Ser MF é muito mais que prescrever, é uma escolha com paixão…
DATA
07/07/2015 18:45:23
AUTOR
Daniela Cruz Pinto - Médica interna de Medicina Geral e Familiar - Unidade de Saúde Familiar Maxisaúde - Braga
ETIQUETAS

Ser MF é muito mais que prescrever, é uma escolha com paixão…

O presente artigo pretende suscitar a reflexão em torno da dimensão que poderá assumir a intervenção do Médico de Família na saúde global e vida dos seus utentes.

A Medicina Geral e Familiar (MGF) é a especialidade que integra todas as áreas da Medicina e tem uma visão holística do utente, sendo um desafio sem fim. O Médico de Família interage com toda a diversidade de pessoas e variedade de patologias e problemas. Tem em linha de conta valores humanísticos como a compaixão, a empatia, as aptidões comunicacionais, a capacidade de inspirar confiança e os aspetos biopsicossociais. Só a MGF promove a saúde e previne a doença das populações, investindo na educação para a saúde junto da comunidade, permite a continuidade de cuidados personalizados, pois conhece o indivíduo no seu contexto familiar e comunitário acompanhando-o ao longo do seu ciclo de vida.

Tudo isto faz da MGF uma especialidade difícil, mas especial, compensatória e gratificante.

Assim se percebe que ser Médico de Família é muito mais que prescrever…

Um exemplo é o caso que aqui se expõe: sexo masculino, 50 anos, caucasiano, divorciado, com o 2.º ano de escolaridade mas analfabeto funcional, pintor na construção civil. Inserido numa família unitária e de classe social baixa, segundo a escala de Graffar. Antecedentes pessoais de grave encurtamento traumático do membro inferior direito condicionando escoliose grave da coluna lombar, alcoolismo crónico e tensão arterial elevada. Sem medicação habitual. Hábitos tabágicos (15,5 UMA) e alcoólicos marcados (7 unidades padrão/dia). Antecedentes familiares de alcoolismo crónico em ambos os pais.

Foi convocado pelo seu Médico de Família para uma consulta de saúde de adulto para atualização do plano nacional de vacinação. Tinha a vacina antitetânica em atraso e há cerca de 12 anos que não tinha acompanhamento médico.

Realizada a consulta e após uma análise cuidada e atenta, no âmbito de uma relação de proximidade médico-utente, detetaram-se graves carências económicas e sociais. O utente morava sozinho numa habitação com poucas condições, alugada, estava desempregado e tinha dificuldade em pagar a renda. Não tendo qualquer fonte de rendimento económico para além dos trabalhos individuais que realizava esporadicamente, tinha uma ordem de despejo do local onde residia. Deste modo, optou-se por contactar a assistente social do ACES na tentativa de obter ajuda para este utente. Conseguiu-se obter o rendimento social de inserção, uma casa com renda mais acessível e em melhores condições e bens alimentares fornecidos pela Caritas. O utente passou a ser seguido regularmente na consulta, estando motivado para a abstinência alcoólica para a qual poderão ter contribuído todas as mudanças positivas que sucederam na sua vida após a consulta com o seu médico assistente.

É fundamental que a realidade que nos rodeia não nos seja indiferente. Pelo contrário, que suscite uma atitude pró-ativa por parte da sociedade e, neste caso em particular, pelo Médico de Família. E como fazê-lo? Não nos acomodando, estando atentos aos primeiros sinais, criando empatia com o utente, colocando-o à-vontade para nos revelar as suas carências, muitas vezes estigmatizadas e promovendo uma intervenção multidisciplinar, ativando todos os recursos disponíveis.

É isto a MGF! É o utente, é o doente, é a família, é a cultura e a comunidade, é a interação entre tudo isto e a sua influência na saúde e na doença.

A mudança necessária
Editorial | Jornal Médico
A mudança necessária

Os últimos meses foram vividos por todos nós num contexto absolutamente anormal e inusitado.

Atravessamos tempos difíceis, onde a nossa resistência é colocada à prova em cada dia, realidade que é ainda mais vincada no caso dos médicos e restantes profissionais de saúde. Neste âmbito, os médicos de família merecem certamente uma palavra de especial apreço e reconhecimento, dado o papel absolutamente preponderante que têm vindo a desempenhar no combate à pandemia Covid-19: a esmagadora maioria dos doentes e casos suspeitos está connosco e é seguida por nós.

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