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Rui Cernadas: desculpem mas eu li! Qualidade em Saúde
DATA
09/12/2015 16:00:17
AUTOR
Jornal Médico
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Rui Cernadas: desculpem mas eu li! Qualidade em Saúde

[caption id="attachment_11851" align="alignnone" width="300"]CernadasRui1 Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Não é nossa intenção escrevinhar aqui e agora qualquer artigo científico ou monografia sobre a qualidade em saúde.

Não porque o assunto o não justificasse ou merecesse, mas tão simplesmente porque não sei o suficiente sobre o tema.

Há, de resto e para os mais interessados, vasta bibliografia, nacional e estrangeira, em torno da matéria e sob ângulos diversos, incluindo a gestão da qualidade em saúde, o modelo integrado de qualidade em saúde, a perceção dos utentes, a governação de hospitais e de cuidados de saúde primários, modernização, qualidade e inovação, indicadores de qualidade em saúde, análises de satisfação, definições de qualidade e métodos de avaliação, determinantes da qualidade, evolução do conceito de qualidade, gestão e qualidade, excelência em serviços, enfim…

Na verdade, a relação entre a prestação de cuidados de saúde, a todos os níveis de diferenciação, e a designada qualidade em saúde tornou-se quase permanente.

Pelo menos, no plano do discurso e da linguagem.

Mas temos como certo que a noção da qualidade exige o mais amplo envolvimento de toda uma organização, a qual e por isso não pode deixar de acionar e motivar todos os profissionais do sistema, apontando no sentido do encontro e da resposta às necessidades e expectativas dos cidadãos, como clientes. E em similar sentido para os profissionais.

Contudo, se se reconhece o papel e a posição chave dos utentes e cidadãos, por exemplo no caso do Serviço Nacional de Saúde (SNS), onde são também contribuintes, e até se preconiza tal função no modelo de organização dos serviços de saúde, a medida ou avaliação da respetiva satisfação em resposta aos cuidados dispensados pode não bastar. Diria mesmo que não bastará. Ou seja, o mero exercício do direito legal de recolha da opinião do utente não chega para uma estratégia autêntica e real de modificação ou adoção de novas formulações ou enquadramentos funcionais.

A perceção da qualidade de um serviço é traduzida segundo modelos tão pessoais e personalizados que, se perguntássemos a dez pessoas, à saída duma consulta hospitalar ou de uma urgência, ou de uma unidade de saúde familiar (USF), o que é a qualidade, obteríamos como resposta outras tantas e diferentes análises ou expressões.

E é importante falar sobre isto porque, muitas vezes, o SNS assume posições contraditórias mesmo que necessárias ou indispensáveis.

De alguma forma, diria, o período histórico e social da Revolução Industrial, parece não ter atingido ainda a saúde.

De facto, a quantidade prevalece sobre a exigência de qualidade e será mais comum ouvir falar do tempo médio das consultas, do número de utentes por lista, da dimensão dos tempos de espera, da produção cirúrgica e outras, do que propriamente em metas ou indicadores qualitativos por excelência, sejam no plano organizativo ou, sobretudo, ao nível técnico e científico.

Os cuidados de saúde primários são até um exemplo disto.

O indicador relativo à medição da satisfação dos utentes, na linha da qualidade, em termos nacionais, desde a criação das USF só muito recentemente foi trabalhado e ainda assim, por amostragem.

Mas a saúde só tem “mas”.

E um deles, provavelmente dos mais fortes nesta abordagem, decorre do conceito de que a forma como um serviço é ou pode ser prestado é, assim, o aspeto fulcral a ser valorizado e percecionado pelo utente.

Provavelmente poderá vir a ser muito perigoso alimentar um rumo estratégico que não alargue responsabilidades e literacia.

Não creio, sinceramente que, a qualidade técnica e médica, neste caso, possa ser entendida facilmente pelo doente e utente.

Mas não tenho qualquer dúvida quanto ao fato de que, a Qualidade em Saúde, vai claramente para além da qualidade técnica e clínica do serviço disponibilizado…

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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