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João Guerra: compreender e aplicar a Gestão da Saúde Populacional - volume versus valor
DATA
01/12/2015 18:07:51
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Jornal Médico
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João Guerra: compreender e aplicar a Gestão da Saúde Populacional - volume versus valor

[caption id="attachment_17116" align="alignnone" width="300"]Guerra, João João Guerra - Consultor Medicina Interna - Mestre em Gestão da Doença Crónica - Senior Medical Officer (IntSOS Medical Center) - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

A Gestão da Saúde Populacional (GSP) refere-se às ações intencionais tomadas para alcançar um ou mais resultados de saúde desejados num grupo definido de pessoas, através da coordenação e integração dos cuidados de saúde, das atividades de saúde pública e dos determinantes sociais e ambientais da saúde (Kizer, K.W., 2013, May, 17).

Ao nível do prestador de cuidados, a Care Continuum Alliance, a nova designação da DMAA (Disease Management American Association), propôs a seguinte definição de melhoria da saúde populacional “o modelo de melhoria da saúde populacional realça três componentes: o papel central na prestação dos cuidados e de liderança dos médicos dos cuidados de saúde primários; a importância essencial da ativação do doente, do seu envolvimento e responsabilidade pessoais; e o foco no doente e na capacidade de expansão da coordenação dos cuidados prestados através dos programas de bem-estar e de gestão da doença e dos cuidados crónicos (Care Continuum Alliance, 2012).

Para serem capazes de atingir todos estes objetivos, as instituições de saúde prestadoras de cuidados devem assegurar a provisão proativa de cuidados crónicos e preventivos a todos os doentes inscritos nas listas dos médicos, tanto durante as consultas como nas demais interações com os restantes sectores do sistema de saúde. Tal requer que os médicos mantenham um contato regular com os doentes e apoiem os seus esforços para gerir a sua própria saúde. Em simultâneo, os gestores da doença devem gerir os doentes de alto risco para prevenirem o desenvolvimento de complicações, orientando-se por protocolos baseados na evidência para avaliar e tratar os doentes de uma forma consistente e custo-efetiva.

Ambas as abordagens fazem parte da estratégia de intervenção integrada da GSP.

A GSP exigirá, assim, uma mudança significativa na forma de pensar e dos padrões de prática de todos os profissionais dos cuidados de saúde. Em vez de se enveredar pelo caminho fácil de “mais volume, mais remuneração”, os profissionais deverão ser remunerados pela eficiência e pela qualidade. E terão que se habituar a pensar em termos de cuidados para uma população inteira e não apenas nos doentes individuais que, por iniciativa própria, procuram cuidados. Neste modelo, os hospitais verão alguns dos seus reembolsos deslocarem-se para os cuidados ambulatórios face à diminuição dos internamentos e dos procedimentos hospitalares, mas terão a oportunidade de partilhar das poupanças globais das instituições que integram o mesmo sistema de cuidados de saúde. E enquanto os prestadores irão continuar a competir entre si, eles também terão que trabalhar em conjunto para coordenarem os cuidados e as trocas da informação de saúde numa cultura de responsabilidade partilhada na prossecução dos melhores resultados clínicos para os seus doentes.

Estas mudanças levantam desafios significativos e, potencialmente, assustadores. Não só as instituições de saúde têm que abraçar um novo modelo de reembolso para apoiar a GSP, mas também devem incentivar os respetivos prestadores a adotarem uma nova maneira de executar o trabalho (ou, inclusive, o negócio, se consideramos o sector privado), incluindo a forma como ele é compensado para se alinhar com modelos de reembolso inovadores, mais alinhados com o valor do que com o volume. Em matéria de gestão da doença crónica, os médicos podem ver mais doentes, mas têm que apresentar melhores resultados clínicos, cabendo às direções clínicas definir, monitorizar e auditar periódica e sistematicamente, esses resultados, reportando o feedback aos prestadores. As políticas internas e da concorrência de prestadores de outras instituições de saúde podem, também, desafiar tanto a competitividade como a colaboração, pelo que os líderes terão de prever como vão criar o ambiente e a cultura certas para a mudança. Além disso, as instituições prestadoras de cuidados de saúde terão de abrir linhas de comunicação com os órgãos de saúde pública e outras entidades dentro das suas comunidades.

Ao nível operacional as instituições devem mudar as suas estruturas, bem como os fluxos de trabalho para implementar a GSP e adotar novos tipos de dispositivos de automatização e de relatórios. A automatização dos processos inerentes à GSP é imprescindível para uma gestão fiável, escalável e sustentável dos cuidados (Institute for Health Technology Transformation, 2012), atendendo a que a enorme multiplicidade de variáveis a controlar, o imperativo da rotatividade operacional dos cuidados e o volume de dados a armazenar se tornam, a breve prazo, incompatíveis com uma gestão manual. Na próxima publicação analisaremos as funções e a aplicabilidade da GSP.

Referências

1. Kindig, D., Stoddart, G. (2003) Mar What is population health? American Journal of Public Health; 93(3):380–3.

2. Howe, R., and Spence, C. (2004). Population health management: Healthways’ PopWorks. HCT Project, volume 2, ch., 5, pages 291-297.

3. Coughlin, J.F., Pope, J., Leedle, B.R. (2006). Old age, new technology, and future innovations in disease management and home health care. Home Health Care Management & Practice. 18(3):196-207.

4. Care Continuum Alliance (2012). Implementation and Evaluation: A Population Health Guide for Primary Care Models. Population Health Management. http://www.populationhealthalliance.org/publications/population-health-guide-for-primary-care-models.html. Acedido em 28 de Agosto de 2015.

5. Kizer, K.W., (2013, May, 17). Population Health Management, Clinical Integration and Systemness: Keystones for Future Health System Survival.

http://www.ucdmc.ucdavis.edu/iphi/resources/Presentations/HospCouncilofNorthern&CentralCASymposium_05172013.pdf. Acedido em Ago, 2014.

6. Christianson, J.B., et al. (1988). Restructuring Chronic Illness Management – Best Practices and Innovations in Team-based Treatment. San Francisco: Jossey-Bass Publisher.

7. Institute for Health Technology Transformation (2012) Population Health Management-A Roadmap for Provider-Based Automation in a New Era of Healthcare.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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