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Rui Cernadas: desculpem mas eu li! Profissionais de corpo e alma…
DATA
09/07/2015 17:00:43
AUTOR
Jornal Médico
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Rui Cernadas: desculpem mas eu li! Profissionais de corpo e alma…

[caption id="attachment_11851" align="alignnone" width="300"]CernadasRui1 Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Parece incompreensível que numa época da história do homem em que a comunicação corre à velocidade de um clique ou que, um email ou “sms” revolucionam cidades, países e mundos, se sinta a necessidade de falar e apelar à comunicação.

Os exemplos recentes com manifestações, às vezes gigantescas, convocadas por estes meios ou o peso da internet na chamada “revolução” ou “revoluções” magrebinas, valorizam esta ideia.

Por isso, falar de comunicação e principalmente falar de comunicação em saúde, pode soar estranho… Entre os muitos profissionais que fazem dos serviços clínicos uma actividade complexa e multidisciplinar e entre aqueles e os doentes e seus cuidadores. Os que, bem vistas as coisas, estão verdadeiramente sempre e por definição em desvantagem física e psicológica… Muitas vezes em ambientes e cenários que lhes são absolutamente estranhos, desconhecidos, não simpáticos e quiçá, assustadores.

Não me convenço, diria até mais, não me conformo, com a ideia de que basta que cada profissional seja competente e cumpridor para que o sistema assistencial corresponda ao que dele deve a sociedade exigir.

A adopção de protocolos de actuação, diagnóstico ou terapêutica, a regulação por normas de orientação clínica, a existência de gabinetes de utentes ou de livros de reclamações, todos eles, não bastam para evitar ou suprir os imprevistos, as variáveis que nunca se controlam, as ânsias dos familiares e dos conviventes, os receios, as dúvidas ou os terrores dos doentes.

A verdade é que a afirmação de que “o tempo”, que normalmente é apontado como responsável pelas situações de crítica ou de discussão na relação médico-doente ou, se preferirem, na relação profissional do interface saúde-doente constitui um falso argumento! Assim como não colhe a desculpa, tantas vezes repetida, de que os computadores e as obrigações múltiplas de registos impedem ou limitam o relacionamento com os doentes.

Por razões diversas, ligadas às minhas funções na ARS do Norte, tenho tido oportunidade de observar a chamada e a entrada – ou a saída – de doentes em gabinetes médicos hospitalares e nos centros de saúde. E o que constato é um processo onde não se vislumbra “ponta” de corrente afectiva; em que cada doente – ou utente – é apenas mais um ser vivo anónimo, individual, “ligado às máquinas”, sem que relativamente ao qual se vislumbre, por parte da instituição, cuidado de conforto e de dedicação que lhe são devidos. Poucos foram os casos em que pude observar o clínico a acolher o doente de mão estendida à porta do consultório. E raros os casos em que o profissional o acompanhava à saída do consultório no final da consulta.

Para onde quer que olhemos, vemos profissionais – de todas as áreas – agarrados aos telemóveis ou aos écrans de todos os tamanhos e cores, alheados de tudo o que os rodeia… Longe de todos e dali…

O problema é tanto mais grave quanto se sabe que o fenómeno da violência contra profissionais está claramente a aumentar e que os riscos e os perigos associados às falhas de comunicação são reais e dramáticos. Estão, aliás, relatados e identificados entre os factores de risco preveníveis de morte em ambiente hospitalar.

Não significa esta reflexão que todos tenhamos de alinhar um discurso ou modelo “piegas” ou formatado e ridículo “em choradinho” em nome da transmissão de humanidade. Para isso há actores e telenovelas.

Espero que não seja assim que se pense em relação a outras áreas e contextos.

O modo como cada área do saber da Saúde se deve pautar no relacionamento com os doentes e com os outros profissionais, deveria certamente constituir matéria da formação pré-graduada. Mais: estou convicto de que a diversidade que deve marcar o relacionamento e a comunicação com as outras pessoas em geral – e com os doentes em particular – garantirá a complementaridade e a abrangência que o serviço nacional de saúde está obrigado, por dever e obrigação ética, a disponibilizar ao país.

Os papéis e as funções dos profissionais, enquanto técnicos de saúde, podem ser sempre atribuídos. Já a capacidade e o desejo de comunicar, esses, podem ser solicitados e requeridos, mas dependem da vontade de se querer – e saber – ser um profissional de corpo e alma…

Nota: escrito na grafia anterior ao novo acordo ortográfico

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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