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Acácio Gouveia: janizaros – II
DATA
29/10/2015 18:09:58
AUTOR
Jornal Médico
Acácio Gouveia: janizaros – II

[caption id="attachment_13316" align="alignnone" width="300"]AcacioGouveia Acácio Gouveia - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Entre os séculos XIII e XIX o império otomano criou um corpo de militares e de funcionários recrutados entre rapazes cristãos do império – os janízaros. Desenraizados das famílias e comunidades eram islamizados e submetidos a cuidada formação militar e cultural, constituíam o pilar do poder dos sultões turcos a quem devotavam uma fidelidade absoluta. Porém, com passar dos séculos, estes escravos- soldados assumiram uma dimensão corporativa tornando-se os verdadeiros mandantes e predadores do império.

De tempos a tempos vem à baila a questão da escassez de médicos de família, para a qual a tutela tem proposto soluções mais ou menos imaginativas e de variável sensatez. Paradoxalmente, o mesmo ministério que se preocupa com a falta de médicos de família despreza o trabalho dos poucos que estão em atividade. É como se em tempo de seca se ignorasse o desperdício resultante de canalizações rotas.

As disfunções informáticas não são de agora, mas este ministério não demonstrou afastar-se da canhestra política, que outros iniciaram. Nós, os utilizadores, sentimos que somos – e somos – a maioria silenciada neste processo. Os disparates sucedem-se e a caravana passa.

Sem dúvida que há muitas ferramentas úteis entre a panóplia que temos à mão, não fossem os bugs que têm demorado a ser corrigidos. Mas também temos aplicações aleijadinhas de todo.

O Alert é paradigmático. De génese obscura – estão por esclarecer as razões que levaram à escolha deste programa tão disforme – é pouco funcional e prega partidas a escorregar para o lúgubre.

Os pedidos de consulta hospitalar, feitos através do SClínico perdem-se com frequência no éter e não chegam aos hospitais, porque o Alert lhes dá sumiço, embora fiquem assinalados no SClínico como tendo sido enviados, ficando o MF e o utente, convencidos de que o caso foi referenciado ao hospital, sem que alguma vez tal tenha acontecido. Sinalizada por diversas vezes, esta falha, indubitavelmente crítica, obtive do servicedesck ou uma resposta inaceitável ou – o mais das vezes – silêncio. Aliás, a pusilanimidade do feedback (quando há direito a feedback!) que tenho recebido do SPMS levou a optar por não perder tempo a reportar a saraivada de bugs com que amiúde tropeço. Apostaria que não sou o único a ter compreendido que não é rentável desperdiçar tempo a assinalar falhas, devidamente documentadas, a um helpdesk, que, baseado na minha experiência, é pouco mais que inútil.

Mas, mesmo que fosse ótimo o software, o envelhecido parque informático e a estreiteza de banda vigente estrangular-lhe-ia a produtividade. Bizarra é a ânsia de agigantar o efetivo de programas e aplicações, conservando os pés de barro de todo o edifício. As queixas são ubíquas e as disfunções consensualmente identificadas. A inoperância e a arrogância do SPMS são manifestas e, aparentemente, inamovíveis. Porquê? Vislumbro duas explicações possíveis.

Primeira hipótese: o ministério alinha na moda em voga: a omnipotência da política. Será o obstáculo técnico, mas a solução é política! Os objetivos políticos (e pode nem estar em causa a sua bondade) são perseguidos ao arrepio da opinião dos técnicos e da prática dos utilizadores, que o mesmo é dizer, da realidade. Assim sendo, sob a batuta cega dos políticos, o SPMS seria coagido a soluções abstrusas e daí termos a informatização a avançar como paquiderme em loja de porcelana.

Em alternativa temos a hipótese da “janerização” dos SPMS. Aqui os políticos, abdicando do seu legítimo papel de condutores, permitiriam a usurpação do poder pelos técnicos e estes substituíam o cumprimento da sua missão pela implementação de uma agenda própria. Ao arrepio das necessidades dos utilizadores e dos utentes, a máquina informática do ministério giraria em torno dos colaboradores do SPMS, com prejuízo da nação.

Um dia avariou-se o sensor biométrico do nosso centro de saúde. Dois dias depois, um técnico da ARSLVT fez mais de duzentos quilómetros para compor a avaria. Contudo, há seis meses que se verificam apagões telefónicos sistemáticos no nosso centro de saúde e o nosso servidor tem falhas quase diárias, sem que possamos testemunhar qualquer iniciativa no sentido de corrigir as disfunções escandalosas.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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