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Rui Cernadas: é uma questão de tempo… Pouco!
DATA
20/05/2015 16:45:06
AUTOR
Jornal Médico
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Rui Cernadas: é uma questão de tempo… Pouco!

[caption id="attachment_11851" align="alignnone" width="300"]CernadasRui1 Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Sabe-se como a construção do SNS em Portugal se inspirou e embebeu no figurino inglês do NHS. É conhecido algum paralelismo e, lá e cá, reclamam-se algumas originalidades que, de facto, podem fazer grandes diferenças.

A verdade é que qualquer sistema, incluindo os públicos, carece de monitorização e de avaliação no tempo.

No NHS, por exemplo, discute-se hoje, mais do que o papel, a extensão da intervenção dos farmacêuticos, enquanto recursos qualificados e de proximidade, nos processos assistenciais em cuidados de saúde primários.

E a palavra essencial nessa ideia em desenvolvimento é confiança: confiança dos utentes na figura do farmacêutico, na sua acessibilidade e na identificação do discurso.

O plano, em síntese, é claro e radica no entendimento de que as farmácias, para além da vertente da comercialização, podem e devem ser autênticas unidades de saúde dispersas e com uma rede de cobertura nacional do território.

Ou seja, o trabalho aponta para a procura e definição de novos modelos para a farmácia e, se quiserem, de futuros modelos de dispensa de cuidados.

Partindo do princípio aceite de que a farmácia comunitária vai alterar o seu cenário de actuação – do medicamento para o doente e para os resultados em saúde – que a componente da sua intervenção implicaria… Vamos, portanto, e num prazo muito breve passar a ouvir falar da prestação da consulta farmacêutica.

Habituemo-nos.

Entretanto se é verdade que o paradigma da procura de cuidados se alterou, agora com uma crescente tendência do aumento das doenças crónicas e respectivas exacerbações ou complicações, em detrimento das situações agudas, é igualmente verdade que o envelhecimento populacional que se regista por toda a Europa Ocidental se associa a uma maior pressão sobre as necessidades e a despesa.

Porém diferentes doentes apresentam diferentes necessidades de saúde. E diferentes necessidades geram ou obrigam a diferentes carteiras de serviços.

Se os CSP não assimilarem este movimento, haverá maior espaço para a inovação fora deles e nas farmácias, nomeadamente.

Uma hipótese, por exemplo, seria a de se desenvolverem projectos de aplicação de protocolos específicos e de monitorização de parâmetros e/ou problema de saúde com estadiamento prévio dos utentes e acompanhamento farmacoterapêutico complementar pelas farmácias comunitárias.

Sempre numa intenção e perspectiva multidisciplinar e dinâmica, na qual efectivamente o doente seja mesmo o foco de atenção.

Os sistemas criam, normalmente, espaços não ocupados. No relacionamento longitudinal com as famílias e os utentes, há que suportar e transferir informação apropriada, em continuidade e integração de cuidados e, obviamente, respostas pontuais adequadas à gestão dos seus perfis, enquanto utentes e doentes. Respostas a questões como a adesão e o aconselhamento, a utilização dos cada vez mais variados “devices”, os efeitos adversos e as interacções medicamentosas, a polimedicação, os riscos da auto-medicação, os abandonos terapêuticos ou até a vigilância de parâmetros vitais ou biológicos, são caminhos que provavelmente se irão trilhar.

O acesso dos doentes à informação educativa e aos sistemas de informação em geral – plataforma dos dados em saúde (PDS) incluída – vai criar novas procuras e exigências.

Os médicos e os médicos de família em particular vão sofrer duramente essa pressão num contexto de oferta algo burocratizada, de índole nacional e universal, com constrangimentos relativos aos contratos programa, aos tempos de consulta e à organização de serviços.

As coisas mudaram depressa e mudam mesmo que achemos que não.

Sobretudo desde que a saúde passou a ser assumida como um bem de consumo, com enquadramentos idênticos aos de outras actividades, com livros de reclamações, com entidades reguladoras, agendas electrónicas e outras modernices que, afinal, não deram ainda pelo dever de contar com a individualidade de cada doente, com a compreensão de que cada doente não é apenas a sua doença!

Os farmacêuticos e as farmácias comunitárias, como os enfermeiros aliás já o são, poderão ser agentes relevantes na resposta global aos doentes dos serviços públicos e do SNS.

Vai ser inevitavelmente uma questão de tempo… Pouco!

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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