivesse longe ou fosse distante, não sofria tanto!”. Tal será verdade sobretudo para aqueles que, no último terço do seu tempo de vida, vivenciam angústias passadas, desdobram-se em papéis familiares, esvaziam os seus rendimentos, multiplicam as suas ansiedades e inquietações, absorvem os pensamentos dos seus entes queridos… Atirando-se para as “contas à vida”… Despojando-se dos seus autocuidados. São os pacientes que abdicam das suas terapêuticas crónicas, que faltam às consultas de que tanto precisam e que se desmotivam para mudar o que há de incerto no seu corpo. Isto porque, cuidar dos seus permanece como a prioridade dos seus dias.

Estas são, portanto, as angústias que eles partilham connosco... Denotamos, diariamente, a deterioração do autocuidado em consultas, analisamos os rostos tristes que se sentam à nossa frente e ouvimos o pingar das lágrimas sobre a mesa do gabinete. São os doentes cardiovasculares que estão ainda mais doentes e os utentes não-doentes que se transformam em doentes. Não há poder para comprar, muito menos para cumprir. Os cumpridores são cada vez menos e os não-cumpridores cada vez mais.

Mas… A nossa prática clínica é como um filme, que é bem mais do que um conjunto de indicadores fotográficos. Daí que se elevam estas questões tão simples de formular e tão complexas de responder: como negociar prioridades com estes pacientes em consulta? Estaremos a dar demasiado crédito a uma vertente física da sua saúde (diabetes, hipertensão, rastreios…) e a escapar-nos o cuidar do cerne que comanda tudo o resto (isto é, a vertente psicossocial)?

Estaremos preparados para lidar com a pobreza?

Estarão as metas de contratualização desajustadas da realidade económica actual?

Estarão o número de consultas, o tempo de consulta e o número de utentes por lista enquadrados nesta realidade socioeconómica?

E a mais importante de todas as questões: não será agora a altura para nós, profissionais de saúde, resgatarmos a relação médico-paciente e/ou relação enfermeiro-paciente como a principal ferramenta para auxílio a estas pessoas?

Não será uma relação médico-paciente/enfermeiro-paciente mais forte e mais vigorosa a nossa solução de crise para a actual situação?

Eis as questões! Bom trabalho e bem hajam!

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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