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Rui Cernadas: planear, errar, acreditar…
DATA
03/06/2015 17:01:31
AUTOR
Jornal Médico
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Rui Cernadas: planear, errar, acreditar…

[caption id="attachment_11851" align="alignnone" width="300"]CernadasRui1 Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Às vezes a razão tem argumentos que as razões ignoram.

Muito se tem falado da necessidade de planeamento na Saúde, no alargamento de horários de funcionamento nas unidades de saúde, no reforço dos quadros de profissionais da saúde e nos condicionalismos financeiros, como se de facto tudo na Saúde fosse planeável e controlável.

O mundo e a vida – de forma trágica e severa muitas vezes – mostram-nos continuamente como nada se consegue resolver de modo definitivo… À prova de falência ou falhanço.

Por uma única razão fundamental: o princípio da humanidade faz com que tudo seja individual, personalizado e imprevisível!

Aquilo que nós médicos dizemos, quando falamos de doentes e não de doenças…

Quem poderá garantir que se por hipótese o Senhor ministro da Saúde um dia decidisse oferecer a todos os utentes inscritos no SNS, mesmo que fosse somente aos que têm médico de família atribuído (que são já a esmagadora maioria dos portugueses), um “check-up” completo, do qual todos saíssem sem qualquer dúvida ou sombra de prognóstico, nenhum viesse a morrer no dia seguinte?

Os dogmas são sempre perigosos. E os cemitérios estão cheios de vivos na véspera.

Um deles é o da ideia de que enquanto a resposta dos cuidados de saúde primários não for a mais adequada e alargada, as urgências dos hospitais não estarão descongestionadas, sobretudo nos períodos mais difíceis, das gripes e infecções víricas sazonais.

O envelhecimento demográfico e a enormidade no contexto das patologias associadas acentuam um carácter de maior gravidade e perigosidade para os utentes do SNS, elevando, do lado da procura, a fasquia da diferenciação.

Foi por isso que, aliás, vimos no princípio deste ano como as triagens nos serviços de urgência se defrontaram com um aumento exponencial da proporção de doentes amarelos e laranjas, ou seja, exactamente dos que não podem nem devem ser orientados nos cuidados primários.

Outro dogma disparatado é o da alusão à falta de médicos no SNS.

Não no sentido mais lato, porque de facto faltam ainda médicos de família em algumas regiões ou concelhos.

Mas no sentido da justiça e do reconhecimento.

Repare-se que em termos de médicos de família, o país passou de 5.600 especialistas em 2012, para 5.900 em 2013 e mais de 6.000 em 2014 e em Abril deste ano, aproximar-se-à dos 6.300!

E quanto aos médicos hospitalares, em 2013 eram 20.600 e nesta altura são mais de 21.000!

Destes números, ressalta claramente uma flagrante verdade.

Uma tal desproporção entre profissionais médicos hospitalares e de família não torna impossível alterar o paradigma assistencial do SNS?

Como interpretar depois os resultados do lado da produção, isto é, cerca de 25 milhões de consultas ao ano dos centros de saúde contra 15 milhões dos hospitais, sendo que destas, um terço (mais de 5 milhões!) são urgências?

Não valerá a pena estimar os níveis de produtividade?

Não será legítimo compreender a razão desta procura invertida?

Não será tempo de calcular os verdadeiros ganhos em Saúde, ou não, que daí resultem?

Não será altura de dizer basta ao discurso demagógico, não sustentado e ridículo de que tudo está mal e o problema é economicista?

Quem quer planeamento da Saúde, quer mesmo?

Que autarquias, que partidos políticos, que universidades, que sindicatos, que ordens profissionais, que hospitais,  que institutos públicos, que comunicação social, que eleitorado quer mesmo discutir, avaliar, decidir e mudar?

Mas mudar mesmo, a sério, de forma coerente, integrada e monitorizada?

Já Edmund Burke escrevia que “é um erro popular muito comum acreditar que aqueles que fazem mais barulho a lamentarem-se a favor do público sejam os mais preocupados com o seu bem-estar”.

E apesar deste escritor genial irlandês ter morrido no final do século XVIII (julgo que em 1797), a verdade é que o mundo, as pessoas e os políticos não mudaram assim tanto desde então.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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