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DATA
02/06/2015 15:00:46
AUTOR
Acácio Gouveia
Duas notas rápidas

“Afirmamos que a magnificência do mundo enriqueceu-se de uma beleza nova: a beleza da velocidade.”
Marinetti

A mama

“Podemos pretender ser quanto queiramos; mas não é lícito fingir que somos o que não somos.”
Ortega y Gasset

O caso da prova de evidência de lactação provocou natural indignação. Mais não haveria a dizer se nos cingíssemos ao humilhante método escolhido para fazer prova, mas vale a pena aproveitar este pequeno incidente para discorrer sobre a inutilidade de certos atestados e a legitimidade de comprovar a veracidade da situação que justifica um direito.

Pôr em causa a legitimidade da verificação de um qualquer atestado é defender o direito à fraude, o que é inaceitável. Ora, um atestado identificando como amamentadora uma mãe que o não seja é uma fraude. É sabido que a Ordem dos Médicos (OM) tem vindo a sugerir que se incremente a verificação de atestados médicos de doença, com vista a combater a burla e consequente desprestígio da classe.

Portanto, salvaguardada a decência do método, é legítimo confirmar se a mãe está ou não a amamentar. Aliás, em boa verdade, na esmagadora maioria dos casos, o médico emissor desta declaração fá-lo baseado na boa-fé da requerente. Isto é, limita-se a “assinar de cruz” um documento cuja veracidade não pode afiançar.

A intervenção da OM neste caso ficou muito aquém do desejável: deveria ter reivindicado o fim dos atestados de lactação, que servem apenas para desprestigiar os emissores e consumir tempo; às utentes e aos médicos.

Há quem defenda o subterfúgio do falso atestado com a legítima preocupação em aumentar o tempo que a mãe dispõe para o seu “rebentinho”. Mas então voltamos ao mesmo: para que serve um documento que se assume como falso, mas justificável? Se assim é mude-se a lei e, uma vez mais, acabe-se com este atestado fantoche. Acabe-se com a “mama”.

Liga Portuguesa a Favor do Cancro

“Podeis enganar toda a gente durante um certo tempo; podeis mesmo enganar algumas pessoas todo o tempo; mas não vos será possível enganar sempre toda a gente.”
Abraham Lincoln

Temos aí uma legislação anémica, (sob pressão da UE) pretensamente antitabágica, a merecer reparos escandalizados duma oposição preocupada, não com a timidez das medidas anunciadas, mas com o ataque ao bom nome do tabaco. Estes partidos mostraram-se ofendidos com a exposição de imagens chocantes nos maços de cigarros, prática já comum em muitos países com governantes efectivamente mais preocupados com a saúde dos seus cidadãos do que com os lucros das tabaqueiras. Falam de bullying – espante-se!

Para a oposição a praga (se é que a consideram praga!) do tabagismo combate-se… com consultas. Não haverá entre os deputados médicos que expliquem aos colegas das respectivas bancadas que a prevenção primária é o caminho, sendo que a secundária, neste capítulo, é de uma eficiência paupérrima?

O problema para a oposição não é haver muitos fumadores: o mal está em haver poucas consultas, ainda que com escasso sucesso. Para estes partidos, os problemas de saúde resolvem-se derramando dinheiro sobre eles, mesmo que não se resolvam de todo. Efectividade é palavra vã.

Contudo, desengane-se quem vir no governo um guardião da saúde face à ofensiva tabagista. A liga pró cancro tem fervorosos adeptos na actual coligação governativa. Por exemplo: Paula Teixeira da Cruz, a tal senhora que quer pôr as farmácias a aviar charros. Pior: há mesmo quem diga que Portugal é a 5ª coluna das tabaqueiras dentro do fórum dos ministérios da saúde da UE (*).

É muito preocupante constatar quão alargada e poderosa é a aliança de apoiantes da indústria tabaqueira e até que ponto o lóbi está enraizado entre a classe política. Mais inquietante ainda é verificar que os mdicos dentroe os mainda na a ra e at\ao culares, pulmonaresédicos que militam em partidos políticos deixam as carteiras profissionais à porta, para se vergarem aos cânones e estratégias prescritas pelos respectivos directórios.

Que diabo: João Semedo, por exemplo, até é pneumologista e figura proeminente de um partido que não se submete a ortodoxias. Por que raio pactua, então, com os capitalistas da Big Tabacco? Muito falam os políticos nos governos e nas oposições em direito à Saúde, mas quando chega a hora de implementar políticas com real impacto nesse domínio, todos borregam face ao poder das tabaqueiras e outros lóbis anti saúde.

(*) http://video.consilium.europa.eu/webcast.aspx?ticket=775-979-13060

A mudança necessária
Editorial | Jornal Médico
A mudança necessária

Os últimos meses foram vividos por todos nós num contexto absolutamente anormal e inusitado.

Atravessamos tempos difíceis, onde a nossa resistência é colocada à prova em cada dia, realidade que é ainda mais vincada no caso dos médicos e restantes profissionais de saúde. Neste âmbito, os médicos de família merecem certamente uma palavra de especial apreço e reconhecimento, dado o papel absolutamente preponderante que têm vindo a desempenhar no combate à pandemia Covid-19: a esmagadora maioria dos doentes e casos suspeitos está connosco e é seguida por nós.

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