Jornal Médico Grande Público

Manuel Luís Capelas: nos 20 anos da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos
DATA
21/10/2015 17:00:57
AUTOR
Jornal Médico
ETIQUETAS

Manuel Luís Capelas: nos 20 anos da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos

[caption id="attachment_16588" align="alignnone" width="300"]Mnuel Luís Capelas Manuel Luís Capelas - Presidente da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos[/caption]

A Medicina e os Cuidados de Saúde à medida que foram tendo a capacidade de controlar a doença, de curar o que até aí era incurável, de prolongar a vida das pessoas, foram perdendo a sua essência nuclear: cuidar o doente e não a doença, o micróbio ou o uso da tecnologia.

Dame Cicely Saunders (médica, enfermeira e assistente social) no inicio da 2ª metade do século passado, refletindo sobre os cuidados prestados aos doentes que se encontravam em fase final da sua vida e focalizando o seu trabalho nos seus doentes, constatou que seria necessário muito mais do que estava a ser feito, para que estes doentes vissem as suas necessidades físicas, psicológicas, sociais e espirituais verdadeiramente satisfeitas. Surgiram assim os cuidados paliativos modernos.

Modernos porque deixaram de assentar apenas no conforto físico, ambiental e na caridade, mas numa prática simultaneamente científica e criativa, onde o foco dos cuidados passou a ser o doente e sua família, com a procura de uma melhor qualidade de vida e de dignidade da mesma.

Atrevo-me a dizer que por tudo o que fez e pelo movimento que gerou à volta o Mundo, Dame Cicely Saunders merecia ter ganho o Prémio Nobel da Medicina. Não por ter descoberto uma molécula X, ou um tratamento Y, ou um mecanismo fisiológico Z, mas por ter feito com que se repensassem os cuidados de saúde, reivindicando a sua humanização, individualização, a focalização no doente e sua família, promovendo a qualidade de vida, a busca de sentido e a promoção da dignidade da mesma. Bem visto, voltar a colocar os cuidados de saúde nos “carris” de onde nunca deveriam ter saído.

É a partir deste movimento, que os cuidados ao doente em fim de vida começam o seu desenvolvimento exponencial, ao longo de todo o globo, procurando abranger todos os povos. Assim, nos anos 60 foi fundada a primeira unidade de cuidados paliativos (UCP) na Coreia, no “Calvary Hospice of Kangnung” em 1965, pelas irmãs católicas da “Little Company of Mary”. Dois anos mais tarde, foi fundado em Londres, o St Christopher’s Hospice, que seria a referência dos cuidados paliativos modernos. Hoje em dia, mais de 115 países dos 234 existentes têm um ou mais serviços de cuidados paliativos, com uma grande diversidade de programas, de tipologias, assim como de objetivos dos programas, especialmente no que respeita ao público-alvo

No que respeita ao nosso país, a história dos cuidados paliativos tem cerca de 20 anos, embora já desde o século XVI estes cuidados estejam já referidos em alguns textos médicos.

Pode dizer-se que, no nosso país, os cuidados paliativos iniciaram-se em 1992, com a inauguração da Unidade de Dor do Hospital do Fundão, com grande empenho do Dr. Lourenço Marques que quase de imediato se transformou no Serviço de Medicina Paliativa do mesmo hospital.

Dois anos mais tarde, surge a primeira Unidade de Cuidados Paliativos, também com valência de consultoria intra-hospitalar e apoio domiciliário, num hospital oncológico, no Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto em 1994, a que se seguiu mais tarde, em 2001, a do IPO de Coimbra. Neste período intercalar foi fundada, pelo Prof. Doutor Ferraz Gonçalves a Associação Nacional de Cuidados Paliativos, em 1995, e que hoje se designa de Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos (APCP). Surgiu, também, primeira equipa de cuidados paliativos domiciliários, do país, no Centro de Saúde de Odivelas, em 1996, dirigida pela Dr.ª Isabel Galriça Neto.

Estes profissionais, e todos os que com eles abraçaram estes projetos, foram e são uns verdadeiros heróis nacionais, pois saíram da sua zona de conforto e promoveram contra ventos e marés mudança num sistema de saúde muito desligado do doente, verdadeiras mudanças, assim como, e mais importante ainda, conseguiram e conseguem promover a dignidade e vida destes doentes até à sua morte, e depois dela, prestando cuidados de elevada qualidade e competência técnico-científica.

A APCP surgiu também deste pioneirismo, em que todos os seus elementos gerentes, disponibilizaram e disponibilizam de uma forma altruísta parte das suas vidas ao desenvolvimento destes cuidados e para que a direita a eles seja de facto uma realidade, independente da sua crença religiosa, situação socioeconómica, local de residência, género, doença, idade.

Em 20 anos da sua história muito haveria para dizer, mas o mais importante a ressalvar será o grande agradecimento que todos nós, cidadão portugueses, devemos a todos que conduziram a APCP, procurando respeitar os seus princípios e valores estatutários, mas também pelo movimento nacional que souberam gerar, colocando este tema na ordem do dia, mas também um GRANDE OBRIGADO a todos os que no terreno, ajudam os doentes e suas famílias (estes, os principais heróis), a fazer a transição de serem vitimas passivas a pessoas com decisão e poder quando a morte se aproximar irreversivelmente, de deixar de lutar contra a morte mas procurar a paz.

Não prestando cuidados diretos aos doentes e sua família, o grande desiderato da APCP é procurar que existam condições para que todos estes profissionais possam prestar cuidados paliativos de qualidade, e que por outro lado os doentes possam deles usufruir.

Ainda jovem, mas com grande história, sendo que o futuro dela e de todos os que se preocupam com estes cuidados, desejarem que seja.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

news events box

Mais lidas