Miguel Julião: DIGNIficar, uma preciosa necessidade
DATA
06/05/2015 15:00:45
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Jornal Médico
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Miguel Julião: DIGNIficar, uma preciosa necessidade

[caption id="attachment_13831" align="alignnone" width="300"]Juliao Miguel Miguel Julião - Médico Paliativista; Doutorado em Medicina Paliativa pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa; Professor Auxiliar de Medicina Paliativa na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Falamos demasiadas vezes em dignidade. Defendêmo-la, ensinamo-la. Mas…

O conceito de dignidade constitui desde sempre um dos aspectos centrais na Medicina. Pensar o conceito moderno de dignidade – na sua vertente humana, social, de Saúde ou outra – constitui quase um imperativo da Medicina moderna, mais próxima de quem sofre, mais humanizada, mais atenta a essa pessoa inteira e única, muitas vezes fragmentada e só. Apesar do profundo enraizamento do conceito de dignidade na prática médica – uma concepção considerada como inerente a qualquer profissional de Saúde –, a verdade histórica e investigacional ensinou-nos que a dignidade era tão essencial e basilar à pessoa humana como ainda mais vazia e despida de conteúdo conceptual. Este meta-conceito tornou-se parte integrante do ser humano e das sociedades desde tempos recuados, integrando a sua vida, as suas vitórias e sofrimentos. Contudo, apesar de ser uma qualidade inalienável de cada um de nós, habitando cada pessoa e caracterizando-a como tal, era também desconceptualizada e estranha para a consciência individual e colectiva.

Nas últimas décadas, a investigação sobre dignidade – quer sociológica, filosófica ou médica – tem tentado estabelecer uma nova luz, uma visão mais clara e objectivável.

O conhecimento mais límpido sobre dignidade humana abre-nos um caminho para que possamos entender um pouco mais quem somos e como nos podemos ajudar.

Desde somente há cerca de 20 anos, se iniciou um trabalho sólido sobre a clarificação e concretização do conceito – muitas vezes vago e abusivamente utilizado – de dignidade em Medicina, especialmente através de trabalhos na área da Medicina Paliativa e dos doentes em fim de vida. A dignidade é, hoje, inteligível, concretizável, perceptível e alcançável. Perante uma Medicina tecnologicamente avançada como a nossa, a dignidade necessita, de facto, cada vez mais, de um lugar a ser lembrado, mais do que em textos académicos arrumados em prateleiras, na clínica diária de relação face-a-face. Ela é uma das importantes e necessárias pontes entre o refúgio tecnológico da Medicina e a pessoa vulnerável em sofrimento em qualquer fase da sua doença.

Penso que o grande objectivo da Medicina dos próximos tempos deva ser a da aproximação à pessoa – num retorno desejável ao ouvir humano sem obstáculos – partilhando e reforçando a dignidade, vivendo-a como se a cada profissional de Saúde tivesse sido dada a oportunidade de uma viagem – a da vida da pessoa doente – na qual pode participar. Essa Medicina de futuro – onde sempre caberão os imprescindíveis progressos técnicos –, será a Medicina da dignidade, a dos detalhes, da proximidade compassiva àqueles que sofrem. Essa Medicina será uma arte aperfeiçoada do reconhecimento do outro em vulnerabilidade.

No repto lançado por Chochinov (2013), o presente da Medicina actual deve dedicar-se a uma cultura do cuidar (to advance a culture of caring), onde a dignidade possa ser o guia da mudança da visão de cada um de nós relativa à pessoa fragilizada, onde cada um de nós possa ser motor da mudança, da transformação necessária do paradigma do patienthood para o personhood. A sua mensagem deve ser por nós plenamente acreditada: now is the time to take action. A acção (the action) é a de dignificação.

Após inúmeros estudos clínicos de qualidade acerca da dignidade em Medicina Paliativa, incluindo alguns portugueses, fica uma percepção profunda acerca de dignidade que nos deve tranquilizar como clínicos, investigadores e pessoas: definir dignidade tornou-se mais simples e a sua essência mais interpretável: ela é a importância de cada ser humano, valor intrínseco único de cada um, uma coerência interna de ser-se pessoa na relação consigo e os outros. Simplesmente. Na prática clínica, mesmo a mais duramente quotidiana, a dignidade deve ser the value, not a value, capaz de sobrevalorizar a personhood (relativo à pessoa, pessoalidade) sobre a tão usual e indignificante patienthood (relativo à condição estrita de ser doente, à doença).

No fim de vida, folheiam-se, até ao fim, as páginas do grande livro da existência (Serrão, 2009) e, nos momentos de fragilidade quepossam ser estes os de escrever as últimas linhas de um epílogo,a pessoa humana não deve estar só, deve ser acompanhada e adignidade servirá de apoio e abrigo nessa derradeira escalada detransposição.

A leitura da realidade de cada pessoa individual, fragilizada perante nós, é mais complexa do que alguma vez possamos imaginar. “Pensar dignidade” permite a descoberta de uma nova dimensão da pessoa em fim de vida, mais profunda, “rendilhada” e complexa, cheia de nuances tão particulares e únicas.

Escuto, agora, que um médico fica até ao fim e que, neste acompanhar, faz parte não da constelação da doença de cada pessoa, mas sim da constelação de cada pessoa. Tenho, hoje, um desejo de concretização futura: que se modifique a cada dia – na linguagem académica, científica e, sobretudo, na da prática clínica diária – a premissa “dignidade no morrer” para “dignidade em vida e até ao morrer”.

Dignidade, conceito central de ontem, de hoje para hoje, do futuro para o futuro. Vale a pena reflectir sobre isto.

 

A mudança necessária
Editorial | Jornal Médico
A mudança necessária

Os últimos meses foram vividos por todos nós num contexto absolutamente anormal e inusitado.

Atravessamos tempos difíceis, onde a nossa resistência é colocada à prova em cada dia, realidade que é ainda mais vincada no caso dos médicos e restantes profissionais de saúde. Neste âmbito, os médicos de família merecem certamente uma palavra de especial apreço e reconhecimento, dado o papel absolutamente preponderante que têm vindo a desempenhar no combate à pandemia Covid-19: a esmagadora maioria dos doentes e casos suspeitos está connosco e é seguida por nós.

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