Jornal Médico Grande Público

José Agostinho Santos: nada de novo e uma nova lição
DATA
02/06/2015 18:45:51
AUTOR
Jornal Médico
ETIQUETAS

José Agostinho Santos: nada de novo e uma nova lição

[caption id="attachment_12142" align="alignnone" width="300"]Jose_Agostinho_Santos José Agostinho Santos - Médico de Família - Unidade de Saúde Familiar Dunas, ULS – Matosinhos - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

É dia 22 de Abril de 2015 e a sua manhã é vivida com o frenesim de que algo de novo está para acontecer! Não que seja, de todo, um evento tipo “fim de ano” (nem para lá caminha!), mas, dominados pelas nossas mentes fervorosas, somos arrastados pelo pensamento de que a nossa vida quotidiana, nesta simples unidade de saúde, irá mudar: o “Sclínico” chegou finalmente aos nossos computadores às 14 horas!

Levados pela amargura trazida pelas traições constantes do velho ex-companheiro SAM ao longo de 2013 e 2014, a chegada do “Sclínico” é tão esperada como o D. Sebastião num dia de neblina (só este facto já indiciava que algo ia correr mal: o D. Sebastião alguma vez chegou a aparecer? Não!…).

Naquela manhã, estávamos, portanto, a ser vítimas das nossas próprias mentes, ainda muito apegadas aos sistemas informáticos, manipuladas pela ideia externa de que a felicidade da actividade clínica se baseia nos registos informáticos e nos indicadores exemplares. Como se o pianista não conseguisse largar os dedos do seu piano.

Prontinhos para esquecer todas as horas (por dia!) de falhas do SAM, preparados para celebrar o enterro das horas-extras forçadas, entusiasmados pela promessa de que o sistema não daria mais nenhuma chapada na cara dos pacientes durante as consultas (tipo “Shhh! Cala-te!Isto não está a funcionar!”), a espera pelo “Sclinico” fez-se em contagem decrescente na mente de cada um de nós entre as 13 e as 14 horas desse dia. Ainda me lembro de estar a terminar uma última consulta e já o SAM estava off, levando-me a pensar, com uma lágrima no canto do olho (lágrima de alegria!): “esta foi a última consulta que fiz com o (des)apoio do SAM!”.

Após alguma hesitação, o “Sclínico” lá surgiu com capa bonita tal como um bonito papel de embrulho no ambiente de trabalho do computador! Vislumbrados mais pelas capas exteriores do que pelo interior (como é típico da nossa mente nesta sociedade ocidental), esboçamos um sorriso! Só que ao abrir emerge logo um primeiro comentário: “Eh pá… Isto está assim um bocado monocromático… Ou tenho que mexer nas definições de cores do meu computador?”. Até que alguém me informa que o layout do programa informático seria mesmo assim, pouco antes de eu me perder a tentar encontrar o ícone do registo dos MCDT na sequência de ícones do topo. Ainda demorei um bocado… Mas estava sempre a aprender: deu para entender o trabalho que têm os geneticistas para encontrar um gene numa sequência de leitura do DNA…

Enquanto me tentava salvar naquele lago informático, assim como um náufrago tenta desesperadamente levar a jangada até à margem, ouço do gabinete ao lado aquilo que não esperava ouvir durante meses a fio: “Olha, pronto! Já bloqueou o sistema!”. Os meus olhinhos ficaram baços, o meu queixo quase tremia… E seguramente houve algum lacrimejo! Basicamente, o bloqueio assim persistiu a tarde toda… E o dia seguinte.

Os dias passam e o nosso quotidiano clínico continua igual… Por exemplo, a abertura do programa de Saúde Infantil continua a dar-nos tempo para dar uma corrida de duas voltas à unidade de saúde. Nada de novo.

Bom, “nada de novo” também não diria. Talvez… Há sempre uma “nova lição” a retirar. É curioso como a nossa mente funciona: cria expectativas que aceleram e intensificam as nossas frustrações, transpondo os exemplos do passado para o presente, procurando viver um futuro que ainda não existe. Nestes momentos, não há presente. Daí que nada que nos surja seja vivido como “um presente”.

Assim é a vida! Bom trabalho!

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

news events box

Mais lidas