Jornal Médico Grande Público

Imagem 720*435
DATA
23/02/2015 14:00:03
AUTOR
Luís Gouveia Andrade - Médico Oftalmologista no Hospital CUF Infante Santo
ETIQUETAS

Actualização em Saúde - tanta informação, tão pouco tempo…

É um dado adquirido que as ciências, em geral, e as ligadas à Saúde, em particular, têm sofrido avanços notáveis e vertiginosos, fruto das revoluções tecnológicas, dos recursos afectos à investigação científica e de um maior empenho das comunidades na resolução das doenças que atingem as populações.

O cenário actual é radicalmente diferente daquele que se poderia observar há escassas décadas atrás e, hoje em dia, muitas doenças passaram a ter cura, outras que eram fatais passaram a crónicas, os tratamentos são mais bem tolerados, mais eficazes e menos susceptíveis de eventos secundários e, com tudo isto, a esperança de vida foi aumentando, trazendo consigo novas doenças que requerem novas abordagens, numa espiral que se vai perpetuando e que empurra as despesas com a saúde para valores astronómicos, nem sempre comportáveis e de gestão tremendamente difícil e delicada.

Toda esta revolução gera informação com implicação no tratamento dos doentes e os protocolos terapêuticos têm de ser capazes de acompanhar as mudanças que vão ocorrendo de modo a poderem garantir a melhor Medicina a todos os que dela necessitam.

No momento presente, a velocidade a que o conhecimento evolui é de tal modo rápida que muito do que um médico, enfermeiro, farmacêutico ou outro profissional aprende durante a sua licenciatura deixa de ser verdade quando essa licenciatura está concluída.

Naturalmente, existe um corpo de conhecimento básico que é relativamente imutável e é sobre esse corpo que a ciência se constrói, mas tudo o resto é regularmente posto em causa, perante o acumular de novos dados, novos estudos, novas investigações.

Uma forma eloquente de ilustrar este conceito é observar o que se passa nas bases de dados disponíveis na internet. A Base do Instituto Nacional de Saúde norte-americano, a Pubmed, é uma das mais conceituadas e, por isso mesmo, das mais consultadas por profissionais de saúde de todo o mundo, englobando mais de 24 milhões de citações referentes a artigos publicados cuja temática incide nas Ciências da Vida.

Recorrendo a um exemplo nacional, o interessante projecto de Coimbra, Índex RMP, reúne actualmente mais de 39.500 artigos publicados em cerca de 170 revistas médicas portuguesas.

E mesmo estas duas bases deixam de fora muita informação publicada por instituições particulares ou privadas e por autores individuais. Junte-se a isto os livros editados e os Congressos e Reuniões Científicas e começamos a ficar com uma noção da vastidão da informação hoje disponível sobre saúde.

Independentemente da sua qualidade e pertinência, é legítimo aceitar que muitas das práticas actuais em saúde nem sempre incorporam a informação mais recente podendo daí resultar cuidados de qualidade inferior. Muito provavelmente, os pacientes, que também têm acesso a muita desta informação, questionam-se sobre o grau de actualização dos médicos a quem recorrem e essa dúvida pode gerar desequilíbrios na relação de confiança entre ambos.

O facto incontornável é que, face a este oceano de informação, é impossível a qualquer profissional abarcar tudo o que vai acontecendo nas suas áreas de competência. Significa isso que os profissionais de saúde estão a perder a capacidade de prestar os melhores serviços aos pacientes? Penso que não.

Os cuidados de saúde envolvem todo um conjunto de conhecimentos de natureza técnica e humana, de práticas que a experiência vai moldando e aperfeiçoando, de partilha de informação entre pares e, naturalmente, de leitura e estudo regulares.

O carácter subjectivo das ciências médicas determina que, para uma mesma doença, podem existir abordagens distintas e que, para doentes diferentes, o mesmo tratamento pode ter resultados muito díspares.

Como tal, um bom médico será aquele que souber observar e escutar os seus doentes e, com base no seu conhecimento e experiência, souber determinar qual o caminho a seguir. Um bom médico será, também, aquele que, perante a dúvida, vai estudar antes de tratar ou que tem a humildade para reconhecer que existem colegas mais aptos a tratar um determinado paciente.

É assim, partindo de uma base sólida de conhecimentos teóricos, de um genuíno amor à profissão e de uma constante capacidade de autocrítica, que se constrói um bom médico.

As ferramentas de actualização virtuais são fantásticas pois permitem encontrar rapidamente algo que nos escapa ou que esquecemos. Mas não podemos “mergulhar nelas a pique”, sob risco de não conseguirmos delas sair. É que elas não têm fim…

O exercício de uma Medicina séria, eficaz e de qualidade passará sempre pela atenção dedicada aos doentes, pelo contacto interpares e pelo estudo, sempre que julgado adequado.

Os Congressos, os livros, as revistas científicas completam a formação médica, que se quer contínua, mas, por razões de bom senso, devem ser devidamente compartimentados no tempo e no espaço.

Pensemos como pacientes: preferimos um médico que seja um “rato de biblioteca” e que passe as horas a ler e a estudar ou um que se interesse por nós, que nos avalie com tempo e dedicação e que use o melhor de si mesmo para nos tratar?...

Os tempos modernos colocam-nos novos desafios, a todos os níveis. São tempos de exigência, de descoberta e de progresso. A Medicina tem beneficiado desse progresso mas importa perceber que é incomportável assimilar toda essa revolução científica e colocá-la de imediato ao dispor das populações. Interessa, primeiro, validar a informação, certificar a sua idoneidade e, depois, importa reconhecer que ela não é igualmente válida em todas as situações. Por outro lado, um novo procedimento ou tratamento não anula, por decreto, os anteriores, podendo e devendo todos coexistir até que se conclua que as vantagens das novas opções são estatisticamente significativas.

Como em tudo na vida, existem modas e tendências mas a Medicina deve saber resistir-lhes. Nem sempre o mais recente é o melhor e os testes do tempo e da experiência são decisivos.

Tudo isto sem falar dos custos associados aos novos tratamentos, que, cada vez mais, devem ser colocados num contexto de acesso global aos cuidados de saúde.

É inequívoco que exercer funções na saúde implica uma actualização regular. Essa actualização exerce-se de diversas formas e não exige, porque não o pode fazer, a leitura de toda a informação disponível. Exige, sim, bom senso, humildade, trabalho de equipa e muita dedicação. É assim que se criam profissionais de excelência. E é assim que a Moderna Medicina pode oferecer o melhor de si mesma a todos os que requerem os seus serviços.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

news events box

Mais lidas