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Artur Miguel Quaresma Pereira Miler: Saúde Oral Geriátrica
DATA
07/10/2015 11:00:17
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Jornal Médico
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Artur Miguel Quaresma Pereira Miler: Saúde Oral Geriátrica

[caption id="attachment_16395" align="alignnone" width="300"]Artur Miler Artur Miguel Quaresma Pereira Miler - Médico Dentista com Curso de Especialização em Reabilitação Oral pela FMDUP - Mestrando em Geriatria pela FMUC[/caption]

De acordo com os dados mais recentes das Nações Unidas e da OCDE, o aumento do número de pacientes idosos na população, especialmente nos países mais ocidentais, é uma realidade hoje e uma certeza no futuro próximo. Em Portugal, prevê-se que a percentagem de população acima dos 60 anos passe dos 24% em 2011 para 40% em 2050.

Nas últimas décadas a população mundial tem sofrido um rápido envelhecimento, principalmente nos países em desenvolvimento, acompanhado por um aumento na esperança média de vida. Nos países desenvolvidos os idosos constituem cerca de 11-18% da população, podendo vir a atingir os 20% em certos países, caso esta tendência se mantenha.

A melhoria nas condições de vida, os progressos nos cuidados de saúde e a implementação de medidas de saúde pública têm sido consideradas as principais causas para o crescimento demográfico desta faixa etária. Porém, esta situação também conduziu a um aumento das doenças associadas ao envelhecimento, a condições incapacitantes e a doenças crónicas.

Nos países desenvolvidos é considerado idoso o indivíduo com uma idade igual ou superior a 65 anos, prevalecendo ainda, em países em desenvolvimento, a referência dos 60 anos. Contudo, há autores que defendem que o critério cronológico não é o mais adequado para definição de pacientes geriátricos devido à grande variabilidade de condições físicas, médicas e mentais entre os indivíduos com mais de 65 anos de idade, optando por uma classificação de acordo com o grau de função psicossocial (independente, debilitado ou funcionalmente dependente). Deste modo, os idosos constituem-se como uma faixa etária da população que exige uma atenção especial por parte da comunidade médica atendendo às condicionantes anatómicas e fisiológicas que lhe são caraterísticas.

Os cuidados estomatológicos dos idosos assumirão grande importância nos próximos 25 anos. Seja em termos de saúde oral preventiva – da prevenção primária à prevenção secundária, terciária e mesmo quaternária – seja em termos de diagnóstico e de tratamento de patologia da cavidade oral e do complexo maxilo-mandibular, para além da enorme importância do diagnóstico e referenciação de patologia sistémica com manifestações orais. Com o aumento do número de idosos e, por conseguinte, de todas as co-morbilidades que os caraterizam, estes serão claramente um tipo de população diferente, que exigirá da nova geração de especialistas em medicina dentária mais, melhores e mais diferenciados cuidados de saúde oral. Serão certamente indivíduos que terão um maior número de dentes naturais do que as gerações anteriores e que os esperam conseguir manter por mais tempo; serão um grupo etário que mais dificilmente aceitarão as próteses convencionais como alternativa para a falta de dentes que eventualmente possam vir a ter; e serão também pacientes com maior probabilidade de padecerem de patologia oncológica diversa (e também bucal), muitos a necessitarem de cuidados paliativos, com a inerente e imperiosa abordagem multidisciplinar.

Além disso, convém lembrar que hoje é facto reconhecido que o idoso que consegue conservar o maior número de dentes naturais vai necessitar de extensos e complicados tratamentos para conseguir manter a sua dentição natural. Consequentemente, haverá também um aumento da procura de tratamentos estomatológicos, com uma crescente necessidade de programas de saúde específicos para esta faixa etária da população e não apenas com os correntes programas dirigidos à população em geral. Ao longo das próximas décadas, o rápido crescimento deste segmento da população afetará a prática clínica dentária. A tomada de decisão clínica irá variar de um indivíduo para outro e a manutenção da dentição nesta população é importante, não só para a sua qualidade de vida, mas também para a manutenção da saúde geral.

O tratamento de pacientes mais velhos requer não só uma compreensão dos aspetos médicos e dentários do envelhecimento, mas também fatores como a locomoção, vida independente, a socialização e a função sensorial. São várias as barreiras que estão associadas ao fornecimento de cuidados de saúde oral a este tipo de pacientes como a complexidade dos tratamentos dentários associados, a sua condição médica, o estado funcional diminuído, perda de independência, má informação sobre os tratamentos estomatológicos na velhice e a sua condição financeira.

O principal objetivo da medicina dentária geriátrica é capacitar profissionais para reconhecer e aliviar as dificuldades dos idosos. Para o sucesso do tratamento, o médico deve adotar uma atitude humanitária, desenvolver um melhor relacionamento e uma melhor compreensão dos sentimentos e atitudes da idade, compreender os seus problemas estomatológicos especiais e considerá-los como diferentes de outros grupos etários. O restabelecimento ou a preservação da função, a fim de ajudar o paciente a manter não só um estilo de vida independente, mas também o seu estilo de vida preferencial dentro desses limites é a meta a alcançar para o sucesso de qualquer tratamento.

Tendo em vista as alterações demográficas enunciadas, creio ser necessário um maior número de profissionais de saúde oral habilitados com formação académica específica para as necessidades dos pacientes mais velhos e conscientes e motivados para a compreensão dos processos patológicos e fisiológicos e respetivas repercussões sociais associadas ao envelhecimento.

Os médicos dentistas têm de assumir o seu papel como parte do sistema de saúde, pois estão muitas vezes na linha da frente na deteção de condições ou doenças mórbidas relacionadas com a idade através do exame oral de rotina. Esse papel já começou a ser reconhecido através do programa nacional de rastreio do cancro oral mas o caminho deve continuar a ser trilhado com vista a elucidar, quer governantes quer a população em geral, da crucial importância de uma boa saúde oral, mesmo em idades avançadas.

É necessário superar as barreiras, tais como o status socioeconómico, o estado geral de saúde física as deficiências cognitivas e o acesso a cuidados estomatológicos entre a população idosa. Urge reformar a saúde oral tal como hoje está sistematizada, seja a medicina dentária hospitalar, seja a medicina dentária ambulatória; educar e formar médicos dentistas e estomatologistas para integrarem o sistema público e privado de saúde oral, desde as unidades de cuidados de saúde primários às unidades de cuidados hospitalares, pode determinar maior acessibilidade e mais qualidade aos cuidados de saúde oral da população idosa.

Em suma e em boa verdade podemos afirmar que esta temática terá que ser alvo de debate e de reflexão junto da comunidade médica, nomeadamente nas respetivas ordens profissionais, e de forma mais abrangente e consentânea com a nova e previsível realidade que se aproxima rapidamente no que à premente necessidade de proporcionar melhores e mais específicos cuidados de saúde oral à população em idade geriátrica.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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