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António Branco: USF – 10 anos de reforma – 1
DATA
06/04/2015 18:45:58
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Jornal Médico
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António Branco: USF – 10 anos de reforma – 1

[caption id="attachment_13292" align="alignnone" width="300"]AntonioBranco António Branco - Médico de Família - USF Santa Maria – Tomar[/caption]

No próximo mês de Junho fará 10 anos que foi publicado o primeiro documento que viria a dar conteúdo à Reforma dos Cuidados de Saúde Primários (do Grupo Técnico para a Reforma dos Cuidados de Saúde Primários, nomeado pelo ministro Correia de Campos).

Passada uma década, são óbvios os sucessos desta “operação”; também estão à vista as derivas que resultaram de uma errática condução de uma operação complexa – passados poucos anos do seu arranque a “reforma” foi “correndo” ao sabor do vento, de palpites soltos até à sua total captura por várias tribos de políticos, burocratas e infomaníacos (e talvez, também, de vendedores de “traquitanas informáticas”), a ideia original está desfigurada, em grande medida por iniciativas que foram colocando, no que às USF diz respeito, mais de 600 “medidores”, “indicadores”, organizados em clusters e percentis. E porque os médicos não reagiram, acrescente-se.

A REFORMA dos Cuidados de Saúde Primários tem notórias falhas e necessita de ser revista. Há informação (mesmo com imprecisões) suficiente para que tal suceda – é preciso usar o neurónio, é certo, mas às vezes tem de ser…

Cada vez mais, a nossa actividade, nas USF e UCSP, é escrutinada por meios não transparentes (e exageradamente trabalhosos) que medem, essencialmente, a nossa capacidade para colocarmos os cliques no sítio certo do programa informático, para “cumprirmos” desígnios e metas que nem sempre estão ligadas a qualquer evidência científica de benefício para os doentes que em nós confiam, e que são, nalguns casos, IMPOSSÍVEIS de atingir.

Entretanto, seria interessante sabermos qual a atitude dos nossos pacientes se, tendo literacia para tal, compreendessem como é que a administração pública nos obriga a cumprir objectivos que ofendem, frequentemente, os seus interesses e expectativas, quando não colidem com a qualidade dos cuidados e a atenção que lhes dedicamos?

Se soubessem, com detalhe, o que é a eufemisticamente chamada “contratualização”, e da forma cada vez mais dura, de “regras” mais arbitrárias, obscuras e autoritárias com que são “debatidas” as ORDENS e NORMAS. Em condições mais saudáveis, esta situação seria objecto de contestação. O que pensariam os cidadãos que em nós confiam se soubessem como somos pressionados, efectivamente, nos limites das prescrições (para ridículo, mesmo que estas não sejam concretizadas/facturadas ao Estado)? Nalguns casos, a fronteira do comportamento ético e deontológico correcto pode estar, aliás, perigosamente perto.

Como é possível que parte dos indicadores se baseie em fundamentos científicos fracos ou controversos?

Como é possível que as diligentes “conversações”, em especial dos sindicatos médicos, não consigam evitar que, em cada ronda, as situações tendam a ser mais gravosas – maior prioridade a aspectos periféricos do desempenho dos médicos e restantes profissionais?

Como é possível que seja consentido o martírio (sem sinais de alívio) de termos de lidar com experiências tecnológicas em que a “experimentação” é feita em todo o universo, sem cuidar de corrigir as falhas antes da generalização (de modernos aplicativos e moderníssimas plataformas) em que os ratos de laboratório somos nós e os nossos doentes e em que também é possível antecipar as nossas garantidas “culpas” nos plausíveis falhanços?

Era interessante revisitarmos a IDEIA da reforma dos Cuidados de Saúde Primários – é altura de identificar os seus pontos fortes e fracos e tirar daí ilações. Este modelo de 1ª divisão (USF modelo B), 2ª divisão (USF modelo A) e clubes de bairro “solteiros casados” (UCSP) faz algum sentido?

Numa altura em que parece não haver ninguém “ao leme” desta nau, somos confrontados, ano após ano, com inovações que cada vez mais se afastam dos conceitos e pressupostos iniciais, e nos afastam dos nossos pacientes. As equipas são pressionadas “a correr atrás” dos “indicadores”, na forma de colocar a “marcas” nos sítios “onde contam”, com os profissionais dos CSP a terem de gastar energias preciosas com as exigências das ferramentas informáticas. Em vez de ser a informática a servir os objectivos do trabalho dos técnicos, somos nós que temos de OBEDECER aos seus ditames...

O estilo de “prepotência iluminada”, baseada na autoridade, com que somos brindados, não era preconizado quando iniciámos esta trajectória. Decorrida uma década, muitos desistiram de intervir, alguns parecem ter “cavalgado” a onda em proveito próprio, outros, por juventude ou inércia, não conhecem o histórico que aqui nos conduziu e conformam-se, outros ainda tentam, afanosa e ordeiramente, fazer as “tarefas” bem feitinhas.

Sendo certo que acompanhei e intervim, pessoal, directa, activa e intensamente, lanço-vos o desafio de relançar o debate, com a ajuda de vários documentos de época.

Como declaração de interesse só tenho esta: não estou disponível para debater as formas de conseguir recitar, de cor, quais salmos ou versículos, os 10 ou 20 detalhes do Bilhete de Identidade de cada indicador que nos “mede”.

Neste primeiro desafio (que prometo/ameaço continuar) envio-vos um PRIMEIRO documento, de 1990 (há 25 anos!), onde uma associação de médicos de família (que tinha, na altura, sete anos e uma grande actividade e influência na evolução das políticas de saúde na área dos cuidados primários e da Medicina Geral e Familiar) lançou as bases do que se viria a revelar um programa de regime: o LIVRO AZUL. Mas há mais.

Prometo não voltar a maçar-vos com mais nenhum enquadramento – deixo-o a colegas mais inspirados ou com mais experiência nesse exercício. No entanto, ainda não estou rendido a deixar-me afogar na sopa de letras do excel, dos vídeo jogos, dos dashboards, que nos são induzidos a toda a hora. Não aceito que o meu tempo (o tempo dos meus doentes) continue a ser desbaratado para fazer contas e simulações para demonstrar seja o que for – neste domínio, exijo ser CLIENTE dos sistemas de informação, exijo que os SI nos forneçam os dados sem caprichosas e frequentes revisões de valores (porque o servidor “queimou”, porque a “migração” de dados parou a meio, porque foi preciso introduzir um novo conceito, ou porque alguém mandou mudar as regras de cálculo).

Consulte o Livro Azul aqui

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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