Jornal Médico Grande Público

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DATA
02/11/2015 14:00:45
AUTOR
Luís Gouveia Andrade - Médico Oftalmologista no Hospital CUF Infante Santo
ETIQUETAS

Rastreios visuais na infância - Intervenção simples, decisiva e inadiável

Penso ser consensual que a visão é, provavelmente, o mais valioso dos sentidos. É através dos nossos olhos que captamos o mundo que nos rodeia e é através deles que se desenrola grande parte da nossa vida pessoal, familiar e profissional.

Os nossos olhos podem ser afectados por diversos problemas mas, felizmente, a maioria deles pode ser resolvida se a detecção for precoce. O avanço médico e tecnológico têm feito progredir a Oftalmologia, tornando tratáveis muitas doenças que antes não o eram.

As doenças oculares que afectam a criança adquirem uma importância muito particular, sobretudo quando ocorrem nos primeiros anos de vida, na fase em que o sistema visual está ainda em fase de maturação. Uma vez que essa maturação depende do estímulo visual e da formação a nível cerebral de imagens correctas, uma interrupção nesse fornecimento tem consequências irreversíveis para a visão. E, para essas, nem a mais moderna tecnologia consegue ainda ajudar.

De facto, aquilo que ternamente designamos por “olho preguiçoso” mais não é do que um sistema visual que, por falta de estimulação visual adequada nos primeiros anos de vida, perdeu a sua capacidade de interpretar correctamente as imagens exteriores.

O termo técnico para este quadro é ambliopia e esta pode ser mais ou menos profunda, dependendo da sua causa, da sua idade de instalação e da instituição ou não de tratamento precoce.

A ambliopia quase sempre é unilaterale afecta entre 2 a 5% das crianças.

A infância é, na verdade, uma época crítica para o desenvolvimento da visão, já que é nos primeiros anos de vida que ela se forma, se aperfeiçoa e se desenvolve. De facto, é condição essencial para vermos bem, para lá de possuirmos olhos saudáveis, sermos expostos à luz e ao mundo exterior. Ou seja, se os nossos olhos funcionarem bem mas não receberem qualquer tipo de estímulo visual, a nossa visão não se poderá desenvolver. Inversamente, uma correcta exposição ao meio ambiente na presença de olhos com alguma anomalia não permitirá a formação de um sistema visual saudável.

Este aspecto é essencial: no adulto a visão já está desenvolvida e uma perda de visão durante meses não implica prejuízo permanente mas, na criança, onde o sistema visual ainda está em construção, uma interrupção no acesso a imagens nítidas durante algum tempo pode ter consequências irreversíveis.

Daqui resulta uma noção básica: os rastreios visuais na criança são obrigatórios e devem ser realizados o mais precocemente possível!

Não devemos ficar à espera que as crianças se manifestem e nos digam que estão a ver mal. Se uma criança nunca viu bem, não saberá que está a ver mal por falta de termo de comparação; por outro lado, uma criança pode ver bem de um dos olhos e mal do outro e, como tal, nunca se aperceberá dessa diferença. Muitas vezes, estes problemas são detectados demasiado tarde e a formação da visão ocorreu de forma deficiente. E, quando tal acontece, nada há a fazer…

Sabemos que não existe uma visão normal na altura do nascimento. O seu desenvolvimento depende da exposição dos olhos a imagens focadasdesde o nascimento até aos 6-9 anos.

A elasticidade do córtex visual (zona do cérebro onde as imagens são recebidas e descodificadas) vai diminuindo com a idade, pelo que existe um período crítico para o desenvolvimento visual.

No período neonatal precoce, o desenvolvimento da visão é rápido e muito sensível a qualquer perturbação. Assim, e por exemplo, uma catarata congénita corresponde a uma emergência médica que deve ser prontamente corrigida.

Quando os estímulos visuais do meio ambiente são bloqueados por uma anomalia da visão (miopia, hipermetropia e/ou astigmatismo), pela presença de um obstáculo à recepção das imagens (catarata, cicatriz, etc.) ou por um desalinhamento dos eixos visuais (estrabismo), o desenvolvimento da visão é interrompido e surge a ambliopia.

O tratamento do “olho preguiçoso” depende da causa. Muitas vezes, o uso de uma correcção adequada (óculos) é suficiente. Por vezes, é necessário tapar o “olho bom”, de modo a forçar o “olho preguiçoso” e permitir que as imagens recebidas por este sejam descodificadas. No caso do estrabismo, podem ser necessários exercícios realizados por profissionais especializados (ortóptica) ou mesmo a cirurgia.

Para se poder prevenir a instalação de um quadro de ambliopia, é, por isso, essencial que as crianças sejam observadas por um médico oftalmologista ainda dentro do referido período de desenvolvimento do sistema visual.

A altura ideal é a pré-escolar (entre os 3-4 anos), uma vez que problemas detectados no momento da entrada para o primeiro ciclo (6 anos) podem já não ser completamente resolvidos. Este rastreio não apenas permite detectar a ambliopia como também outras doenças oculares (estrabismo, tumores, glaucoma congénito, cataratas e doenças retinianas).

Infelizmente, mesmo com tanta informação, ainda recebo crianças com mais de 6 anos que nunca foram ao médico oftalmologista e com quadros de ambliopia já instalados que poderão já não ser susceptíveis de tratamento completo.

E como se justifica que uma criança que tem tudo para poder ver bem, fique permanentemente diminuída num aspecto central da sua vida apenas porque a primeira consulta foi tardia?

Enquanto médico, este é um tópico a que regresso com frequência pela importância que a ele atribuo.

Ainda não o tinha feito aqui mas espero que vos possa ser útil...

Nota: texto escrito segundo a grafia anterior ao acordo ortográfico

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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