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Raul de Amaral-Marques: o papel da vacinação na preparação para as epidemias sazonais
DATA
27/11/2015 11:28:54
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Jornal Médico
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Raul de Amaral-Marques: o papel da vacinação na preparação para as epidemias sazonais

Marques, Prof. Raul Amaral
A gripe é, na realidade, uma doença mortal e tão ou mais mortal que tantas outras doenças que são notícia comum dos meios de informação.

Habitualmente, a gripe aparece sob forma de surtos ou de epidemias (mesmo pandemias) atacando em particular os mais frágeis como os mais idosos, os imunodeprimidos, os portadores de doenças crónicas e, também, os mais novos.

Quanto à agressividade convém não esquecer as grandes pandemias que dizimaram populações: desde os relatos da peste branca, na Idade Média, que hoje se sabe serem pandemias causadas pelo vírus da gripe, à pandemia espanhola, quase há um século (que matou entre 50 a 70 milhões de pessoas em todo ao mundo), até às gripes asiática (1952), de Hong Kong (1968) e, mais recentemente, a gripe A (ou mexicana).

Os vírus da gripe, que são vários (A, B e C) e de várias estirpes (H e N), têm tido a “inteligência” suficiente para mudarem as suas características antigénicas sempre que se sentem “mais ameaçados”. Esta variabilidade dos vírus Influenza é consequência de dois fenómenos:

a)      “drift” antigénico ou deslizamento –corresponde a alterações mínimas das proteínas de superfície (hemaglutinina). As consequências são uma diminuição da proteção imunitária das pessoas expostas a novas variantes. É por isso que é necessário adaptar a composição da vacina contra a gripe, anualmente. É o que sucede na gripe sazonal (surtos epidémicos ou epidemias);

b)      “shift” antigénico ou modificação – corresponde a uma mutação a nível do genoma (que é considerado o núcleo do vírus). Durante uma infeção mista, pode suceder que dois fragmentos inteiros de dois vírus diferentes se recombinem, dando origem a um vírus novo que escapa às defesas imunitárias. É o que sucede nas grandes epidemias e nas pandemias.

A gripe é uma doença que está sempre presente mas que surge com maior agressividade nos meses de inverno, ora no hemisfério Norte, ora no hemisfério Sul, quando o frio e as condições atmosféricas são mais adversas. Por isso, a gripe é constantemente monitorizada pela Organização Mundial de Saúde em estreita colaboração com os institutos nacionais de saúde em cada país. E é precisamente a informação colhida, dia a dia, em cada local, que vai permitir coligir o máximo de informação sobre as características antigénicas dos principais vírus A e B causadores de doença nos humanos e, assim, preparar as vacinas que em cada ano serão necessariamente diferentes. Há duas épocas, já depois de as vacinas estarem prontas para serem distribuídas, o vírus alterou as suas características antigénicas e foi necessário produzirem-se novas vacinas que, por esse motivo, não puderam ser fabricadas em número suficiente para as necessidades de cada país. Quero lembrar que o processo de fabricação das vacinas obriga, por enquanto, à inoculação de ovos de galinha que são a base proteica para o desenvolvimento e replicação dos vírus. A disponibilização de mais vacinas prende-se, essencialmente, com o recurso a novas tecnologias da sua fabricação.

Acima de tudo, e em relação à importância do reforço de vacinação, é altura de mudar mentalidades: as vacinas não provocam doença e, muito menos, gripe – as vacinas vendidas na Europa são feitas a partir de vírus mortos, impossíveis de provocar doença – e essa mudança de mentalidade deve ser feita a nível dos médicos, que devem ser os grandes incentivadores e prescritores da vacinação, e também de alguns meios de informação que procuram mais o sensacionalismo do que o dever de informação. A informação atempada do período de vacinação, a disponibilidade de vacinas e a sua facilidade de administração são medidas que têm sido implementadas e que têm levado a uma subida consistente do número de vacinados.

É por isso que, quando se fala de vacinação contra a gripe, temos de ter em consideração as recomendações definidas pela Direção-Geral da Saúde (DGS), de acordo com o parecer do colégio de peritos e colaboradores (pode-se consultar o site da DGS). Por um lado, as populações de risco que deverão ser as prioritariamente vacinadas, porque são aquelas em que a infeção pode assumir um maior grau de gravidade e de mortalidade; um outro grupo que deve ser sempre vacinado são os profissionais de saúde e cuidadores porque, devido à grande capacidade de transmissão dos vírus da gripe, há necessidade de evitar que adoeçam e, ao mesmo tempo, impedir que sejam vetores de transmissão no contacto com a população mais fragilizada (crianças, portadores de doenças crónicas e de doenças depressoras da imunidade e, ainda, os idosos). O ideal seria, portanto, que as populações consideradas de risco e os profissionais de saúde (no sentido lato do termo, onde se incluem todas as pessoas que lidam com as populações mais desprotegidas) fossem todas vacinadas!

Para que se consiga mais sensibilização dos profissionais de saúde e dos portadores de doenças crónicas é importante uma melhor informação sobre a agressividade deste tipo de vírus, da inocuidade da vacinação, de melhores campanhas e mais facilidade de acesso às vacinas. As campanhas de vacinação feitas pela DGS, divulgando o período ideal de vacinação, as pessoas que, prioritariamente, devem ser vacinadas, os grupos de risco (nunca esquecendo o grupo das crianças em idade escolar e pré-escolar) e colocando sempre a tónica na necessidade de os profissionais de saúde e de todas as pessoas que lidam com doentes, idosos e crianças se vacinarem são, disso, um bom exemplo!

Quanto à inocuidade da vacina da gripe é uma realidade: raros são os casos de doenças associadas diretamente à inoculação da vacina. Quando se faz uma vacinação em massa das populações podem surgir, por vezes, epifenómenos que possam estar associados à vacinação mas que, muitas vezes, se demonstra não haver relação causal.

Cabe, também, aos meios de informação um papel importantíssimo na divulgação desta doença, da necessidade da sua prevenção e do benefício para todos da vacinação atempada contra a gripe.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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