Jornal Médico Grande Público

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DATA
22/09/2015 18:48:49
AUTOR
Luís Gouveia Andrade - Médico Oftalmologista no Hospital CUF Infante Santo
ETIQUETAS

Médicos e pacientes - onde ética, ciência e humanismo se cruzam

Independentemente dos rumos que a Medicina possa tomar, do seu maior ou menor pendor tecnológico, dificilmente ela deixará de se basear no binómio médico-doente.

Significa isso que, seja qual for o grau de conhecimento que venhamos a ter sobre o corpo humano e seja qual for a nossa capacidade de intervenção sobre o curso natural das doenças, o resultado final será sempre muito influenciado pela coesão desse binómio, pelo modo como ele funciona, pelos detalhes que o vão moldando ao longo do tempo.

Sem uma correcta e honesta informação fornecida pelo doente, o médico arrisca-se a errar no diagnóstico e, pior do que isso, a propor um tratamento menos adequado ou potencialmente nocivo.

Sem plena confiança no seu médico, sem este mostrar a disponibilidade e o tempo para ouvir, o doente tenderá a omitir dados, a confundir elementos e, já depois de medicado, será muito mais susceptível a não cumprir escrupulosamente o tratamento prescrito.

A adesão ao tratamento, ou a falha dela, é, como se sabe, uma das principais fontes de insucesso terapêutico, sobretudo nas doenças crónicas que obrigam a uma disciplina rigorosa e a uma forte motivação. Mas nem sempre se pode imputar ao doente a responsabilidade pela ausência de adesão terapêutica. Os efeitos secundários da medicação, uma posologia não devidamente explicada e, sobretudo, uma relação médico-doente de menor qualidade são fatores decisivos para que um doente não invista no seu tratamento.

Importa nunca esquecer que a relação médico-doente é, em simultâneo, uma relação entre duas pessoas com personalidades distintas e com vidas diferentes. Por outro lado, a doença gera sempre um desequilíbrio nessa relação, sentindo-se o doente numa posição de inferioridade e debilidade perante o médico. Caberá a este esbater esse sentimento, colocando o paciente numa posição de conforto, dignidade e confiança que lhe permita cultivar a relação de igual para igual.

Os médicos, por mais experiência que tenham e por mais paixão que coloquem no exercício da sua profissão, não deixam de captar as emoções que os doentes lhes transmitem e de ser tocados por elas. Até que ponto é que essa “osmose“ afetiva interfere no processo relacional? Até que ponto um médico, mesmo que inconscientemente, não “investe” mais num doente do que noutro com base no que sentiu durante os contatos estabelecidos? E até que ponto um doente não faz o mesmo em relação aos médicos que o acompanham?

Todas estas questões, e muitas mais, ilustram a subjectividade que é transversal a todo o ato médico. O aperfeiçoamento tecnológico tenderá a reduzir a margem de erro no diagnóstico e nos atos cirúrgicos mas o fator humano inerente à avaliação do paciente pelo médico e à “entrega” dos doentes aos seus médicos irá sempre influenciar e ditar o percurso adotado e os resultados obtidos.

A recente evolução no sentido de tornar as decisões médicas mais partilhadas, assim conferindo aos doentes um papel mais dinâmico e interventivo em todo o processo, poderá ter contribuído para uma relação médico-doente mais próxima mas nem por isso menos subjectiva. O facto de os pacientes terem acesso a mais informação e poderem optar entre diferentes alternativas não alivia a responsabilidade do médico nem garante, por si só, melhores resultados.

Derrubar barreiras linguísticas, culturais, sociais e emocionais são algumas das competências que um médico tem de ir adquirindo e que não se ensinam na Faculdade.

Ter amor ao que se faz e ver em cada doente alguém igual a nós e que de nós precisa permitirá exercer melhor esta nobre missão de curar e de prevenir a doença.

Um médico nunca o será verdadeiramente se não cultivar o seu lado humano, se abafar as suas emoções, se praticar Medicina espartilhado pela ciência e pela técnica. Na verdade, poderá fazê-lo desse modo, obtendo, até, excelentes resultados mas, pessoalmente, duvido que consiga construir saudáveis relações com os seus doentes.

Saúde e doença serão sempre tópicos centrais nas nossas vidas e, dada a sua complexidade e a natureza falível dos intervenientes (médicos e doentes), importa que sejam encaradas com um misto de ciência, racionalidade e coração.

Do médico, o doente exige tempo, dedicação, rigor técnico e preocupação genuína. Do paciente, o médico espera abertura, verdade e compromisso com as soluções definidas.

De ambas as partes se espera a capacidade de gerar e gerir uma relação que de ambos depende para dar certo. Como em quase tudo na vida…

PS: Já depois de ter preparado este texto, encontrei esta citação da Madre Teresa de Calcutá.

Penso que ela resume grande parte do que aqui partilho convosco.

“A todos os que sofrem e estão sós, dai sempre um sorriso de alegria. Não lhes proporcioneis apenas os vossos cuidados, mas também o vosso coração”

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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