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José Agostinho dos Santos: um suposto “dia nacional do registo clínico”
DATA
18/03/2015 12:00:50
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José Agostinho dos Santos: um suposto “dia nacional do registo clínico”

[caption id="attachment_12142" align="alignnone" width="300"]Jose_Agostinho_Santos José Agostinho Santos – USF Dunas, Lavra, ULS – Matosinhos – Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

É segunda-feira, véspera de Carnaval. O Inverno já vai longo, os dias de chuva continuam e os raios de luz ainda se recolhem precocemente, pelas 18 horas. Parece que nem a alegria do Carnaval varre os nossos corpos arrasados por esta maratona anti-gripe dominada pela proliferação de consultas urgentes, pelas horas extraordinárias, pelo choro das crianças, pelas tosses projectadas até metros, pelo frio e quente, pelo somar de gente e gente...

Aqui, neste recanto chamado gabinete, ocupado por mim, pelo computador, pela mesa, com uma ou outra caneta e com um estetoscópio deixado ao acaso junto do esfingmomanómetro, fazem-se ou completam-se os registos clínicos que ficaram por fazer após a saída dos pacientes. Fico a sós, entregue a uma escrita pálida, sem sabor, mirando o monitor com olhos de carneiro mal morto, clicando e fechando programas do SAM... Nada de fascinante nesta actividade. Apesar de importante, a elaboração dos registos clínicos parece-me tão descorada como o céu desta estação do ano e tão pouco apelativa como o acordar na madrugada escura e fria. Lá de fora ouvem-se gargalhadas das crianças mascaradas e os assobios de instrumentos carnavalescos, a contrastar com a solenidade do "recorre por dispneia e tosse produtiva desde há cinco dias" ou do "apresenta quadro de lombalgias intensas de padrão mecânico associada a rigidez". Antes de chamar o próximo paciente, leio os meus registos e os dos colegas. Todos no mesmo tom profundamente ligado à conhecida linguagem médica. Com sono, dou por mim a fechar os olhos e a sonhar com um café bem forte... O dia termina e eis que, no regresso a casa, me surge uma ideia delirante!

Sei bem que a nossa linguagem médica é nobre, mas, neste dia em particular é tão nobre quão... Entediante! Só por um dia – e só apenas por um dia – havia de nos ser permitido "quebrar o protocolo" e fazer os registos numa linguagem bem mais coloquial, valorizando toda a sabedoria popular e homenageando as formas de expressão mais populares. Por muito pouco ortodoxo que tal fosse, certamente que alegrava os nossos dias! Era deitar abaixo o "vem por tosse produtiva intensa" e pôr "vem por estar tão atacado que rebenta o peito todo", era substituir "lombalgias de padrão mecânico com intensa rigidez" por "uma dor que se apanha nos rins que lhe prende isto tudo" e era escrever somente "foi operado às vistas por estarem cheinhas de cataratas"...

Certamente que os nossos dias seriam bem mais sorridentes se pudéssemos ler dos nossos colegas registos como "apanhou uma gripe de caixão à cova em Dezembro/2014" em vez de "síndrome respiratória aguda em Dezembro/2014" ou "caiu redonda para trás" em vez de "teve lipotimia". As expressões como "diabetes com descontrolo glicémico" ou "asma descontrolada" podiam ser abafadas, apenas por um dia, pelos "muito diabética" e "carregadinha de bronquite". Já as agudizações da perturbação ansiosa seriam as "aflições no peito" e as cefaleias de tensão seriam as "guinadas na cabeça". Oh! Como seria bom se por um dia pudéssemos escrever, nos nossos registos, as palavras de quem nos entra no gabinete, tomando de forma consciente e respeitosa a diversidade e riqueza da linguagem popular e sem haver qualquer tradução para linguagem médica nem o recurso ao “sic”. Simples e transparente! Seria como um dia especial do ano, um suposto dia nacional do registo clínico. E à semelhança de "É carnaval! Ninguém leva a mal!" surgiria a expressão similar "É dia do registo! Não há mais simples que isto!"

Mas...É segunda-feira de carnaval e certamente alguém leva a mal se não formos estes tradutores responsáveis em frente a um computador e se não voltarmos à padronização no seio da nossa linguagem médica. Acaba assim este meu delírio e volta-se à rotina.

Assim é a vida! Bom trabalho!

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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