Jornal Médico Grande Público

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DATA
30/11/2015 17:45:04
AUTOR
Luís Gouveia Andrade - Médico Oftalmologista no Hospital CUF Infante Santo
ETIQUETAS

Alimentação, Saúde e bom senso. Realidades nem sempre conciliáveis...

Como já aqui escrevi, o acesso à informação, a rapidez com que os resultados de qualquer notícia ou investigação chegam às populações tem revolucionado todas as formas de relacionamento destas com a saúde, tornando cada um de nós um parceiro activo e mais esclarecido nas diversas decisões que nos dizem respeito e obrigando os profissionais da saúde a exercícios mais atentos e delicados na forma como abordam os diferentes aspectos do diagnóstico e tratamento de uma doença.

Este mar de informação sobre saúde apresenta, como tudo na vida, vantagens e desvantagens.

As vantagens derivam, obviamente, do enriquecimento cultural e científico de todos os que têm acesso a essa informação, da maior sensibilização para as questões relacionadas com a saúde e com a prevenção das doenças e para a adopção de hábitos de vida mais consentâneos com os princípios básicos de mente sã em corpo são.

As desvantagens assentam nos mesmos pilares e resultam da ausência de filtros aplicados à informação que é publicada, tornando possível a qualquer um escrever seja o que for. Um público leigo, menos preparado para identificar fontes fidedignas de informação e para separar o trigo do joio, facilmente aceitará como correcto qualquer texto que irradie alguma idoneidade. E, nestes casos, em vez de termos populações mais bem informadas, teremos a confusão instalada e uma perda enorme de tempo por parte dos profissionais de saúde para rebaterem o que não deveria ter de o ser e a tentar repor a verdade dos factos.

Para lá da informação disponível na internet, os meios de comunicação, com destaque para a televisão, têm um papel central na difusão das novidades, boas ou más, que surgem no campo da saúde. Mas, também aqui, nem sempre esse trabalho é bem feito e, não só não existe um trabalho prévio de confirmação das notícias, como não se contabilizam os seus potenciais efeitos sobre as pessoas.

Uma das áreas onde tudo isto tem sido recorrente tem sido a da alimentação. Num curto período de tempo, vimos notícias apontando os perigos do leite ou das carnes processadas. O vinho tanto é referido como nefasto ou como protector cardiovascular e anticancerígeno. O chocolate tanto se associa a um maior perigo de diabetes como tem propriedades antidepressivas.

Estas notícias, pela cobertura mediática intensiva e concentrada no tempo que têm, apresentam um impacto tremendo nas pessoas que, sentindo-se ameaçadas, adoptam comportamentos extremos e deixam de consumir ou reduzem drasticamente o consumo dos alimentos visados. Até que novo estudo surja e seja objecto de divulgação massiva e foque a atenção do público noutra direcção.

Fará isto algum sentido? Onde está o erro? No meu entender, ele está presente nos dois lados da equação. Por um lado, a comunicação social, em uníssono, anuncia algo que parece ser relevante e esse efeito de massa eleva exponencialmente a percepção de perigo que a notícia em si mesma encerra e, por outro lado, as populações tendem a reagir de um modo emocional a essas notícias, tomando-as como incontestáveis, e agem em conformidade com a mensagem nelas contida.

No meio de tudo isto perde-se aquilo que é mais fácil de se perder: o bom senso.

Beber leite, comer carne processada, beber vinho, comer peixe, só será verdadeiramente problemático se ocorrer de forma continuada e desequilibrada. No mundo moderno, em que o modo como os animais são criados para a alimentação humana, os métodos que são aplicados na agricultura e a própria poluição que contamina mar e terra geram riscos diversos, é virtualmente impossível ingerir algo que seja isento de perigo para a saúde.

Pode-se falar hoje mais do peixe ou da carne, dos vegetais ou do leite mas, em boa verdade, tudo o que comemos e bebemos tem o potencial de nos fazer mal. O mesmo se aplica ao ar que respiramos...

Não nego a importância da informação, mas a verdade é que nem sempre ela é devidamente validada e nem sempre se conhecem as motivações por detrás do que é investigado e publicado. Como tal, é importante manter o bom senso.

Da parte da comunicação social, esse bom senso deverá traduzir-se no tom como as notícias são apresentadas, fugindo ao alarmismo e à repetição sistemática que tende a gerar uma noção de perigo acrescido. Importará, também, complementar essas notícias com comentários equilibrados, com pareceres de peritos e, sempre que se justifique, com espaço para o contraditório.

Da parte de todos nós, bom senso em perceber que viver é, em si mesmo, um risco e que, por melhor que tentemos gerir a nossa vida, esse risco não será nunca totalmente erradicado. No que se refere à alimentação, a melhor defesa será diversificá-la o mais possível, nada cortando e em nada exagerando, assim se conseguindo o máximo benefício de cada nutriente e o mínimo prejuízo de cada substância nefasta.

É verdade que vivemos num mundo de excessos. O mais dramático dos excessos é, provavelmente, vermos taxas de mortalidade tão elevadas associadas à desnutrição e à fome e, no outro lado do espectro, associadas ao excesso alimentar (doenças cardiovasculares, hipertensão arterial, diabetes).

Para todos os felizardos que têm o enorme privilégio de ter acesso a alimentos variados é quase um dever usufruir deles de forma equilibrada, responsável e sensata.

O Mundo agradece. E a nossa saúde também...

 

Nota: texto escrito segundo a grafia anterior ao acordo ortográfico

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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