Jornal Médico Grande Público

Rui Cernadas: depressão e suicídio
DATA
24/02/2015 12:28:01
AUTOR
Jornal Médico
ETIQUETAS

Rui Cernadas: depressão e suicídio

[caption id="attachment_11851" align="alignnone" width="300"]CernadasRui1 Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

A gravidade dos temas depressão e suicídio justificariam, em qualquer situação ou momento, alguns minutos de reflexão e de atenção neste jornal.

Depois de se ter discutido ou aludido à eventual correlação entre o aparente aumento do diagnóstico de depressão e a crise social e financeira que os países do sul da Europa têm vivido, os casos trágicos relatados, por exemplo, em França, com trabalhadores da “França Telecom” para os quais o suicídio terá surgido como única saída no confronto com uma dispensa forçada, o assunto ganhou importância acrescida.

Ganhou importância porque os meios de comunicação social “agarraram” o drama que estes casos traduzem que ganhou ainda mais visibilidade com um conjunto de estudos e análises, de caso e de casuística, os quais vieram, naturalmente e como sempre na investigação, trazer algumas respostas e levantar novos problemas.

As pessoas, os indivíduos são, antes de mais, seres vivos, todos iguais e todos diferentes, sendo que o modo como reagem à pressão e ao stress, ou aos problemas e vicissitudes da vida – emprego, finanças, dependências, trabalho ou família – pode assumir respostas diferenciadas.

Por exemplo, o desemprego – no caso francês recordado – sobretudo em circunstâncias que coloquem o indivíduo “contra a parede” e no sentido em que resulte duma espécie de maquiavélica selecção e não no contexto dum procedimento global e inevitavelmente generalizado é deveras demolidor em termos psicológicos.

Como o divórcio ou o luto, de um filho em particular, pode representar uma situação extraordinariamente relevante para o equilíbrio e estabilidade psíquicas.

É por isso tudo que, numa visão holística da Medicina, o papel e função dos cuidados de saúde primários se torna cada vez mais inquestionável.

Não é nosso propósito obviamente uma abordagem científica nesta altura.

Tendo ainda assim presente a conveniência de sermos claros quando falamos em saúde mental ou em psiquiatria, uma vez que defendo a distinção entre essas duas áreas… E sem escamotear a necessidade de alargar e complementar as respostas clínicas e integradas dos cuidados primários com outros profissionais, nomeadamente no âmbito das unidades de recursos assistenciais partilhados (URAP).

Há ainda que pensar com alguma racionalidade no modo como em Portugal estamos a usar os medicamentos antidepressivos… Não tanto pelo facto de podermos estar a recorrer excessivamente à medicalização dos sintomas ou da tradução sintomática, ou até mesmo por força de um incremento da prescrição de fármacos anti-depressivos e/ou sedativos ou hipnóticos.

Na verdade, há sinais de que se poderá estar a verificar por toda a Europa e Estados Unidos, uma evolução do aumento da tendência de utilização dos anti-depressivos em pessoas mais jovens, abaixo dos 25 anos de idade.

Ora o que se sabe é que o risco de suicídio parece estar associado ao consumo de medicamentos antidepressivos, em especial, antes dos 25 anos. Este efeito, documentado e publicado, será mais susceptível entre os doentes medicados com os inibidores selectivos da recaptação de serotonina.

Poderíamos igualmente lembrar que os efeitos iatrogénicos das terapêuticas e sobretudo em quadros de polimedicação ou de comorbilidades constituem uma causa significativa de internamento hospitalar em toda a Europa.

Enfim, estamos a começar ainda um novo ano e num período sazonal em que a depressão adquire maior expressão.

É pois tempo de deixar este pequeno alerta.

Com votos de boa saúde.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

news events box

Mais lidas