Jornal Médico Grande Público

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DATA
06/07/2015 16:27:34
AUTOR
Luís Gouveia Andrade - Médico Oftalmologista no Hospital CUF Infante Santo
ETIQUETAS

Curvas de aprendizagem em Medicina - da formação à acção

A aprendizagem em Medicina é um processo constante, dinâmico e nunca concluído. Os conhecimentos inicialmente recolhidos durante o curso e, depois, nos sucessivos estágios ou internatos, são uma importante mas singela plataforma de preparação para a vida profissional e será esta que fornecerá o núcleo essencial daquilo que é a praxis médica.

Todas as profissões seguem este mesmo trajecto: formação teórica, estágio mais ou menos tutelado e, finalmente, a autonomia profissional.

No caso específico da Medicina, a “matéria-prima” é particularmente sensível. Ou seja, um médico aprende a observar, a diagnosticar, a tratar, a operar, em seres humanos. Trata-se de um processo gradual, sujeito à tutela e supervisão de colegas mais experientes e autónomos mas que, mesmo assim, se baseia em “treinar” gestos e rotinas em pessoas que, como regra, desconhecem qual o perfil de experiência do médico que têm perante si.

E este processo continua ao longo de toda a vida profissional de um médico. Quando um novo medicamento é disponibilizado, quando uma nova indicação é sugerida pelos estudos clínicos, quando um novo procedimento cirúrgico é experimentado, existe sempre uma curva de aprendizagem durante o qual o médico caminha mais hesitante e durante o qual o risco de eventos adversos/complicações é inevitavelmente maior.

Como conjugar este processo de aprendizagem com a ética em Medicina, com o consentimento informado agora plenamente estabelecido sempre que o paciente vai ser submetido a um procedimento invasivo? Deverá o doente saber que o médico tem pouca experiência naquele procedimento, que ainda está a aprender, que a técnica é recente ou que o material foi recentemente adquirido e ainda pouco experimentado?

Deveria o doente ter conhecimento do currículo cirúrgico ou médico de quem o trata e em que fase da curva de aprendizagem ele se encontra no momento em que o vai tratar? Questões difíceis…

A Medicina é uma ciência falível que a tecnologia e o conhecimento acumulado têm tornado mais segura, fiável e reprodutível.

O ensino médico decorre em instituições idóneas, auditadas e certificadas e tudo faz para que os profissionais adquiram uma preparação abrangente que garanta a prestação de cuidados de saúde de excelência.

Para esse fim, o ensino médico recorre a modelos teóricos, a técnicas de simulação e ao ensino tutelado no mundo real. Mas convém não esquecer que podemos ler mil livros, ver mil vídeos e treinar em mil simuladores mas nada disso substitui o contacto real com o primeiro paciente, nosso semelhante, fragilizado por uma doença e que em nós vê o médico que tem resposta para o seu caso. E que em nós confia. E que a nós se entrega…

Para o médico que ama o que faz, o doente é, em simultâneo, o receptáculo da sua ciência e da sua paixão e uma fonte de aprendizagem. Uma mesma doença manifesta-se e evolui de modo distinto em dois doentes diferentes. E um mesmo tratamento ou intervenção cirúrgica poderão ter resultados em nada semelhantes.

Não significa isto que o médico veja o doente como uma cobaia onde pode livremente experimentar novas soluções mas, na verdade, o médico aprende com cada doente algo mais, na forma como ele reage a um medicamento, no impacto de uma incisão cirúrgica não antes tentada, na interacção entre variáveis que só naquele caso se conjugaram.

Voltando às curvas de aprendizagem, conceito importado da indústria aeronáutica nos anos 30, elas aplicam-se a todos os procedimentos médicos e, sobretudo, cirúrgicos. Procedimentos mais complexos apresentam curvas de aprendizagem mais longas e nem sempre lineares, podendo ocorrer períodos de aparente retrocesso ao longo de uma curva que parecia estar já estabilizada.

Existe quem defenda que os doentes não deviam ser expostos a cirurgiões que estão ainda numa fase prematura da sua curva de aprendizagem. E isso parece fazer sentido. O problema é que, se assim for, o cirurgião não irá progredir nessa curva e, como tal, nunca irá poder operar.

Como se resolve esse dilema? Como sempre, com bom-senso, humildade e responsabilidade. Por mais modelos que se desenvolvam no ensino médico, o contacto directo com doentes reais em circunstâncias reais é o único método de aquisição de experiência. No caso dos internatos, esse problema está por definição resolvido por se tratar de Medicina tutelada. Para os médicos já formados e que se encontram nas fases iniciais do contacto com uma nova técnica, é essencial que eles reconheçam as suas fragilidades e solicitem a presença de um colega com experiência no procedimento em questão até adquirirem a mestria que traz confiança e autonomia.

Este comportamento terá de partir de cada profissional, regido pela sua ética, pela sua consciência, pela sua formação e pelo seu respeito pelos doentes. Não o fazer traduz-se em negligência grosseira e pode e deve ser punido em conformidade.

A Medicina tem, pois, no doente o alvo da sua acção e a fonte da sua formação. É uma dicotomia delicada que deve ser gerida com humanismo e com um tremenda responsabilidade.

Se o médico souber reconhecer em que fase da curva de aprendizagem se encontra para cada acto médico por si praticado, será mais fácil adaptar o seu comportamento e munir-se de todas as cautelas que possa minimizar o erro.

Agindo desse modo salvaguarda-se o bem-estar dos pacientes, o respeito absoluto que lhes é devido e torna-se possível progredir, aprender e tratar.

Agindo desse modo, as curvas de aprendizagem constituem uma importante ferramenta de ponderação e podem ser percorridas sem atropelos da ética e sem prejuízo da saúde do paciente, pilar inviolável da formação e da acção em Medicina.

Nota: escrito na grafia anterior ao novo acordo ortográfico

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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