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Rui Cernadas: desculpem mas eu li! Cenas e cenários
DATA
23/06/2015 17:00:47
AUTOR
Jornal Médico
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Rui Cernadas: desculpem mas eu li! Cenas e cenários

[caption id="attachment_11851" align="alignnone" width="300"]CernadasRui1 Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

O envelhecimento é hoje abordado com frequência numa perspectiva demográfica, de evolução da pirâmide etária, que é assustadora no nosso país. E assustadora a muitos títulos.

Como disse alguém, sendo o envelhecimento uma “bênção” civilizacional… Acarreta consequências muito complexas em termos de encargos sociais e financeiros para o Estado.

Os desafios colocados pelo envelhecimento passam, desde logo, por um aumento exponencial das doenças crónicas, neurodegenerativas e cardiovasculares, reumatológicas e oncológicas, num cenário marcado, entre outros, pelas co-morbilidades e pela iatrogenia.

Mas o problema, “a cena” como dizem agora os mais jovens, é que a questão não é apenas nacional.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, dentro de 10 anos, isto é, já em 2025, o mundo terá mais idosos do que crianças!

O Brasil, por exemplo, tido como um país jovem e pese embora a sua extraordinária dimensão sociogeográfica, poderá por essa altura estar a braços com a realidade de ser o 5º ou 6º país do mundo com maior número de idosos…

Entre nós vamos lidando, por enquanto, com as principais patologias que, em termos de saúde pública – diria face ao peso epidemiológico – nos vão “encharcando” consultas, procuras, custos e recursos. São elas a diabetes, a hipertensão arterial, a doença pulmonar obstrutiva crónica, as demências ou a insuficiência cardíaca, que obrigam a uma atenção redobrada, num cenário que, garantidamente, cursa com complicações e gravidade variável mas inquestionável.

A integração de cuidados vai-se tornando mais exigente e premente, num enquadramento que deverá exigir uma outra atitude por parte da gestão dos serviços de saúde. Esta exigência significa que está na altura de começar a discutir e a reflectir, a sério e em definitivo, sobre os modelos que o país pode assegurar na gestão clínica destas doenças e dos seus milhões de doentes. Mais a mais sabendo-se que na maioria das situações coexistirão co-morbilidades…

Não basta ficar pelas intenções ou dizer-se que os médicos de família poderão e deverão ser os gestores do doente. Os cuidados paliativos vão ganhando contornos próprios, com novas indicações técnicas e oferta de cuidados.

A chamada inovação, para além da farmacológica, inclui a dos dispositivos e equipamentos, cada vez mais sofisticados e deve suscitar novas discussões, incluindo a do reaproveitamento (reutilização) desse material.

O diagnóstico deve ser preciso e o mais precoce possível, quer porque o atraso na sua instituição, como por exemplo no caso da diabetes, pode representar prejuízo para o doente com o avanço preocupante da patologia e do seu não controlo, quer porque pode consubstanciar uma subestimativa que se traduz no não tratamento, com perda de qualidade de vida e custos de intercorrências consideráveis.

Novos problemas clínicos vão assumir particular relevância como o da adesão ao tratamento, definido pela Organização Mundial de Saúde como “o quanto o comportamento de uma pessoa corresponde às recomendações acordadas com um profissional de saúde”.

E aqui importa sublinhar que sendo o conhecimento e o aprofundamento da relação entre o médico e o doente fundamental – como sempre foi e será – está longe de ser a única ou mesmo a principal explicação para as questões que se colocam ao nível da adesão… Sendo certo que a falta de adesão é crescentemente causa de internamento hospitalar e de agravamento por descompensação das patologias de base.

O mundo médico está atento, ainda que parte importante da resposta não passe pelos serviços ou pela dispensa de cuidados de saúde. De facto, sendo questões ligadas à decisão técnica e clínica, também dependem da decisão política.

O SNS vai precisar de quem repense estas “cenas” e cenários; de quem proponha e adopte respostas, partilhadas e responsáveis, que comprometam as dimensões técnica, financeira e ética.

Em nome do futuro de todos nós.

Porque para os mais velhos, como eu, o futuro está bem mais próximo.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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