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Rui Caramelo: emergências nos cuidados de saúde primários
DATA
03/11/2015 12:00:53
AUTOR
Jornal Médico
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Rui Caramelo: emergências nos cuidados de saúde primários

[caption id="attachment_16729" align="alignnone" width="300"]rui caramelo Rui Caramelo - Médico Interno de Medicina Geral e Familiar - USF Canelas - ACES Espinho/Gaia[/caption]

As doenças cérebro e cardiovasculares assim como as neoplasias ocupam, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, o “top 3” das principais causas de morte em Portugal.

Relativamente às doenças cardiovasculares, aproximadamente um terço das vítimas de enfarte agudo do miocárdio morre antes de chegar a um hospital, sendo as arritmias iniciais na maioria destes eventos a fibrilhação ventricular ou a taquicardia ventricular sem pulso. A única forma de tratamento eficaz destas arritmias é a desfibrilhação e o intervalo de tempo que decorre após início da arritmia até desfibrilhação bem sucedida é proporcional à extensão de necrose miocárdica sequelar.

A unidade de saúde onde me encontro atualmente a realizar o internato de Medicina Geral e Familiar (MGF) – Unidade de Saúde Familiar (USF) Canelas – encontra-se aproximadamente a 10 minutos de distância de carro da unidade hospitalar da área de residência, pelo que, em caso de doença aguda súbita, a probabilidade do doente recorrer à mesma em caso de doença súbita é bastante maior. Contudo, existem unidades de saúde distanciadas em 30 minutos (por vezes mais) de um hospital, pelo que a probabilidade do doente se deslocar aos cuidados de saúde primários (CSP) em busca de auxílio médico é maior. Embora não pensemos diariamente nestas situações, este é o nível de exposição a que um Médico de Família se depara todos os dias desde que a sua unidade está aberta até à hora do seu encerramento.

É certo que os CSP têm vindo a sofrer ao longo dos anos uma evolução francamente positiva e benéfica para os nossos utentes. Nota-se também uma maior sensibilização para este tipo de problema, tendo os agrupamentos de centros de saúde (ACES) e os próprios profissionais procurado com maior frequência formação em Suporte Básico de Vida (SBV), assim como a implementação de desfibrilhadores automáticos externos (DAE) em várias unidades de saúde, aumentando assim a eficácia de resposta ao doente em periparagem. Na USF Canelas todos os profissionais têm formação atualizada em SBV e está previsto para breve a instalação de DAE.

Face à realidade das USF (modelo de unidade de saúde onde trabalho) e após pesquisa de regulamentação relativamente à obrigatoriedade de existência de DAE nas USF e da formação necessária dos profissionais de saúde, surgiram algumas dúvidas acerca destes pontos. Foi então feito um pedido de parecer ao departamento jurídico da Ordem dos Médicos relativamente a estes pontos. Saliento duas conclusões relativamente ao parecer jurídico: “As USF não estão obrigadas a incluir no seu equipamento um DEA” e “As USF devem, contudo, dispor de um carro de emergência que inclua um desfibrilhador”. O parecer foi solicitado por uma amiga – Dra. Andreia Fernandes (médica interna de MGF na USF Alcaides Faria) que se encontra a realizar comigo um trabalho de investigação sobre este mesmo tema na Zona Norte. Daqui se conclui que não somos obrigados a ter formação em SBV, ou a saber manipular um DAE, contudo, é obrigatória a existência de um carrinho de emergência em cada unidade de saúde, que por sua vez deverá ter na sua constituição um DAE ou um desfibrilhador semiautomático e profissionais de saúde habilitados a manusear os mesmos… Informação contraditória.

Ao abordar esta realidade o meu propósito é o de alertar para a responsabilidade que cada um de nós tem de não falhar nestas situações limite. Para tal, é importante conhecer o material disponível na nossa unidade, tais como carro de emergência e DAE, assim como identificar os colegas que têm formação em SBV e/ou SAV atualizada.

A nossa especialidade (a par de muitas outras) não nos coloca com regularidade em contacto com situações lifesaving e tendo estes eventos características muito próprias, que não admitem erro, falhas ou atrasos e salvam, mesmo, vidas, revela-se essencial compreender se estamos preparados/treinados para uma resposta rápida e eficaz.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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