Jornal Médico Grande Público

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DATA
21/01/2015 18:00:13
AUTOR
Luís Gouveia Andrade - Médico Oftalmologista no Hospital CUF Infante Santo
ETIQUETAS

Médicos e enfermeiros - quando 1 + 1 é maior do que dois

Não querendo colocar de lado outros profissionais envolvidos no tratamento dos doentes em ambiente hospitalar, penso ser consensual que os dois grupos que mais interagem com os pacientes e entre si são os médicos e os enfermeiros.

A relação entre estes dois grupos tem sofrido evoluções ao longo do tempo mas pauta-se ainda por desequilíbrios diversos, com origens diversas, que geram uma percepção enviesada das competências de cada um e, por consequência, afectam toda a cascata de comunicação. Quem é o principal prejudicado neste processo? O doente.

Pessoalmente, nunca consegui compreender as dificuldades de relacionamento entre profissionais que exercem a sua função na saúde, que têm como missão central proporcionar bem-estar aos doentes e que se complementam na perfeição no exercício das suas actividades diárias.

Por um lado, vejo os médicos a encararem os enfermeiros como seus subordinados, a quem não devem explicações, exigindo somente a execução de gestos de enfermagem de uma forma acrítica e não modulada por critérios clínicos. Por outro lado, vejo na Enfermagem um sentimento de frustração e de revolta face aos médicos, por considerarem que estes dedicam menos tempo aos doentes, que não os envolvem nas decisões terapêuticas e por se sentirem menosprezados por eles. E pior do que isso, este clima de conflito é estimulado desde a Faculdade, onde os alunos são logo formatados para verem nos outros grupos não parceiros mas “seres” diferentes de quem se deve desconfiar…

As actividades exercidas por médicos e por enfermeiros são, obviamente, distintas mas são absolutamente complementares. Os gestos que cada um executa e o modo como são executados são centrais para o sucesso terapêutico. Essa complementaridade está bem patente nos blocos operatórios, nos cuidados intensivos e estende-se aos cuidados prestados em regime de internamento e nos cuidados ambulatórios.

A forma como médicos e enfermeiros encaram cada paciente é diferente e é nessa diferença que está toda a sua riqueza. O percurso académico e o programa curricular dos cursos de Medicina e Enfermagem preparam cada profissional de modo distinto, com objectivos bem definidos e, numa segunda fase, cada médico e enfermeiro tenderá a seguir o seu caminho em direcção a uma determinada especificidade ou especialização. Mas, inevitavelmente, esses caminhos ir-se-ão sempre cruzar porque é suposto que tal aconteça.

A moderna Medicina é complexa, exigente e multidisciplinar. Numa unidade hospitalar, cada doente é sujeito a diversos procedimentos diagnósticos, terapêuticos e outros e com ele interagem médicos, enfermeiros, auxiliares, administrativos, etc. Estando, por definição, numa situação de debilidade física e psicológica, todo este ambiente gera ansiedade e é essencial que o afecto esteja sempre presente, de modo a que o paciente se sinta acompanhado, se sinta acarinhado e, sobretudo, que consiga captar que é verdadeiramente importante para as pessoas que o rodeiam. A transmissão desse calor humano deveria ser, deve ser, da responsabilidade de todos os que estabelecem contacto com os pacientes e uma adequada e contínua formação é central para que esse elemento nunca seja descurado. Mas, pela maior frequência de contacto, é aos médicos e enfermeiros que cabe a maior “fatia” nessa corrente afectiva.

A ausência de uma eficiente cooperação entre estes dois grupos implica má comunicação, aumento do risco de erro e um ambiente global de desconforto que é facilmente captado pelos doentes, aumentando a sua ansiedade, diminuindo a sua confiança nas equipas e prejudicando a sua recuperação.

Os meios para se conseguir uma saudável colaboração entre enfermeiros e médicos são múltiplos: a participação conjunta em reuniões clínicas, a discussão em comum dos processos clínicos dos doentes, a manutenção de fichas clínicas devidamente preenchidas e organizadas por ambos e uma regular comunicação entre ambos. Numa sociedade tão tecnológica como a nossa, em que o e-mail e o telemóvel encurtam distâncias, não existem razões válidas para que enfermeiros e médicos não estejam reciprocamente acessíveis e disponíveis em tempo útil.

É igualmente importante que as respectivas competências sejam respeitadas e que cada um saiba qual o seu papel na prestação de cuidados de saúde. Contudo, essa compartimentação de funções não deve ser estanque e o espírito de entreajuda e de bom senso deve imperar. O tratamento de um paciente deve obedecer a protocolos criteriosos mas não é um processo linear e, face a eventos imprevistos, importa agir e dar a devida conta do que foi feito.

A comunicação em saúde assume um papel preponderante e, quando ela falha, os riscos que se correm são elevadíssimos. O número de mortes em ambiente hospitalar relacionadas com falhas de comunicação tem sido alvo de inúmeros relatórios e é significativo. E mais do que isso, são mortes facilmente evitáveis.

Provavelmente, o aspecto mais importante no que se refere à criação de um bom ambiente de colaboração entre médicos e enfermeiros passa apenas pelo respeito mútuo, pela saudável convivência entre todos, pela clara definição dos papéis e competências de cada membro da equipa, pela existência de uma liderança inequívoca, pela capacidade de assumir erros e definir estratégias para que não se repitam e, como referi, por uma comunicação constante, clara e eficaz.

Sendo verdade que nenhum homem é uma ilha, essa afirmação adquire uma maior dimensão quando se fala em saúde e doença. Perante uma pessoa doente, existem orientações gerais de carácter técnico e científico mas não existem verdades absolutas e cada ser humano requer uma aproximação diferenciada.

Enfermeiros e médicos, trabalhando em conjunto, respeitando o seu espaço, respeitando-se entre si e comunicando abertamente, serão capazes de oferecer aos seus doentes uma abordagem verdadeiramente holística, onde cabe o tratamento da doença, o conforto afectivo e o respeito que lhes é devido.

Para um doente pode ser tão importante a eficácia de um medicamento ou de uma intervenção cirúrgica como é uma palavra amiga, um gesto de carinho, alguns minutos de atenção. Enfermeiros e médicos podem e devem conjugar todo o seu saber técnico e o seu humanismo para proporcionarem aos pacientes tudo o que eles precisam e merecem.

Se o fizerem em conjunto, em equipa, num espírito de sã cooperação, os resultados serão excelentes e, seguramente, muito superiores aos obtidos individualmente.

A união faz a força: eis um chavão que aqui adquire a sua máxima verdade…

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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