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António Branco: a propósito de um alegado aumento do número de utentes com médico de família
DATA
07/09/2015 17:00:54
AUTOR
Jornal Médico
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António Branco: a propósito de um alegado aumento do número de utentes com médico de família

[caption id="attachment_13292" align="alignnone" width="300"]AntonioBranco António Branco - Médico de Família, Tomar[/caption]

Confesso ter dificuldade em comentar a revelação de “que há um aumento de 1,4 por cento de utentes com médico de família”. A referência anterior é o mês de abril.

O número de utentes sem médico (ou com médico) sempre foi matéria envolta num enorme mistério:

1. Em 1990 dizia o IGIF que havia 13 milhões de inscritos (quando o INE dizia que nós éramos 10 milhões). Foi nessa época que a APMCG avançou, em conferência de imprensa de lançamento do “livro azul”, com o número de 1 milhão de utentes sem médico de família, que fez 1.as páginas nos jornais – “calcularmos” 3 milhões sem médico seria um notório exagero;

2. Passaram 25 anos e muitos milhões de euros foram despejados para cima dos sistemas de informação – o que é que mudou?

a) A furiosa implementação dos programas e plataformas com que a ACSS (ou os SPMS, ou as ARS, ou o Papa) nos vem afogando obriga-nos, cada vez mais, a desviar a atenção dos doentes para o ecrã dos computadores;

b) Vivemos uma época de “sobredotação” de sistemas de registo para prescrição (de medicamentos, MCDT, fraldas e transporte de doentes), contabilização e cálculo de indicadores de desempenho, parametrizações tolas dos registos biométricos de assiduidade, programas que continuam a não falar uns com os outros; a par desta parafernália, todos os dias tropeçamos com “avisos de segurança” informática que somos encorajados a ignorar;

c) Alguns dados de informação estatística (pela qual são avaliadas as USF e algumas UCSP) oscilam consoante o dia e a hora a que são colhidos.

d) Em paralelo, cada vez mais lidamos com gente que parece não ter sequer consciência de que alguma coisa não está a funcionar bem.

Em resumo – nestes 35 anos aumentou a carga administrativa com ferramentas que não prestam e o fanatismo do economês e dos informáticos é total.

Neste momento e até que ocorram melhorias, posso resumir o meu comentário à notícia a: NÃO ACREDITO. Realço que não digo que é mentira – a probabilidade de ser verdade é totalmente incerta (as agências de “rating” falam em confiança no nível “lixo”).

Se para a próxima semana disserem que subiu em 10% o número de inscritos (com os incentivos e os contratos dos 400 reformados, por exemplo) já não me surpreenderei e continuo a não acreditar.

Uma curiosidade noticiada contemporânea – a certificação de qualidade da marca “andaluza”, menina dos olhos da DGS, foi obtida por 24 serviços de saúde nacionais em 4,5 anos, incluindo 12 USF – um sucesso, portanto.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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